Entre as muitas histórias, acerca de Gandhi, uma me vem à cabeça, neste momento.
Conta-se que, certa vez, Gandhi recebera, em sua casa, para uma reunião, os principais líderes da Revolução pró-independência da Índia. Todos reunidos, pauta em andamento, Gandhi recebeu a visita de um menino, que lhe cochichou alguma coisa ao seu ouvido. O Grande Marratma interrompeu a reunião e saiu às pressas, deixando a todos atônitos. O que aconteceu?, perguntavam. Todos foram à janela para ver Gandhi atender a uma cabra, que estava com dor de barriga.
Os presentes se olharam e perguntaram, de forma ironica:
Poxa, ele interrompe uma reunião com altos representantes do movimento para atender a uma cabra que está com coligas?
Muitos não entenderam o significado daquele gesto para Gandhi. No Mundo de Deus, nenhuma coisa é mais importante do que outra.
Muitas vezes ignoramos coisas pequenas, compromissos já assumidos, porque achamos que estamos dando importância às coisas relevantes, gesto que estaria justificando plenamente a sua omissão.
Quantas vezes um político ou um gestor vai de encontro a compromissos menores, já firmados, porque está agindo “em nome do bem comum" .
Tanto a democracia como o autocratismo usam o mesmo discurso: trabalham para o bem comum.
Mas, para mim, nenhuma causa, por mais nobre que seja, vale a quebra de cumplicidades estabelecidas.
Gandhi entendeu que dar a atenção a uma simples cabra é tão importante quanto discutir os destinos de sua Índia.
No Universo, criado por Deus, todos são iguais, perante o Criador. A diferença está nas formas como olhamos as situações que nos cercam: olharmos o universo manifestado com o que é invisível aos olhos e afeto ao coração.
Faltar a palavra empenhada, deixar de reconhecer tratos formulados, não dar importância às coisas menores, porque estamos tratando de questões maiores, em nome do benefício de todos, é permtir que nos deixamos impregnar pelo discurso coletivo, quando nossas intenções não querem outra coisa senão satisfazer a nossos desejos pessoais.
Gandhi se deu conta disso. E nós pobres mortais? Em que amparamos nossos discursos? No altruísmo e na reverência a todas as formas criadas por Deus ou no discurso inflamado, baseado em intenções de servir, carregando, de forma subjacente, nosso universo egocêntrico em busca de satisfação de nossos desejos?
quarta-feira, 14 de julho de 2010
segunda-feira, 12 de julho de 2010
O legado aos mais jovens e a espiritualidade
Fazendo um monólogo sobre a situação atual do Brasil, tenho me perguntado se não estou sendo moralista demais, quando analiso o legado que estamos deixando para nossas crianças. É que pessoas mais velhas, como eu, costumam considerar as suas experiências, trazidas da infância e da juventude, que constituem a sua realidade vivencial, para tentar entender o que se passa com essa nova juventude, que há de nos suceder na condução dos destinos deste País e de nosso Planeta. À guisa de tais elementos, no entanto, nós, mais velhos, estamos correndo o risco de parecermos caretas, conservadores em relação às transformações porque passa cada nova geração.
Nas escolas, alunos, até mesmo menores de 12 anos, começam a andar armados. Alunos agridem, fisicamente, professores e professores agridem seus alunos. Alunas são estrupadas por colegas. Alunos que incendeiam mendigos. Fora dos ambientes escolares, são deixadas em companhia de babás eletrônicas. Jovens que formam gangues, a princípio, para maior segurança, mas, depois, desvirtuam-se pelo caminho, intimidando os mais fracos e susceptíveis ao poder que emanam. Jovens que, em escala crescente, experimentam drogas como forma de escape de suas questões existenciais e em busca de conquistar um prazer imediato que, na maioria das vezes, culmina com a dependência e alienação.
Por certo que contam com exemplos pouco significativos para a sua formação psicológica, em meio a ambientes escolares e familiares desprovidos do principio da solidariedade. E, ainda, as deficiências de um sistema de ensino que enseja a falta de aulas e a fazerem passar de ano alunos sem estudar. Tudo isso em meio à remuneração deficiente de professores e a existência de um número expressivo deles que dão aulas de matérias as quais não possuem formação. A Escola não constitui um ente a parte, mas é resultado da interação que mantém com a sociedade que a criou e a alimenta. Muitos deles derivados de lares desestruturados, formados pela imaturidade emocional.
A falta de limites, impunidades para atos de desvios, geram comportamentos de arrogância, ausência de escrúpulos, como conseqüência da falta de noção entre o que é certo e o que é errado.
Nasce uma geração violenta, marcada pela a exacerbação de direitos individuais e a invasão sobre os direitos alheios. Ao chegar na vida adulta, esses adolescentes transformam essa transgressão em estatística. Neste momento, o caso Bruno invade as manchetes dos principais jornais do mundo, que vê estarrecido como os efeitos que a falta de afetividade, na infância, pode causar aos indivíduos quando alcançam a vida adulta.
No mesmo dia em que escrevo este artigo, domingo (11), um jovem é preso, em Alagoas por tentar estuprar uma idosa de 88 anos, na zona rural de Coruripe, a 85 km de Maceió. O que dizer desse fato? E dos valores existenciais presentes na vida deste jovem?
Paralelamente, a grande imprensa divulga os números de uma pesquisa disseminada pela Central de Atendimento da Secretaria de Políticas para as Mulheres do Governo Federal, durante o decênio 1997 a 2007. Os números mostram que, em média, dez mulheres são assassinadas por dia. A maioria vítima de crime passional.
No Rio de Janeiro é registrada uma vítima a cada 24 horas. Segundo uma pesquisa do Instituto de Segurança Pública do Rio, 128 mulheres sofrem ameaças de parceiros todos os dias. Quarenta e quatro são vítimas de tentativa de homicídio por mês. Delas, 45,8% conhecem os acusados, que não se conformam de terem sido rejeitados. Segundo conta uma vítima, que não quis ser identificada aos promotores da pesquisa, e que engrossa essas estatísticas: “Do beliscão e do puxão foi para o tapa, para agressividade mais forte. Quebrou o carro todo, me agrediu de várias formas com pontapé, soco. Foi quando eu resolvi denunciar”.
O resultado dessa escalada? Apesar da violência, muitas mulheres não conseguem romper o relacionamento. Muitas dependem psicologicamente ou financeiramente dos companheiros e desistem de prosseguir com as denúncias. “Terminei o namoro e hoje em dia eu consigo ter uma relação ótima, sem violência”, conta uma vítima.
No âmago desta realidade está a existência de indivíduos com baixa estima e a formação inadequada de ambientes familiares. E de suas conseqüências no ambiente escolar e social, onde as influências, o poder econômico e a impunidade estão presentes de forma subjacente.
Geralmente, a iminência de fatos, guardados na intimidade, virem a ganhar repercussão pública, constitui o estopim para descontrolados desatinos. É como se uma represa que, depois de rompida, carrega tudo o que esteve represado, levando com suas águas tudo o que se mantinha contido.
E essa contingência não é só privativa de alguns poucos, mas afeta o ser humano indistintamente. Quanto mais o ser teme a revelação de fatos que preferem permanecer escondidos, maiores são os desatinos, assim como maior será a tendência de ver a sua vida esmiuçada e transparente no domínio público.
Muitos que me lêem hão de perguntar: “o que eu tenho a ver com tudo isso? Se não fui eu que criei essa realidade, não estou diretamente envolvido, nem presencio a maioria dos casos de violência. Está longe de minhas experiências existenciais, longe dos meus olhos e fora dos ambientes que convivo”.
“Não existe o livre-arbítrio? Não seriam essas pessoas, diretamente envolvidas, responsáveis por tudo o que criaram?”, perguntam. “Então porque tudo isso tem a ver com a minha vida e com o meu destino?”
Somos parte de um Universo e, como a palavra já diz, uno, indivisível, conformado por partes que se complementam, para formar o todo, assim como uma puzzle, cujas peças, sozinhas, podem se bastar mas precisam de outras para formar o desenho final.
Somos parte de um todo e ao todo vamos, progressivamente, nos integrar. Sem perdermos a individualidade, porém fazendo parte de um esforço de concretizar uma obra que depende de encaixes.
O que podemos fazer para reverter essa tendência à violência que acomete a atual sociedade brasileira? Trabalharmos tanto espiritual quanto materialmente para revertermos o quadro em que se encontra a atual sociedade brasileira. Do ponto de vista espiritual, trabalhando para aumentar as boas energias e, do ponto de vista material, acabarmos com a impunidade e a ausência de limites na formulação das relações sociais.
Estamos acostumados a encarar a realidade dentro de uma lógica cartesiana que costuma separar a semi-consciência biológica de uma consciência humana. Vivemos trabalhando para fazermos plasmar um mundo idealizado e estável, ignorando a existência de um mundo instável e evolutivo que é alimentado por energias, de ordem eletromagnéticas. Tais energias emanam de uma só fonte, circulam, assumindo diferentes graduações, que vão das mais grosseiras às mais sutis, sem deixar de perder a integralidade e unicidade.
Aqueles que escolheram alguma forma de trabalhar a expansão da consciência e a encontrar estados não ordinários, para alcançar a dimensão espiritual, sabem da unicidade que une os homens. Ao alcançarem esta extraordinária lucidez, meditação, concentração e contemplação profundas, essas pessoas entram num estágio de abstração que lhes permitem sentir as dores que outras pessoas sentem, se tornando parte do outro.
Alcançam uma espécie de consciência transpessoal, onde predomina uma energia estática que lhe dão a condição de liberar-se de suas limitações humanas e lhes darem a certeza de estar em contato com a realidade divina. É uma experiência intransferível, que extrapola as estruturas e dogmas estabelecidos por igrejas e doutrinas. Essas pessoas aprendem a distinguir a realidade dinâmica ordinária dos planos transpessoais, descritos por Patrick Drouot, em sua obra “O Físico, o Xamã e o Místico”.
Esses estados, vivenciados por aqueles que alcançam uma realidade transpessoal, são alcançados por todos, durante o sono, embora a maioria não se aperceba das formas de contato que mantém, enquanto encontra-se fora de sua consciência biológica. Tudo isso está ao alcance de todos, como forma de realizarem o seu aprimoramento nas relações entre homens e o Universo, e, também, que sua evolução pessoal não é suficiente e que, para ser completa, necessita dos demais seres que o rodeiam para alcançar níveis mais elevados de evolução.
Enquanto o mal avança, ruidosamente, o bem se recolhe silenciosamente, para dentro do coração daqueles que buscam uma consciência mais elevada. Como diz Patrick Drouot: “a matéria não poderia existir sem uma consciência para percebê-la”.
Precisamos de novos líderes, mais preocupados com seus liderados do que com a sua própria satisfação de seus desejos. Precisamos de pessoas compromissadas com o desenvolvimento espiritual, que levem o equilíbrio à forma para evitar as dissociações patológicas. E não de maus líderes, que usam o domínio da força, da arrogância e da intimidação, convertendo-se em maus exemplos para os mais jovens.
Precisamos quebrar com o princípio grego dualístico vigente, dos pares de opostos, substituindo-o pela crença de que o universo é uno e não separado. E que, em decorrência, todos os atos de irresponsabilidade, de quem os pratica, estarão diretamente ligados à contingência de retornar a si mesmos, dentro da lei de causa e efeito, pois o Universo não é infinito e, portanto, tudo o que é feito em seus domínios volta a seu ponto gerador.
Para aqueles mais conseqüentes, com o que acontece, hoje, no Brasil, em relação à escalada da violência, resta a abertura de canais de discussões sobre as formas como podemos enfrentar, conjuntamente, os seus sintomas, de que pelo menos parte da população carece de um sentido mais transcendente para suas vidas e, também, que suas formas desarmoniosas de constituição colidem com o princípio da harmonia que rege o grupo humano a que pertencem.
A impassividade e o imobilismo podem parecer uma posição mais cômoda: a neutralidade. Mas logo-logo os efeitos desse imobilismo poderão reverter-se no agravamento dessa realidade que já atinge, de forma sintomática, a toda a sociedade brasileira.
quinta-feira, 8 de julho de 2010
Virtudes e espiritualidade
De volta às reflexões comportamentais, após a minha recente digressão no campo político, lembro-me do que dizia o escritor Fernando Sabino, de que escrever é a arte do monólogo. E eu digo, também, que escrever é a arte de aproximar, pela escrita, seres humanos que possuam afinidades.
Existe uma evolução natural nas relações, assim como existe uma evolução na condição humana, já que tudo evolui, tudo muda, tudo se transforma. A dor aparece, na vida de cada um, como forma de realizar o resgate de nossas dívidas existenciais, quando um ser humano teima em não realizar esse resgate de forma consciente e através de seu livre-arbítrio.
Na passagem por este mundo, queremos deixar nossas marcas, sermos lembrados com admiração e respeito, estabelecermos atalhos para não sofrermos, não sermos vítimas do destino. O acúmulo de riquezas serve para atender não só as necessidades de consumo, mas, também, como ícone para sermos lembrados para muito além de nossa passagem por esta forma de vida.
Mas as verdeiras mudanças espirituais não ocorrem porque temos virtudes que são usadas quando assim o desejamos. Muitos dizem: mas eu rezo tanto, eu sou bonzinho, respeito os demais, por que acontecem os revezes em minha vida? Não merecia passar pelo que estou passando.
Ser bonzinho para ganhar prêmios não é nada mais do que barganhar com a vida, dentro de uma relação de troca: eu te dou isso (sou bonzinho) e a vida me dá aquilo: dinheiro, estabilidade, saúde, status, poder, ascendência, condição de interferir na vida dos outros, simplesmente porque pratico virtudes.
Ser bonzinho não é condição para se alcançar maior desenvolvimento espiritual.
O Mestre Jesus, considerado o Mestre da Compaixão, têm o seu Reino de Amor para ensinar que, se amarmos a cada criatura ou coisa através de um amor puramente pessoal, um amor que esteja vinculado ao doar como forma de conceder, uma forma de amar que se compraz mais da sensação de amar do que com o bem de ser amado, nos afastamos de nossa real condição de ascensão espiritual.
Para nos ligarmos à grande corrente ascensionada do amor, temos que aprender a amar de uma forma tão inteiramente destituída de egoísmo, sem sentir angústia, sem se sentir atraída por recompensas muito maiores do que somos capazes de dar. Isso é viver a dimensão do amor superior, que nunca nos será tirado, nem elevado, nem rebaixado, nem qualquer outra pessoa poderá nos tirar do objeto do amor.
No caminho do desenvolvimento espiritual, não são os deveres, mas os desejos que devem ser gradativamente aperfeiçoados até a sua gradativa extinção. Os deveres devem ser cumpridos, sem se eximir, cada dívida humana tem que ser amortizada, para nos tornarmos almas livres. Os Mestres da Sabedoria nos aguardam ao longo de nosso caminho ou trajetória. A um dado momento eles nos tomam pelas mãos e nos ajudam a seguir pelo caminho.
Nosso trabalho consiste em conquistarmos os meios, porque, seguramente, Deus será quem nos indicará como usarmos as nossas conquistas. Nossas incompetências não servem de passagem para uma condição maior. Então temos que buscar a evolução fazendo o melhor de nós mesmos. Construirmos a nobreza de caráter e o equilíbrio da mente. Caso venha a falhar nisso, alguma coisa nos ficará faltando tal qual subir uma escada que está faltando um degrau.
Para aqueles que desejam embrenhar-se pelo caminho do desenvolvimento espiritual, algumas coisas são consideradas básicas, e, à medida que se os alcança, nos tornamos capazes de colher os seus frutos. São eles:
Pureza e paz, mente sã em corpo sadio, misericórdia no pensamento e na ação, bem como na palavra ou na escrita, ordem e limpeza, tanto na mente como no ambiente, tratamento justo e honesto no cumprimento das obrigações; e, principalmente, bondade simples para adoçar os relacionamentos humanos. Em duas palavras: nobreza de caráter e equilíbrio da mente.
Se cada um fizer a sua parte, estaremos, juntos, nos harmonizado com o meio e com o agrupamento que vivemos, dentro de uma condição mais solidária, pluralista e verdadeiramente favorável para que demos curso à evolução natural do ciclo da vida.
Existe uma evolução natural nas relações, assim como existe uma evolução na condição humana, já que tudo evolui, tudo muda, tudo se transforma. A dor aparece, na vida de cada um, como forma de realizar o resgate de nossas dívidas existenciais, quando um ser humano teima em não realizar esse resgate de forma consciente e através de seu livre-arbítrio.
Na passagem por este mundo, queremos deixar nossas marcas, sermos lembrados com admiração e respeito, estabelecermos atalhos para não sofrermos, não sermos vítimas do destino. O acúmulo de riquezas serve para atender não só as necessidades de consumo, mas, também, como ícone para sermos lembrados para muito além de nossa passagem por esta forma de vida.
Mas as verdeiras mudanças espirituais não ocorrem porque temos virtudes que são usadas quando assim o desejamos. Muitos dizem: mas eu rezo tanto, eu sou bonzinho, respeito os demais, por que acontecem os revezes em minha vida? Não merecia passar pelo que estou passando.
Ser bonzinho para ganhar prêmios não é nada mais do que barganhar com a vida, dentro de uma relação de troca: eu te dou isso (sou bonzinho) e a vida me dá aquilo: dinheiro, estabilidade, saúde, status, poder, ascendência, condição de interferir na vida dos outros, simplesmente porque pratico virtudes.
Ser bonzinho não é condição para se alcançar maior desenvolvimento espiritual.
O Mestre Jesus, considerado o Mestre da Compaixão, têm o seu Reino de Amor para ensinar que, se amarmos a cada criatura ou coisa através de um amor puramente pessoal, um amor que esteja vinculado ao doar como forma de conceder, uma forma de amar que se compraz mais da sensação de amar do que com o bem de ser amado, nos afastamos de nossa real condição de ascensão espiritual.
Para nos ligarmos à grande corrente ascensionada do amor, temos que aprender a amar de uma forma tão inteiramente destituída de egoísmo, sem sentir angústia, sem se sentir atraída por recompensas muito maiores do que somos capazes de dar. Isso é viver a dimensão do amor superior, que nunca nos será tirado, nem elevado, nem rebaixado, nem qualquer outra pessoa poderá nos tirar do objeto do amor.
No caminho do desenvolvimento espiritual, não são os deveres, mas os desejos que devem ser gradativamente aperfeiçoados até a sua gradativa extinção. Os deveres devem ser cumpridos, sem se eximir, cada dívida humana tem que ser amortizada, para nos tornarmos almas livres. Os Mestres da Sabedoria nos aguardam ao longo de nosso caminho ou trajetória. A um dado momento eles nos tomam pelas mãos e nos ajudam a seguir pelo caminho.
Nosso trabalho consiste em conquistarmos os meios, porque, seguramente, Deus será quem nos indicará como usarmos as nossas conquistas. Nossas incompetências não servem de passagem para uma condição maior. Então temos que buscar a evolução fazendo o melhor de nós mesmos. Construirmos a nobreza de caráter e o equilíbrio da mente. Caso venha a falhar nisso, alguma coisa nos ficará faltando tal qual subir uma escada que está faltando um degrau.
Para aqueles que desejam embrenhar-se pelo caminho do desenvolvimento espiritual, algumas coisas são consideradas básicas, e, à medida que se os alcança, nos tornamos capazes de colher os seus frutos. São eles:
Pureza e paz, mente sã em corpo sadio, misericórdia no pensamento e na ação, bem como na palavra ou na escrita, ordem e limpeza, tanto na mente como no ambiente, tratamento justo e honesto no cumprimento das obrigações; e, principalmente, bondade simples para adoçar os relacionamentos humanos. Em duas palavras: nobreza de caráter e equilíbrio da mente.
Se cada um fizer a sua parte, estaremos, juntos, nos harmonizado com o meio e com o agrupamento que vivemos, dentro de uma condição mais solidária, pluralista e verdadeiramente favorável para que demos curso à evolução natural do ciclo da vida.
terça-feira, 20 de abril de 2010
A SOLIDÃO E A INSPIRAÇÃO NO POETA
Quem nessa vida ainda não padeceu de solidão?
Para aqueles que disseram sim, é só lidar com ela, é só lidão.
Relendo o poeta Rainer Maria Rilke consigo extrair a essência desta verdadeira digressão:
“Solidão é entrar em si mesmo, não encontrar ninguém durante horas ... estar sozinho como se estava quando criança, enquanto os adultos iam e vinham, ligados a coisas que pareciam importantes e grandes, porque esses adultos tinham um ar tão ocupado e porque nada se entendia de suas ações... só depois de um dia a gente descobre que suas ocupações são mesquinhas e suas profissões petrificadas, sem ligação alguma com a vida. Por que não voltar a olhá-los outra vez como uma criança olha para uma coisa estranha, do âmago de seu próprio mundo, dos longes de sua própria solidão que é, por si só, trabalho, dignidade e profissão?”
Com efeito, como sugere o poeta, quando a solidão nos bate no peito, é preciso olhar para dentro de si e observar as coisas que nunca nos abandonam, como procurar ver a Deus que se encontra em toda a parte, inclusive em nós. Estás perdido de Deus? Bem, talvez nunca tenhas sido tomado por Ele, como pergunta o poeta: “que coisa então o autoriza a sentir falta de alguém que nunca foi e a procurá-lo como se estivesse perdido”? “Não vês como tudo o que acontece é sempre um começo”?
Sempre estamos acostumados a ver em Deus o inicio de algo, mas poucas vezes pensamos na possibilidade de vê-l0 como um fim, a encerrar tudo em si! E o poeta pergunta: “Que sentido teria a nossa vida se Aquele a que aspiramos já tivesse existido”?
Talvez, essa angústia que sentimos, pelos corredores de nós mesmos, seja o começo de uma nova realidade nascendo. Talvez seja Ele querendo gerar a consciência maior, dentro de nós, e, aí, como sugere o poeta, devemos “procurar dificultar tão pouco o seu nascimento, quanto a terra dificulta o advento da primavera, quando ela tem de vir”.
Sempre digo que há uma tênue porém substancial diferença entre estar só e se sentir só. Sentir-se só é percorrer os caminhos interiores, sem nada encontrar. Estar só é se deixar esvaziar, para que esse vazio se encha de uma coisa nova, que dá princípio e também fim a tudo o que em nós existe. E, quando esse algo chega, só a plenitude pode explicar a sua continuidade.
Ou, como diz o poeta: “ Que sentido teria, com efeito, a união com algo não esclarecido, inacabado, independente? Cada um se perde por causa do outro e perde ao outro e a muitos outros que ainda queriam vir. Perde os longes e as possibilidades, troca o aproximar-se e o fugir de coisas silenciosas e cheias de sugestões por uma estéril perplexidade de onde nada de bom pode vir, a não ser um pouco de enjôo, desilusão e empobrecimento.
“Depois esses procuram salvar-se, agarrando-se a uma das muitas convenções que se oferecessem como abrigos para todos nesse perigoso caminho. Nenhum terreno de experiência humana é tão “próprio de convenções como este.. Não podemos dizer quem veio, talvez nunca o venhamos a saber, mas muitos sinais fazem crer que é o futuro que entra em nós dessa maneira, para se transformar em nós mesmos muito antes de vir a acontecer. Por isso é tão importante estar só e atento quando se está triste. O momento, aparentemente anódino e imóvel, em que nosso futuro entra em nós, está muito mais próximo da vida do que aquele outro, sonoro e acidental, em que ele nos sobrevém como se chegasse de fora. Quanto mais estivermos silenciosos, pacientes e entregues à nossa mágoa, tanto mais profunda e imperturbável entra a novidade em nós, tanto melhor a conquistamos, tanto mais ela se tornará nosso destino e quando num dia ulterior, vier a 'acontecer' senti-la-emos familiar e próxima.... há que se reconhecer, aos poucos, que aquilo que chamamos destino sai de dentro dos homens em vez de entrar neles... O futuro está firme, nós é que nos movimentamos no espaço infinito”.
E, para aqueles, que não querem conviver com os corredores interiores vazios, antes de enche-los de vida, talvez o horror do devenir, seja, conforme o poeta, uma forma de desamparo que implora o nosso auxílio. Sair ao encontro do silêncio, perseverar nele e buscar transcendê-lo é, antes de tudo, unir passado, presente e futuro, simplesmente num ato de existir, onde a eternidade é quem marca toda a forma de transição, pois a solidão é a evidência maior do silêncio, que não é algo que se possa tomar ou deixar. Somos nós quem temos que admitir que somos sós, e, a partir daí, alterarmos todas as distâncias, todas as medidas, para aceitarmos a existência em toda a sua plenitude, incluindo o inaudito.
Ou, como diz o poeta: “Não é apenas a preguiça que faz as relações humanas se repetirem numa tão indizível monotonia em cada caso; é também o medo de algum acontecimento novo, incalculável, frente ao qual não nos sentimos bastante fortes. Somente quem está preparado para tudo, quem não exclui nada, nem mesmo o mais enigmático, poderá viver sua relação com outrem como algo de vivo e ir até o fundo de sua própria existência”.
E eu acrescento: a solidão, condição inerente ao ser humano, não é um fim em si, mas um sinal, uma revelação, sempre a indicar que mesmo diante de qualquer abismo há sempre uma outra margem, e, mesmo que fiquemos presos a uma de suas bordas, ele migrará para algo bem mais familiar, mais fiel e mais revelador, são circunstâncias de um momento, marcados por dor, inquietação ou melancolia que se transforma em amparo, mão estendida pela própria vida, o verdadeiro triunfo que marca a todos os momentos maiores de uma existência.
Para aqueles que disseram sim, é só lidar com ela, é só lidão.
Relendo o poeta Rainer Maria Rilke consigo extrair a essência desta verdadeira digressão:
“Solidão é entrar em si mesmo, não encontrar ninguém durante horas ... estar sozinho como se estava quando criança, enquanto os adultos iam e vinham, ligados a coisas que pareciam importantes e grandes, porque esses adultos tinham um ar tão ocupado e porque nada se entendia de suas ações... só depois de um dia a gente descobre que suas ocupações são mesquinhas e suas profissões petrificadas, sem ligação alguma com a vida. Por que não voltar a olhá-los outra vez como uma criança olha para uma coisa estranha, do âmago de seu próprio mundo, dos longes de sua própria solidão que é, por si só, trabalho, dignidade e profissão?”
Com efeito, como sugere o poeta, quando a solidão nos bate no peito, é preciso olhar para dentro de si e observar as coisas que nunca nos abandonam, como procurar ver a Deus que se encontra em toda a parte, inclusive em nós. Estás perdido de Deus? Bem, talvez nunca tenhas sido tomado por Ele, como pergunta o poeta: “que coisa então o autoriza a sentir falta de alguém que nunca foi e a procurá-lo como se estivesse perdido”? “Não vês como tudo o que acontece é sempre um começo”?
Sempre estamos acostumados a ver em Deus o inicio de algo, mas poucas vezes pensamos na possibilidade de vê-l0 como um fim, a encerrar tudo em si! E o poeta pergunta: “Que sentido teria a nossa vida se Aquele a que aspiramos já tivesse existido”?
Talvez, essa angústia que sentimos, pelos corredores de nós mesmos, seja o começo de uma nova realidade nascendo. Talvez seja Ele querendo gerar a consciência maior, dentro de nós, e, aí, como sugere o poeta, devemos “procurar dificultar tão pouco o seu nascimento, quanto a terra dificulta o advento da primavera, quando ela tem de vir”.
Sempre digo que há uma tênue porém substancial diferença entre estar só e se sentir só. Sentir-se só é percorrer os caminhos interiores, sem nada encontrar. Estar só é se deixar esvaziar, para que esse vazio se encha de uma coisa nova, que dá princípio e também fim a tudo o que em nós existe. E, quando esse algo chega, só a plenitude pode explicar a sua continuidade.
Ou, como diz o poeta: “ Que sentido teria, com efeito, a união com algo não esclarecido, inacabado, independente? Cada um se perde por causa do outro e perde ao outro e a muitos outros que ainda queriam vir. Perde os longes e as possibilidades, troca o aproximar-se e o fugir de coisas silenciosas e cheias de sugestões por uma estéril perplexidade de onde nada de bom pode vir, a não ser um pouco de enjôo, desilusão e empobrecimento.
“Depois esses procuram salvar-se, agarrando-se a uma das muitas convenções que se oferecessem como abrigos para todos nesse perigoso caminho. Nenhum terreno de experiência humana é tão “próprio de convenções como este.. Não podemos dizer quem veio, talvez nunca o venhamos a saber, mas muitos sinais fazem crer que é o futuro que entra em nós dessa maneira, para se transformar em nós mesmos muito antes de vir a acontecer. Por isso é tão importante estar só e atento quando se está triste. O momento, aparentemente anódino e imóvel, em que nosso futuro entra em nós, está muito mais próximo da vida do que aquele outro, sonoro e acidental, em que ele nos sobrevém como se chegasse de fora. Quanto mais estivermos silenciosos, pacientes e entregues à nossa mágoa, tanto mais profunda e imperturbável entra a novidade em nós, tanto melhor a conquistamos, tanto mais ela se tornará nosso destino e quando num dia ulterior, vier a 'acontecer' senti-la-emos familiar e próxima.... há que se reconhecer, aos poucos, que aquilo que chamamos destino sai de dentro dos homens em vez de entrar neles... O futuro está firme, nós é que nos movimentamos no espaço infinito”.
E, para aqueles, que não querem conviver com os corredores interiores vazios, antes de enche-los de vida, talvez o horror do devenir, seja, conforme o poeta, uma forma de desamparo que implora o nosso auxílio. Sair ao encontro do silêncio, perseverar nele e buscar transcendê-lo é, antes de tudo, unir passado, presente e futuro, simplesmente num ato de existir, onde a eternidade é quem marca toda a forma de transição, pois a solidão é a evidência maior do silêncio, que não é algo que se possa tomar ou deixar. Somos nós quem temos que admitir que somos sós, e, a partir daí, alterarmos todas as distâncias, todas as medidas, para aceitarmos a existência em toda a sua plenitude, incluindo o inaudito.
Ou, como diz o poeta: “Não é apenas a preguiça que faz as relações humanas se repetirem numa tão indizível monotonia em cada caso; é também o medo de algum acontecimento novo, incalculável, frente ao qual não nos sentimos bastante fortes. Somente quem está preparado para tudo, quem não exclui nada, nem mesmo o mais enigmático, poderá viver sua relação com outrem como algo de vivo e ir até o fundo de sua própria existência”.
E eu acrescento: a solidão, condição inerente ao ser humano, não é um fim em si, mas um sinal, uma revelação, sempre a indicar que mesmo diante de qualquer abismo há sempre uma outra margem, e, mesmo que fiquemos presos a uma de suas bordas, ele migrará para algo bem mais familiar, mais fiel e mais revelador, são circunstâncias de um momento, marcados por dor, inquietação ou melancolia que se transforma em amparo, mão estendida pela própria vida, o verdadeiro triunfo que marca a todos os momentos maiores de uma existência.
terça-feira, 6 de abril de 2010
Chico Xavier
Fico-me perguntando, sem respostas conclusivas, se ainda há, no Brasil, alguém que nunca tenha ouvido falar em Chico Xavier. Mesmo sem muitas referências, creio que todos, sejam pobres, classe média ou mesmo ricos tenham pelo menos uma idéia de quem foi essa verdadeira alma de luz.
Se estivesse nesta forma de vida, Francisco Cândido Xavier estaria completando 100 anos de existência. Para homenageá-lo, os Correios reservaram para amanhá, 7 de março, no auditório da Sociedade Espírita Alan Kardec, localizado na Fernando Machado, 833, em Porto Alegre, o lançamento de um selo comemorativo.
Uma foto de Francisco Cândido Xavier, autografando um de seus livros, é o motivo, que traz, ainda, uma frase de sua autoria: “Ama Sempre. E quando estiveres a ponto de descrer do poder do amor, lembra-te do Cristo”. O Selo também traz, na impressão de fundo, uma carta psicografada por Chico.
Creio que, em todos os séculos, a humanidade tenha recebido seres de luz para inspirá-la em sua caminhada. Cada ser humano recebe, ao nascer, uma carga vital, que será utilizada segundo seu destino e seu livre-arbítrio. É raro um ser humano saber, ao nascer, qual a missão que o trouxe a esse mundo, pois a grande maioria deve descobri-la, ao longo de sua caminhada. Uma das mais elevadas é alcançar a iluminação, desvendando os verdadeiros mistérios que cercam nossa existência.
Certamente que a grande maioria não será consagrada, ao final, como santa ou iluminada. Perde-se pelo caminho, sucumbindo às suas limitações, prendendo-se a seus apegos materiais, atendo-se às leis da matéria e permanecendo circunscritos à estrutura de sua personalidade, como fruto do meio onde viveu.
Mas há seres como Jesus, Gandhi, São Francisco de Assis, Madre Tereza, São João da Cruz, Buda, Eckart, Krisha, Milarepa, Rumi, Vivekananda, Kout Hoomi, Serapis, Gurdieff e tantos outros, que conseguiram superar seus limites pessoais e se tornaram referências à trajetória de passagem humana por este plano de vida. Suas obras servem de inspiração para os que vêm depois.
O curioso é observar que, embora tenham vivido em séculos diferentes, em países diferentes e culturas também diferentes, todos eles perseguiram os mesmos postulados. No caso, Francisco Cândido Xavier não fugiu a essa regra.
Após participar por 20 anos de uma Ordem Esotérica, verifiquei que Chico Xavier perseguiu os mesmos postulados, não só encontrados neste caminho, como em muitas outras ordens esotéricas, fraternidades, grupos e escolas de caráter transcendente. E, o mais importante: se tornou ele mesmo exemplo vivo de coerência entre pensar e materializar tudo aquilo que acredita. Talvez seja esse o aspecto mais notável a ser destacado.
Sempre partindo de minhas limitações e defeitos, tantos que considero estar apenas no início da caminhada, procurei alinhar alguns dos preceitos, adotados por Chico Xavier, a partir da leitura do livro “As vidas de Chico Xavier”, de Marcel Souto Maior, Editora Planeta, lançado em 1994, em primeira edição, revisado e ampliado pelo autor em 2003.
Ao longo de sua trajetória, Chico Xavier teve inúmeras pessoas que lhe influenciaram o caminho: desde os seus primeiros passos, orientado por sua mãe, Maria João de Deus, que fora embora cedo demais, mas lhe guiava o caminho através de suas visões, desenvolvida desde os quatro anos de idade, até chegar em Emmanuel, seu orientador que o acompanhou por toda a sua vida.
Chico aprendeu que, para cumprir com o que lhe fora designado, deveria, dentre outros preceitos:
Vencer a preguiça
Abrir mão de si mesmo
Servir ao próximo
Aprender a calar-se
Praticar a obediência e a resignação
Assumir a fraternidade
Viver com amor
Compreender e tolerar o próximo
Ter sempre metas e disciplinar-se para alcançá-las
Ter prudência e respeito pelos outros
Não se deixar envolver pela vaidade e pela ambição
Ser humilde e desapegar-se do dinheiro
Trabalhar intensamente, pois o trabalho é o ouro da vida
Exercitar o riso em relação a si e aos problemas que cercavam
Suportar as suas cruzes com paciência e coragem
Compreender que a dor e a fé são os maiores tesouros terrenos
Francisco Cândido Xavier não teve uma vida fácil. Em nenhum momento de sua existência deixou de estar envolvido com alguma prova, a ser vencida. Tinha tudo para se tornar uma alma amarga. Desde a mais tenra idade levou muitas surras porque revelava suas visões. Acumulou inúmeros problemas de saúde, com os quais teve que conviver, não sendo nem mesmo ajudado por seus mentores espirituais, porque ele tinha que aprender, a partir da dor e do sofrimento.
Era considerado esquisito, feiticeiro, maluco (que não sabia separar sonho de realidade), ignorante (pois só estudou até o primário), impostor. Os jornalistas, a todo o momento, buscavam desacreditar-lhe, recebeu processos judiciais por plagio e falsidade ideológica, teve seu trabalho esmiuçado por cientistas, desconfiados da existência de fraudes, foi traído inúmeras vezes por pessoas que se diziam fiéis amigas e companheiras de jornada. Chico sempre se sentia vigiado, assediado por “ fantasmas” e por aqueles que queriam visitar o “ matuto de Pedro Leopoldo “ para que provasse, de forma cabal, a existência dos espíritos. Eram verdadeiros e sucessivos golpes contra sua auto estima.
Em resposta, Chico Xavier deixou a maior de suas obras: sua própria vida. Ele aprendeu a exercitar o humor e a humildade ao longo dos anos, a trabalhar de forma intensa em favor das coletividades invisíveis e pelo progresso humano, defendeu a mensagem dos espíritos como um consolo para os tristes e uma esperança aos desafortunados.
“ Os homens aprenderão à custa de suas dores, com todo o fardo de suas misérias e de suas fraquezas, e as palavras do infinito cairão sobre eles, como chuva de favores do alto” , dizia. (As vidas de Chico Xavier – Marcel Souto Maior – Editora Planeta).
Aprendeu a suportar as suas cruzes com paciência e coragem, acreditando que a dor e a fé são os maiores tesouros terenos e, também, a empreender uma campanha, sobre si mesmo, de anti-vaidade, como um servidor que está no mundo para aprender, a partir de suas experiencias e provas, inspirado no amor deixado por Jesus.
Conseguiu trabalhar por trabalhar, sem recompensas, deixando a cabeça vazia, forma de anestesiar a solidão, antídoto contra obsessores e até mesmo como meio de adiar a sua morte.
“Quem alivia é aliviado” dizia ele. Estudou muitos livros, mas também lavou privadas, varria o seu próprio quarto e limpava o seu banheiro, pois o amor deve ser operativo. Ajudou a quem teve fome, lavou feridas de irmãos, e atendia, em seu Centro Espirita Luiz Gonzaga, doentes, visitava-os em suas casas e dava assistência social aos menos favorecidos. Sempre ativo, acreditava em aproveitar o máximo o tempo que dispunha. Respondia a seus algozes de forma pacifista e postura ecumênica.
E, sobretudo, foi um defensor do direito de cada cidadão adorar a Deus a seu modo, segundo a sua fé e a sua crença. Por certo que Francisco Cândido Xavier adquiriu virtudes que pertencem à humanidade e são reivindicadas por cada um de nós, estão a nosso alcance a um esticar de braços e nos levam a um estado de plenitude de nos sentirmos almas completas e harmonicamente integradas às energias maiores da existência.
Mas para isso todos nós temos que aprender a ousar a ousar, adotar, para nossas vidas, uma ascética de renúncia e nos inspirarmos no amor, na fraternidade , na fé em propósitos transcendentes. Chico Xavier não passou muito tempo nos bancos escolares, mas sua sabedoria, acumulada ao longo de sua vida, é verdadeiramente inspiradora. Aprendeu a conjugar o verbo, a aceitar a vida como uma dádiva e a encontrar a sua verdadeira riqueza interior. Para os destituídos desse poder, sempre dizia: “ Ele era tão pobre, tão pobre que só tinha o dinheiro para se sustentar”.
Se estivesse nesta forma de vida, Francisco Cândido Xavier estaria completando 100 anos de existência. Para homenageá-lo, os Correios reservaram para amanhá, 7 de março, no auditório da Sociedade Espírita Alan Kardec, localizado na Fernando Machado, 833, em Porto Alegre, o lançamento de um selo comemorativo.
Uma foto de Francisco Cândido Xavier, autografando um de seus livros, é o motivo, que traz, ainda, uma frase de sua autoria: “Ama Sempre. E quando estiveres a ponto de descrer do poder do amor, lembra-te do Cristo”. O Selo também traz, na impressão de fundo, uma carta psicografada por Chico.
Creio que, em todos os séculos, a humanidade tenha recebido seres de luz para inspirá-la em sua caminhada. Cada ser humano recebe, ao nascer, uma carga vital, que será utilizada segundo seu destino e seu livre-arbítrio. É raro um ser humano saber, ao nascer, qual a missão que o trouxe a esse mundo, pois a grande maioria deve descobri-la, ao longo de sua caminhada. Uma das mais elevadas é alcançar a iluminação, desvendando os verdadeiros mistérios que cercam nossa existência.
Certamente que a grande maioria não será consagrada, ao final, como santa ou iluminada. Perde-se pelo caminho, sucumbindo às suas limitações, prendendo-se a seus apegos materiais, atendo-se às leis da matéria e permanecendo circunscritos à estrutura de sua personalidade, como fruto do meio onde viveu.
Mas há seres como Jesus, Gandhi, São Francisco de Assis, Madre Tereza, São João da Cruz, Buda, Eckart, Krisha, Milarepa, Rumi, Vivekananda, Kout Hoomi, Serapis, Gurdieff e tantos outros, que conseguiram superar seus limites pessoais e se tornaram referências à trajetória de passagem humana por este plano de vida. Suas obras servem de inspiração para os que vêm depois.
O curioso é observar que, embora tenham vivido em séculos diferentes, em países diferentes e culturas também diferentes, todos eles perseguiram os mesmos postulados. No caso, Francisco Cândido Xavier não fugiu a essa regra.
Após participar por 20 anos de uma Ordem Esotérica, verifiquei que Chico Xavier perseguiu os mesmos postulados, não só encontrados neste caminho, como em muitas outras ordens esotéricas, fraternidades, grupos e escolas de caráter transcendente. E, o mais importante: se tornou ele mesmo exemplo vivo de coerência entre pensar e materializar tudo aquilo que acredita. Talvez seja esse o aspecto mais notável a ser destacado.
Sempre partindo de minhas limitações e defeitos, tantos que considero estar apenas no início da caminhada, procurei alinhar alguns dos preceitos, adotados por Chico Xavier, a partir da leitura do livro “As vidas de Chico Xavier”, de Marcel Souto Maior, Editora Planeta, lançado em 1994, em primeira edição, revisado e ampliado pelo autor em 2003.
Ao longo de sua trajetória, Chico Xavier teve inúmeras pessoas que lhe influenciaram o caminho: desde os seus primeiros passos, orientado por sua mãe, Maria João de Deus, que fora embora cedo demais, mas lhe guiava o caminho através de suas visões, desenvolvida desde os quatro anos de idade, até chegar em Emmanuel, seu orientador que o acompanhou por toda a sua vida.
Chico aprendeu que, para cumprir com o que lhe fora designado, deveria, dentre outros preceitos:
Vencer a preguiça
Abrir mão de si mesmo
Servir ao próximo
Aprender a calar-se
Praticar a obediência e a resignação
Assumir a fraternidade
Viver com amor
Compreender e tolerar o próximo
Ter sempre metas e disciplinar-se para alcançá-las
Ter prudência e respeito pelos outros
Não se deixar envolver pela vaidade e pela ambição
Ser humilde e desapegar-se do dinheiro
Trabalhar intensamente, pois o trabalho é o ouro da vida
Exercitar o riso em relação a si e aos problemas que cercavam
Suportar as suas cruzes com paciência e coragem
Compreender que a dor e a fé são os maiores tesouros terrenos
Francisco Cândido Xavier não teve uma vida fácil. Em nenhum momento de sua existência deixou de estar envolvido com alguma prova, a ser vencida. Tinha tudo para se tornar uma alma amarga. Desde a mais tenra idade levou muitas surras porque revelava suas visões. Acumulou inúmeros problemas de saúde, com os quais teve que conviver, não sendo nem mesmo ajudado por seus mentores espirituais, porque ele tinha que aprender, a partir da dor e do sofrimento.
Era considerado esquisito, feiticeiro, maluco (que não sabia separar sonho de realidade), ignorante (pois só estudou até o primário), impostor. Os jornalistas, a todo o momento, buscavam desacreditar-lhe, recebeu processos judiciais por plagio e falsidade ideológica, teve seu trabalho esmiuçado por cientistas, desconfiados da existência de fraudes, foi traído inúmeras vezes por pessoas que se diziam fiéis amigas e companheiras de jornada. Chico sempre se sentia vigiado, assediado por “ fantasmas” e por aqueles que queriam visitar o “ matuto de Pedro Leopoldo “ para que provasse, de forma cabal, a existência dos espíritos. Eram verdadeiros e sucessivos golpes contra sua auto estima.
Em resposta, Chico Xavier deixou a maior de suas obras: sua própria vida. Ele aprendeu a exercitar o humor e a humildade ao longo dos anos, a trabalhar de forma intensa em favor das coletividades invisíveis e pelo progresso humano, defendeu a mensagem dos espíritos como um consolo para os tristes e uma esperança aos desafortunados.
“ Os homens aprenderão à custa de suas dores, com todo o fardo de suas misérias e de suas fraquezas, e as palavras do infinito cairão sobre eles, como chuva de favores do alto” , dizia. (As vidas de Chico Xavier – Marcel Souto Maior – Editora Planeta).
Aprendeu a suportar as suas cruzes com paciência e coragem, acreditando que a dor e a fé são os maiores tesouros terenos e, também, a empreender uma campanha, sobre si mesmo, de anti-vaidade, como um servidor que está no mundo para aprender, a partir de suas experiencias e provas, inspirado no amor deixado por Jesus.
Conseguiu trabalhar por trabalhar, sem recompensas, deixando a cabeça vazia, forma de anestesiar a solidão, antídoto contra obsessores e até mesmo como meio de adiar a sua morte.
“Quem alivia é aliviado” dizia ele. Estudou muitos livros, mas também lavou privadas, varria o seu próprio quarto e limpava o seu banheiro, pois o amor deve ser operativo. Ajudou a quem teve fome, lavou feridas de irmãos, e atendia, em seu Centro Espirita Luiz Gonzaga, doentes, visitava-os em suas casas e dava assistência social aos menos favorecidos. Sempre ativo, acreditava em aproveitar o máximo o tempo que dispunha. Respondia a seus algozes de forma pacifista e postura ecumênica.
E, sobretudo, foi um defensor do direito de cada cidadão adorar a Deus a seu modo, segundo a sua fé e a sua crença. Por certo que Francisco Cândido Xavier adquiriu virtudes que pertencem à humanidade e são reivindicadas por cada um de nós, estão a nosso alcance a um esticar de braços e nos levam a um estado de plenitude de nos sentirmos almas completas e harmonicamente integradas às energias maiores da existência.
Mas para isso todos nós temos que aprender a ousar a ousar, adotar, para nossas vidas, uma ascética de renúncia e nos inspirarmos no amor, na fraternidade , na fé em propósitos transcendentes. Chico Xavier não passou muito tempo nos bancos escolares, mas sua sabedoria, acumulada ao longo de sua vida, é verdadeiramente inspiradora. Aprendeu a conjugar o verbo, a aceitar a vida como uma dádiva e a encontrar a sua verdadeira riqueza interior. Para os destituídos desse poder, sempre dizia: “ Ele era tão pobre, tão pobre que só tinha o dinheiro para se sustentar”.
terça-feira, 2 de março de 2010
O SIGNIFICADO DO JEJUM NA QUARESMA
Cada ser humano é inteiramente responsável por definir o rumo que dá à sua vida. Por isso, durante o período de Quaresma muitos vêem uma oportunidade de ir ao encontro de sua “salvação` praticando o jejum, seguindo, assim, a tradição cristã. Muitos não entendem o significado dessa simbologia e recorrem a um regime de supressão de carne vermelha, migrando para pratos regados por muito vinho, que acompanham abastadas moquecas ou bem preparadas ´bacalhoadas´, vindo a satisfazer mais a gula do que buscar dar um sentido crístico à sua vida.
Como felizmente tudo evolui, o significado dessa tradição também tem evoluído. Não é o ato de imolação que se busca, a de outros seres vivos, para garantir a sua própria salvação. Ao contrário. É o ato de ir ao encontro da dimensão holística da vida. Muitos esquecem que esse é o período em que a alma deixa de olhar para si e passar a olhar o outro como a si mesmo, assim como ensinou Jesus Cristo.
Sobre isso li na Internet um texto, cujo autor não se identifica, que resgata a forma correta de se viver o jejum da Quaresma. Diz o texto:
Você quer jejuar nesta Quaresma?
Jejue de julgar os outros e descubra o Jesus que vive neles!
Jejue de palavras que ferem e farte-se de frases que purificam...
Jejue de descontentamentos
E viva cheio de gratidão
Jejue de ofensas e injúrias
E farte-se de mansidão e paciência
Jejue de pessimismo
E encha-se de esperança e otimismo
Jejue de preocupações
E satisfaça-se de confiança em Deus
Jejue de lamúrias e queixas
E satisfaça-se com coisas simples da vida!
Jejue de pressões e farte-se de orações
Jejue de tristeza e amarguras
E encha seu coração de alegria
Jejue de egoísmos
E encha-se de compaixão pelos outros.
Jejue de rancores e encha-se de atitudes de reconciliação
Jejue de palavras e viva de silêncios para escutar os outros
Jejue de pensamentos de fraqueza
E encha-se de promessas que inspiram
Jejue de tudo o que lhe afaste de Jesus.
E procure tudo o que DELE se aproxime.
Se todos vivermos este jejum, nossos dias irão se inundando de paz,
amor, de confiança.
Que os corações se abram com o jejum na Quaresma para receber
a Jesus Ressuscitado!
E com muito amor...
Afinal, o significado da Quaresma não mora no estômago, mas no coração dos homens, que devem caminhar para o amor, a fraternidade, a paz, a concórdia, durante este período, antes que a Páscoa nos suscite novamente a gula por chocolates, deixando de lembrar que a trajetória de Cristo reside em outra esfera, tão longe e tão perto do ato de jejuar.
Como felizmente tudo evolui, o significado dessa tradição também tem evoluído. Não é o ato de imolação que se busca, a de outros seres vivos, para garantir a sua própria salvação. Ao contrário. É o ato de ir ao encontro da dimensão holística da vida. Muitos esquecem que esse é o período em que a alma deixa de olhar para si e passar a olhar o outro como a si mesmo, assim como ensinou Jesus Cristo.
Sobre isso li na Internet um texto, cujo autor não se identifica, que resgata a forma correta de se viver o jejum da Quaresma. Diz o texto:
Você quer jejuar nesta Quaresma?
Jejue de julgar os outros e descubra o Jesus que vive neles!
Jejue de palavras que ferem e farte-se de frases que purificam...
Jejue de descontentamentos
E viva cheio de gratidão
Jejue de ofensas e injúrias
E farte-se de mansidão e paciência
Jejue de pessimismo
E encha-se de esperança e otimismo
Jejue de preocupações
E satisfaça-se de confiança em Deus
Jejue de lamúrias e queixas
E satisfaça-se com coisas simples da vida!
Jejue de pressões e farte-se de orações
Jejue de tristeza e amarguras
E encha seu coração de alegria
Jejue de egoísmos
E encha-se de compaixão pelos outros.
Jejue de rancores e encha-se de atitudes de reconciliação
Jejue de palavras e viva de silêncios para escutar os outros
Jejue de pensamentos de fraqueza
E encha-se de promessas que inspiram
Jejue de tudo o que lhe afaste de Jesus.
E procure tudo o que DELE se aproxime.
Se todos vivermos este jejum, nossos dias irão se inundando de paz,
amor, de confiança.
Que os corações se abram com o jejum na Quaresma para receber
a Jesus Ressuscitado!
E com muito amor...
Afinal, o significado da Quaresma não mora no estômago, mas no coração dos homens, que devem caminhar para o amor, a fraternidade, a paz, a concórdia, durante este período, antes que a Páscoa nos suscite novamente a gula por chocolates, deixando de lembrar que a trajetória de Cristo reside em outra esfera, tão longe e tão perto do ato de jejuar.
terça-feira, 23 de fevereiro de 2010
Realidade ou ficção?
AMOR SEM ESCALAS é a denominação que recebeu, no Brasil, o filme “Up in the Air”, inspirado no livro de Walter Kirn, rodado no último ano, sob a direção de Jason Reitman, responsável pelos sucessos Obrigado por Fumar e Juno.
Recebeu seis indicações ao Oscar deste ano: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator (George Clooney), Melhor Atriz Codjuvante ( Anna Kendrick e Vera Farmiga), Melhor Roteiro Adaptado, sendo vencedor do Globo de Ouro 2010 de Melhor Roteiro para Jason Reitman e Sheldon Turner.
Traz no elenco Jason Bateman, George Clooney, Anna Kendrick, Vera Farmiga, Melanie Lynskey, Danny McBride, Chris Lowell, Tamala Jones.
Resolvi assisti-lo em pleno carnaval, por não me considerar um compromissado folião. Antes de sair de casa, dei uma olhada na sinopse: “Especialista em redução de pessoal vê seu emprego ameaçado justamente quando conhece a mulher de seus sonhos e está perto de atingir dez milhões de milhas”.
Aprendi há muito que não devemos escolher um filme pela sinopse, nem pelo nome que recebeu no País de exibição. De fato acredito que o título original faz jus à indicação, já que convida o espectador a fazer uma reflexão sobre temas atuais que pertencem às nossas vidas.
Dentro de uma óptica subjetiva, entendo que a proposta do filme tenha sido examinar a rotina das pessoas, suas decisões, que determinam seus rumos de vida, além de discutir atitudes e expectativas frente ao futuro que é reservado às pessoas.
A estória gira em torno de Ryan Bingham (George Clooney), um consultor que tem a tarefa de demitir funcionários para cortar os gastos das empresas.
Presumo que o ato de despedir um funcionário, que conta com longos anos de casa, constitui um gesto de tamanha envergadura, pelo impacto e efeitos, que as empresas americanas resolvem terceirizar essa tarefa, colocando nas mãos de um especialista a missão de verdadeiramente balançar a vida das pessoas.
Por isso, Ryan viaja o tempo todo, cerca de 11 meses e meio ao ano, sempre vestido de terno e carregando uma maleta, em seus constantes deslocamentos pelos diversos cantos do país. E, quando não está no trabalho, gosta de passar o tempo em quartos de hotéis pouco conhecidos e cabines de vôos, estando próximo de atingir a sua maior meta: conseguir dez milhões de milhas como passageiro.
O ato de demitir vira uma rotina, a ponto de torná-lo um profissional frio e distante de seus desafetos. Surpresas, chocadas, revoltadas, confusas elas reagem de formas distintas, mas todas elas tendo como elemento essencial o fato de ver sua estabilidade financeira desmoronar e passarem à contingência de não mais contarem com proventos fixos para honrarem compromissos assumidos face à segurança de um vínculo empregatício que julgavam imorredouro.
E agora, o que eu vou fazer de minha vida? Como vou sustentar meus filhos? Como vou honrar os compromissos assumidos? Dei o meu sangue por essa Empresa e agora ela me despede? Fiz muitas horas extras, nada recebi, e agora, como pagamento, eles me colocam no olho da rua!
Esses e outros comentários são reproduzidos exaustivamente durante o filme. A incredulidade e o estarrecimento estão presentes na expressão corporal de todos os entrevistados.
A maior ironia, no tocante à responsabilidade atribuída ao Especialista, é a de fazê-lo buscar, junto a seus desafetos, que se encontram num momento de sua maior fragilidade, estimular-lhes a ter confiança em si para buscar novas oportunidades, talvez mais afetas às suas reais aspirações e espertizes. É uma forma de fazer reduzir o impacto de uma dispensa que somente beneficia a parte contratante.
Seu trabalho consiste em anunciar a decisão, esperar pela reação e, depois, abrir-lhes os olhos para novas oportunidades de mercado, buscar a minimização de seus pontos fracos, que lhes conduziram à dispensa, e otimizar pontos fortes, levando-lhes a trocar a tristeza provocada pelo descarte por uma atitude construtiva de sair em busca da realização de sonhos alimentados e ainda não considerados ou de fazer do demitido tirar da gaveta planos profissionais nunca lançados em prática.
Isso ele consegue algumas vezes, ao analisar seus currículos, como é caso, ao descobrir que um deles adota o hobby culinário, nas horas vagas, incentivando-o a montar um restaurante, ou, então, sugerir a um funcionário da área administrativa que montasse seu próprio negócio, com a experiência acumulada.
Tudo ia bem, até que seu chefe contrata a arrogante Natalie Keener (Anna Kendrick), que desenvolveu um sistema de videoconferência onde as pessoas poderão ser demitidas sem que seja necessário deixar o escritório. Este sistema, caso seja implementado, põe em risco o emprego de Ryan. Ele passa então a tentar convencê-la do erro que é sua implementação, passando a viajar com Anna para mostrar-lhe a realidade de seu trabalho.
Com isso, o filme também discute a relação tecnologia x relações humanas, onde modelos de funcionalidade e sistemas digitais tendem a ocupar o lugar do velho e simples contato presencial, olho a olho.
É nesse momento que o sistema se mostra verdadeiramente draconiano. Em sua condição de aprendiz, a recém promovida especialista demite uma funcionária de uma empresa e essa lhe diz que iria se jogar de uma ponte, por não ver solução à situação criada, possibilidade relevada pelos especialistas. Mas tempos depois acabam sabendo que a funcionária demitida cumprira com o que havia anunciado, pondo fim à sua vida.
Esse fato provoca um verdadeiro abalo entre todos os envolvidos.
Constrangida e traumatizada, a nova especialista se demite. E com a ajuda de seu ex-colega consegue um novo emprego.
O filme também coloca em discussão a questão da felicidade e seus vínculos com a solidão, vivida por seu personagem central, que era destituído de vínculos emocionais, mantendo apenas o rumo conforme itinerários traçados por seus dirigentes.
É nesse momento que surge uma mulher em sua vida, vivida por Vera Farmiga (não muito conhecida do público brasileiro), mas que também conserva o estilo de viajar sempre.
Eles se encontram quando suas agendas de viagem batem. Oposto a eles está Natalie, uma recém formada cheia de vida que acha que pode conquistar o mundo. Quem nunca pensou assim?
Ryan descobre que sua amada Alex é casada, chegando a fazer a sua opção por viagens para quebrar a rotina de seu lar. Ela lhe imputa o papel de “endosso de cheque” quando deseja apimentar sua vida sexual. Ryan é o verdadeiro objeto de suas fantasias libertárias. Já Natalie, ao esconder suas incertezas e inseguranças atrás de uma capa de arrogância e petulância, recebe a dispensa do namorado através de uma lacônica mensagem em seu celular.
Nem drama, nem comédia (sua classificação oficial), o filme discute o papel da família e possibilidade de as pessoas viverem uma vida livre. Vale a pena constituir família, entregar-se à rotina e permitir que as intenções originais sejam solapadas, ao longo do tempo, pela mesmice? Será que a rotina e o imobilismo de uma relação vai desfigurar o encanto e o fetiche que chegou, algum dia, a unir pessoas enamoradas? O personagem observa que, por mais que sejam felizes em seus relacionamentos, as pessoas sempre acabam morrendo sozinhas. Sem atrativos para aceitar família e convívio familiar, Ryan opta por uma vida sem vínculos, preferindo a solidão e a estabilidade de viver uma condição sem altos e baixos, proporcionados por compromissos mais duradouros.
Ora, há uma tênue linha que separa ficção da realidade. Ambos os lados são concebidos por mentes que projetam ideações e visões subjetivas no contexto onde vivem. As pessoas compartimentam suas vidas para que elas se tornem mais fáceis: o seu trabalho, o seu lazer, a sua vida familiar, a sua vida social, etc. E se esquecem que são elas mesmas o tempo todo. São elas que estão vivendo suas experiências. Há uma aparente dicotomia em suas existências: estabelecem rotinas para se sentirem seguras, refutam todas as suas conseqüências, mas não estão devidamente preparadas para sair delas. Como se suas vidas fossem uma linha reta que segue rumo ao horizonte sempre imutável e sob controle para evitar desestabilizações.
Ao serem dispensadas de seus vínculos empregatícios, tanto na ficção quanto na realidade, todas são tomadas de surpresa, sentindo-se chocadas e estarrecidas. A possibilidade de uma demissão nunca passou de uma quimera em suas vidas.
Somente quem já passou por isso sabe o que significa verdadeiramente sentir o chão desabar. Eu já passei, recentemente, por tal experiência, verdadeiramente singular. Porque, quem é demitido, na atual sociedade, é considerado um verdadeiro perdedor, sendo estigmatizado como objeto do preconceito e da exclusão.
E assim como acontece em nossas vidas profissionais, também podemos ser demitidos por outras pessoas de nossa condição afetiva, que resolvem nos excluir de suas vidas.
A discussão levantada nos leva a um alerta de que a rotina e a estabilidade podem ser quebradas a qualquer momento. E quando uma nova realidade se instaura, ela quebra com todo o status quo existente anteriormente. Nossa vida nunca mais será a mesma. Posso arrumar um novo emprego, uma nova relação, uma nova pessoa para fazer parte da minha vida, mas seja como for a minha vida nunca mais será a mesma.
Muitas vezes não aceitamos isso, muito embora o ato de aceitar possa fazer parte da construção de novos paradigmas em nossa vida. Quando há uma ruptura, somente temos olhos para ver que somos seres infelizes, porque perdemos o que nos prendia a uma forma de vida, e passamos a ser carregados pelo peso de nossa autopiedade e de nossa “falta de sorte”.
A grande maioria das pessoas, que são demitidas de seus relacionamentos, não consegue se reinventar, não consegue, de imediato, construir novos valores para encarar a vida. E vivem o desconforto da solidão. O papel de um especialista é o de apontar novas oportunidades, mas estamos tão envolvidos com o pesar da exclusão que nos esquecemos de ver e apontar novas e oportunas possibilidades em nossa vida.
A vida nos convida, se não de forma espontânea, de forma compulsória, a reinventarmos a concepção que temos dela. Estamos aqui para aprender e a tirar lições de nossos erros. Pois sempre haverá um Ryan em nossas existências, viajando para cá e para lá, fixando metas, insensível às nossas emoções, proclamando mudanças, lembrando que a vida não é linear, nem estável, mas um eterno devenir. E esse personagem pode até esconder uma outra designação, ignorada por muitas, chamada destino, que engloba tudo, até mesmo a morte, sempre presente, mas nunca considerada em nossa incessante busca pela estabilidade.
E quando Ryan vier bater em nossa porta, não poderemos dizer mais: eu não estava prevenido, eu não sabia, o que vou agora fazer de minha vida? Porque ele atingiu a sua meta de acumular 10 milhões de milhas. Feitas através dos mais desavisados, que insistem em deixar de acreditar que a conquista da felicidade depende das cores que pintamos a nossa vida.
Recebeu seis indicações ao Oscar deste ano: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator (George Clooney), Melhor Atriz Codjuvante ( Anna Kendrick e Vera Farmiga), Melhor Roteiro Adaptado, sendo vencedor do Globo de Ouro 2010 de Melhor Roteiro para Jason Reitman e Sheldon Turner.
Traz no elenco Jason Bateman, George Clooney, Anna Kendrick, Vera Farmiga, Melanie Lynskey, Danny McBride, Chris Lowell, Tamala Jones.
Resolvi assisti-lo em pleno carnaval, por não me considerar um compromissado folião. Antes de sair de casa, dei uma olhada na sinopse: “Especialista em redução de pessoal vê seu emprego ameaçado justamente quando conhece a mulher de seus sonhos e está perto de atingir dez milhões de milhas”.
Aprendi há muito que não devemos escolher um filme pela sinopse, nem pelo nome que recebeu no País de exibição. De fato acredito que o título original faz jus à indicação, já que convida o espectador a fazer uma reflexão sobre temas atuais que pertencem às nossas vidas.
Dentro de uma óptica subjetiva, entendo que a proposta do filme tenha sido examinar a rotina das pessoas, suas decisões, que determinam seus rumos de vida, além de discutir atitudes e expectativas frente ao futuro que é reservado às pessoas.
A estória gira em torno de Ryan Bingham (George Clooney), um consultor que tem a tarefa de demitir funcionários para cortar os gastos das empresas.
Presumo que o ato de despedir um funcionário, que conta com longos anos de casa, constitui um gesto de tamanha envergadura, pelo impacto e efeitos, que as empresas americanas resolvem terceirizar essa tarefa, colocando nas mãos de um especialista a missão de verdadeiramente balançar a vida das pessoas.
Por isso, Ryan viaja o tempo todo, cerca de 11 meses e meio ao ano, sempre vestido de terno e carregando uma maleta, em seus constantes deslocamentos pelos diversos cantos do país. E, quando não está no trabalho, gosta de passar o tempo em quartos de hotéis pouco conhecidos e cabines de vôos, estando próximo de atingir a sua maior meta: conseguir dez milhões de milhas como passageiro.
O ato de demitir vira uma rotina, a ponto de torná-lo um profissional frio e distante de seus desafetos. Surpresas, chocadas, revoltadas, confusas elas reagem de formas distintas, mas todas elas tendo como elemento essencial o fato de ver sua estabilidade financeira desmoronar e passarem à contingência de não mais contarem com proventos fixos para honrarem compromissos assumidos face à segurança de um vínculo empregatício que julgavam imorredouro.
E agora, o que eu vou fazer de minha vida? Como vou sustentar meus filhos? Como vou honrar os compromissos assumidos? Dei o meu sangue por essa Empresa e agora ela me despede? Fiz muitas horas extras, nada recebi, e agora, como pagamento, eles me colocam no olho da rua!
Esses e outros comentários são reproduzidos exaustivamente durante o filme. A incredulidade e o estarrecimento estão presentes na expressão corporal de todos os entrevistados.
A maior ironia, no tocante à responsabilidade atribuída ao Especialista, é a de fazê-lo buscar, junto a seus desafetos, que se encontram num momento de sua maior fragilidade, estimular-lhes a ter confiança em si para buscar novas oportunidades, talvez mais afetas às suas reais aspirações e espertizes. É uma forma de fazer reduzir o impacto de uma dispensa que somente beneficia a parte contratante.
Seu trabalho consiste em anunciar a decisão, esperar pela reação e, depois, abrir-lhes os olhos para novas oportunidades de mercado, buscar a minimização de seus pontos fracos, que lhes conduziram à dispensa, e otimizar pontos fortes, levando-lhes a trocar a tristeza provocada pelo descarte por uma atitude construtiva de sair em busca da realização de sonhos alimentados e ainda não considerados ou de fazer do demitido tirar da gaveta planos profissionais nunca lançados em prática.
Isso ele consegue algumas vezes, ao analisar seus currículos, como é caso, ao descobrir que um deles adota o hobby culinário, nas horas vagas, incentivando-o a montar um restaurante, ou, então, sugerir a um funcionário da área administrativa que montasse seu próprio negócio, com a experiência acumulada.
Tudo ia bem, até que seu chefe contrata a arrogante Natalie Keener (Anna Kendrick), que desenvolveu um sistema de videoconferência onde as pessoas poderão ser demitidas sem que seja necessário deixar o escritório. Este sistema, caso seja implementado, põe em risco o emprego de Ryan. Ele passa então a tentar convencê-la do erro que é sua implementação, passando a viajar com Anna para mostrar-lhe a realidade de seu trabalho.
Com isso, o filme também discute a relação tecnologia x relações humanas, onde modelos de funcionalidade e sistemas digitais tendem a ocupar o lugar do velho e simples contato presencial, olho a olho.
É nesse momento que o sistema se mostra verdadeiramente draconiano. Em sua condição de aprendiz, a recém promovida especialista demite uma funcionária de uma empresa e essa lhe diz que iria se jogar de uma ponte, por não ver solução à situação criada, possibilidade relevada pelos especialistas. Mas tempos depois acabam sabendo que a funcionária demitida cumprira com o que havia anunciado, pondo fim à sua vida.
Esse fato provoca um verdadeiro abalo entre todos os envolvidos.
Constrangida e traumatizada, a nova especialista se demite. E com a ajuda de seu ex-colega consegue um novo emprego.
O filme também coloca em discussão a questão da felicidade e seus vínculos com a solidão, vivida por seu personagem central, que era destituído de vínculos emocionais, mantendo apenas o rumo conforme itinerários traçados por seus dirigentes.
É nesse momento que surge uma mulher em sua vida, vivida por Vera Farmiga (não muito conhecida do público brasileiro), mas que também conserva o estilo de viajar sempre.
Eles se encontram quando suas agendas de viagem batem. Oposto a eles está Natalie, uma recém formada cheia de vida que acha que pode conquistar o mundo. Quem nunca pensou assim?
Ryan descobre que sua amada Alex é casada, chegando a fazer a sua opção por viagens para quebrar a rotina de seu lar. Ela lhe imputa o papel de “endosso de cheque” quando deseja apimentar sua vida sexual. Ryan é o verdadeiro objeto de suas fantasias libertárias. Já Natalie, ao esconder suas incertezas e inseguranças atrás de uma capa de arrogância e petulância, recebe a dispensa do namorado através de uma lacônica mensagem em seu celular.
Nem drama, nem comédia (sua classificação oficial), o filme discute o papel da família e possibilidade de as pessoas viverem uma vida livre. Vale a pena constituir família, entregar-se à rotina e permitir que as intenções originais sejam solapadas, ao longo do tempo, pela mesmice? Será que a rotina e o imobilismo de uma relação vai desfigurar o encanto e o fetiche que chegou, algum dia, a unir pessoas enamoradas? O personagem observa que, por mais que sejam felizes em seus relacionamentos, as pessoas sempre acabam morrendo sozinhas. Sem atrativos para aceitar família e convívio familiar, Ryan opta por uma vida sem vínculos, preferindo a solidão e a estabilidade de viver uma condição sem altos e baixos, proporcionados por compromissos mais duradouros.
Ora, há uma tênue linha que separa ficção da realidade. Ambos os lados são concebidos por mentes que projetam ideações e visões subjetivas no contexto onde vivem. As pessoas compartimentam suas vidas para que elas se tornem mais fáceis: o seu trabalho, o seu lazer, a sua vida familiar, a sua vida social, etc. E se esquecem que são elas mesmas o tempo todo. São elas que estão vivendo suas experiências. Há uma aparente dicotomia em suas existências: estabelecem rotinas para se sentirem seguras, refutam todas as suas conseqüências, mas não estão devidamente preparadas para sair delas. Como se suas vidas fossem uma linha reta que segue rumo ao horizonte sempre imutável e sob controle para evitar desestabilizações.
Ao serem dispensadas de seus vínculos empregatícios, tanto na ficção quanto na realidade, todas são tomadas de surpresa, sentindo-se chocadas e estarrecidas. A possibilidade de uma demissão nunca passou de uma quimera em suas vidas.
Somente quem já passou por isso sabe o que significa verdadeiramente sentir o chão desabar. Eu já passei, recentemente, por tal experiência, verdadeiramente singular. Porque, quem é demitido, na atual sociedade, é considerado um verdadeiro perdedor, sendo estigmatizado como objeto do preconceito e da exclusão.
E assim como acontece em nossas vidas profissionais, também podemos ser demitidos por outras pessoas de nossa condição afetiva, que resolvem nos excluir de suas vidas.
A discussão levantada nos leva a um alerta de que a rotina e a estabilidade podem ser quebradas a qualquer momento. E quando uma nova realidade se instaura, ela quebra com todo o status quo existente anteriormente. Nossa vida nunca mais será a mesma. Posso arrumar um novo emprego, uma nova relação, uma nova pessoa para fazer parte da minha vida, mas seja como for a minha vida nunca mais será a mesma.
Muitas vezes não aceitamos isso, muito embora o ato de aceitar possa fazer parte da construção de novos paradigmas em nossa vida. Quando há uma ruptura, somente temos olhos para ver que somos seres infelizes, porque perdemos o que nos prendia a uma forma de vida, e passamos a ser carregados pelo peso de nossa autopiedade e de nossa “falta de sorte”.
A grande maioria das pessoas, que são demitidas de seus relacionamentos, não consegue se reinventar, não consegue, de imediato, construir novos valores para encarar a vida. E vivem o desconforto da solidão. O papel de um especialista é o de apontar novas oportunidades, mas estamos tão envolvidos com o pesar da exclusão que nos esquecemos de ver e apontar novas e oportunas possibilidades em nossa vida.
A vida nos convida, se não de forma espontânea, de forma compulsória, a reinventarmos a concepção que temos dela. Estamos aqui para aprender e a tirar lições de nossos erros. Pois sempre haverá um Ryan em nossas existências, viajando para cá e para lá, fixando metas, insensível às nossas emoções, proclamando mudanças, lembrando que a vida não é linear, nem estável, mas um eterno devenir. E esse personagem pode até esconder uma outra designação, ignorada por muitas, chamada destino, que engloba tudo, até mesmo a morte, sempre presente, mas nunca considerada em nossa incessante busca pela estabilidade.
E quando Ryan vier bater em nossa porta, não poderemos dizer mais: eu não estava prevenido, eu não sabia, o que vou agora fazer de minha vida? Porque ele atingiu a sua meta de acumular 10 milhões de milhas. Feitas através dos mais desavisados, que insistem em deixar de acreditar que a conquista da felicidade depende das cores que pintamos a nossa vida.
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