terça-feira, 25 de setembro de 2012

Às compras

 

Foz do Iguaçu é um centro urbano com vocação turística e comercial, que vem se constituindo, nos últimos anos, em núcleo polarizador de visitantes interessados em conhecer suas belezas naturais e, também aproveitar a curta distância das fronteiras com a Argentina e o Paraguai, para fazer compras nas cidades de Puerto Iguazú e Cidad del Este.
 
A divissa entre o Brasil e o Paraguai é feita pela
 travessia sobre o Rio Paraná. As Aduanas estão em cada margem e, do lado
paraguaio, o turista já encontra, em suas imediações,
shoppings e lojas que atendem ao grande número de brasileiros
que atravessam a fronteira para realizarem suas compras.
 
Para quem estiver interessado, há um tour específico para circular pelos principais pontos da Cidad del Este. Mas a maioria mesmo prefere se dirigir ao miolo urbano, localizado junto a Ponte da Amizade, para ir direto às compras.
 
Quem não gostaria de dispor de uma quantidade ilimitada de dinheiro e seguir olhando pelas vitrines dos shoppings para conhecer os artigos expostos e ingressar nas lojas para efetuar suas compras, tanto quanto seus olhos são capazes de vislumbrar?
 
São poucos os turistas que invadem cidades vizinhas conseguindo limitar-se ao tamanho dos bolsos que levam, conseguindo apenas passear e ater-se a uma verdadeira economia providencial, na qual o que se compra é tão somente o indispensável para suprir as suas necessidades.
 
Pois, pelo que observei, a maioria chega à Cidad del Este dizendo que vão se comportar, limitar-se ao indispensável e equiparar visita, passeios e compras. Aos poucos vão deixando de lado sua disciplina e se deixando levar por seus olhos, que vêem vitrines apelativas, produtos mais em conta, mercadorias que sempre estiveram em seus sonhos de consumo à disposição. E da caminhada vai surgindo um novo verbo, cada vez mais assumido por entonação mais forte: consumir.
 
O tempo é curto, três horas, que logo passam e deixam um gostinho de quero mais. O jeito é correr, pegar o que pode a tempo de voltar às vãs, que o trarão de volta. Voltam sempre carregados de pacotes e com o sorriso nos lábios. Não é incomum membros da mesma leva gabarem-se entre si por seus feitos: "veja só o que consegui. Uma verdadeira pechincha".
 
Levados pelo impulso do consumo muitos turistas acabam por arrumar confusão nas aduanas, por se esquecerem das regras básicas que regem o comércio além fronteira.
Shopping Cidade del Leste, no Paraguai. Foto de minha autoria.
 
 
A primeira delas é de que a quota, para cada pessoa, é de U$300,00 e não de U$500,00, como muitos acreditam. Esse último limite serve apenas para free shoppings. Para produtos incluídos na lista divulgada pela Aduana brasileira, entre eles eletrodomésticos e em especial computadores, deve-se parar no Posto da Receita Federal e declarar espontâneamente o que está sendo levado.
Como geralmente os fiscais não revistam os pacotes, muitos acham que a dispensa não lhes causará problemas na volta para casa. Mas ao chegarem no terminal aeroviário de Foz do Iguaçu, deverão passar por uma meticulosa revista. Por isso que Foz do Iguaçu é um dos raros destinos onde o passageiro é obrigado a se apresentar não uma mas duas horas antes.
Ao chegar ao terminal, devem apresentar as notas de compra e a respectiva declaração da aduana. Como não providenciaram tais procedimentos, passam por canais burocráticos que aumentam o tempo de viagem e criam embaraços e não raro vêem suas mercadorias apreendidas.
Muitas vezes se esquecem de pedir, nas lojas onde compram, a nota fiscal, onde os funcionários costumam fornecer tão somente simples recibos que não possuem validade para comprovação junto a Receita Federal brasileira. Muitos, procurando burlar o fisco brasileiro, costumam declarar valores muito abaixo daqueles verdadeiramente desembolsados. Os fiscais conhecem os preços reais praticados. E, assim, esses consumidores atestam a sua intenção de aplicar a lei de Gerson junto ao Governo Brasileiro. Mas as máscaras caem e logo vêem a alegria da compra se transformar em embaraço e dor de cabeça.
Além disso, passam por outros embaraços: os mais desavisados estão sujeitos a comprar gato por lebre. Em alguns casos, ainda bem não muito frequentes, olham a mercadoria no ato de aquisição, constatando tratar-se de produto original de qualidade, porém, ao levarem as embalagens para casa, descobrem que alguns vendedores inescrupulosos, felizmente poucos, costumam substituir as mercadorias adquiridas por outras falsificadas e de qualidade muito inferior. Essa atitude, de tentar burlar outros, não é de lá, apenas, mas de todo lugar, pois pertence à natureza e à índule humanas, quando não controladas.
Já longe dos locais de compra os desavisados encontram dificuldades para fazer a troca e reparar seus prejuízos, que se tornam certos em razão da falta de cuidado em examinar o que estão levando para suas casas. Por isso devem aprender a distinguir lojas sérias de vendedores inescrupulosos, antes de efetuarem suas compras.
Shopping Cidade del Leste, no Paraguai. Foto de minha autoria.
A Cidad del Eeste, no Paraguai, possui shoppings (foto acima de minha autoria) que oferecem preços e garantia compatíveis. Entre eles conhecemos o Shopping Cidad del Este e o Shopping Monalisa (www.monalisa.com.py), além do Shopping Lion, cuja variedade de produtos e opções permitem uma boa e confiável escolha.
Mas também há centenas de pequenas lojas, espalhadas pelo nucleo central urbano, que aceitam o pagamento em real ou cartões de crédito internacionais. Os produtos são mais em conta mas há que se deter e escolher o produto certo. E, também, há infinidade de barracas de camelôs, cuja negociação é livre e o poder de barganha maior ainda. Basta perguntarmos os preços e darmos as costas para baixarem a sua oferta inicial.
Como a relação entre guarani e real é muito acentuada, a base de comercialização, no Paraguai, é feita com base no dólar como moeda oficial. Há uma boa fluidez de vendedores paraguaios, que entendem bem o português e estão acostumados a dar informaçôes aos turistas brasileiros. Alguns lojistas preferem, inclusive, empregar brasileiros para facilitar o contato com os visitantes co-irmãos. Nesse sentido, há que se salientar que levamos, em nossa bagagem, um dicionário português-espanhol, mas felizmente não chegamos sequer a abri-lo, pelas facilidades na troca de informações com nossos co-irmãos paraguaios.
A feirinha é um dos pontos de atração de Puerto Iguazú,
mesmo à noite quando os moradores saem
de seus locais de trabalho e passam pelas suas calçadas
para um bom happy hour. No destaque o guia
Jucimar Felisberto, que ajudou a tornar
 esses momentos verdadeiramente agradáveis.
Fotos de minha autoria.

 Por outro lado, Foz do Iguaçu também permite o ingresso à cidade de Puerto Iguazu, na Argentina, para facilitar as compras. O local predileto à visitação é a feirinha da Cidade, que funciona inclusive no horário noturno. Boa parte dos produtos comercializados é formada por alimentícios, em sua maioria produção artesanal, como queijos, vinhos, alguns industrializados de boa marca, mel, geleias, doces, além de tira-gostos, servidos na mesa, acompanhados da famosa cerveja argentina. O grupo, do qual fazia parte, provou das famosas empanadas, enquanto eu seguia o meu tradicional regime. 
 
Também há, nas ruas centrais da cidade, muitas lojas varejistas, que vendem confecções locais, como casacos de couro, chapéus, perfumes, relógios, além, é claro, das famosas alpagartas, cintos de couro, pilchas (roupas típicas de gaucho), erva-mate argentina (que oferecem um gosto mais encorpado, em relação à similar gaúcha), assim como artezanatos e bijouterias.
Para os amantes da culinária, há bons restaurantes, cujas carnes são conhecidíssimas por sabor e textura especiais, suculentas e macias). Interessados na aquisição de alfajores só os encontramos em shoppings locais, embalados ao modo brasileiro de transportar bombons. Aproveitamos para percorrer as gôndolas e verificamos que a maneira de dispor os produtos é familiar, embora o forte da oferta, nesses estabelecimentos, esteja em produtos como queijos e vinhos argentinos.
E, ainda, há os chamados dutyshops, espécie de free shoppings, localizados na divisa da fronteira entre os dois países, cujo mercado livre oferece o que há de melhor das industrias brasileira e argentina. Aí também a moeda referência é o dólar.
Entre nossa condição de turista e de consumidor, preferimos ficar no meio do caminho, com a certeza de que essa viagem possa se converter na primeira de muitas.
Viajar é bom. Voltar para casa é prazeiroso. No meio das experiências está a sensação de que o mundo é maior do que imaginamos, porém, sabendo encontrar um lugar, podemos nos localizar dentro dele, na certeza de que tudo passa. Somente fica o que podemos acumular na bagagem da existência. Devemos ser humano para acompanhar uma humanidade que ainda busca a sua verdadeira transcendência. O maior desafio: unirmos nossas condições humanas e divinas dentro de um processo existencial. Situações que se revelam em viagens como essa, realizada em direção à Foz do Iguaçu.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Convivendo com o diabetes

Metade dos diabéticos, espalhados pelo mundo, não sabe que contraíram a doença. E a metade, daqueles que sabem, não fazem nada para gerir os efeitos do diabetes em seus organismos. Como as pesquisas não abordam os motivos que levam pacientes à tamanho nível de desinformação, venho me perguntando:

O que leva as pessoas a ignorarem uma doença que é responsável direta ou indiretamente pela morte ou pela incapacidade permanente de um número crescente de diabéticos no mundo, entre elas a cegueira, o infarto, a amputação de pés, a perda dos dentes, dentre outros males? Será que elas pensam que a simples ignorância ou ingenuidade poderá salvá-los e levá-los a um processo de cura? Ou que, por não terem maiores esclarecimentos, estarão sendo protegidos de seus efeitos? Ou que haverá algum tipo de providência divina atuando a seu favor, para livrá-los de todo o mal?

Geralmente, o alcoolatra ou o fumante negam suas dependências.  Consideram que podem se livrar, a qualquer momento, de seus vícios, o mesmo podendo acontecer com aqueles que têm compulsão por comida, os que têm alguma forma de dependência quimica, os hipocondríacos, os que estão presos aos jogos de azar e tantas formas de escamotear seus males, à espera de que tudo seja resolvido sem a sua direta interveniência.

Não reconhecer problemas de saúde, que já se instalaram em seu organismo, quase sempre muito antes de pronunciar-se os seus sintomas, podem ser resultado da ausência de determinação e coragem de ver a doença de frente. De assumir a responsabilidade e o controle da situação para levar o organismo a alcançar um equilibrio, capaz de lhe proporcionar uma boa qualidade de vida. Ou até mesmo, dependendo do caso, de garantir uma longevidade que ultrapassa as expectativas de quem não possui essa doença. 

 A sabedoria popular já diz: "Quem quer gerar resultados diferentes aos até agora alcançados, tem que agir de forma diferente". A doença marca um novo ciclo de vida. E, com ele, a necessidade de mudança. Geralmente a vemos tão somente pelos males e sofrimentos que ela traz. Nossa autopiedade nos impede de enxergar os aspectos positivos que ela nos revela. Sim, o caminho é difícil, como difícil é o próprio ato de viver. Mas nem por isso deixamos de coragem para mudar.

Desde que soube ser diabético, tento enumerar alguns aspectos positivos, a saber:

1) Se eu não fizer nada, ninguém o fará por mim. A primeira iniciativa deverá ser minha, como minha será a responsabilidade de buscar soluções. Geralmente ficamos escamoteando a verdade, empurrando para cima dos outros nossas culpas, medos e indefinições. É hora de acordar.
2) Estar trabalhando por mim aumenta a minha auto-estima, o amor próprio, a confiança em mim, atitude que, muitas vezes, esquecemos, por acreditarmos que não somos suficientemente bons para merecer o melhor.
3) O medo não ajuda, só atrapalha.
4) Deixar a procrastinação de lado. Não dá para empurrar para amanhã o que deixar de fazer hoje. Pois só estarei empurrando meu problema para frente ou piorar o quadro existente hoje.
5) Tenho que aprender a ser disciplinado, ter perseverança, ver o horizonte e a longevidade das coisas que pratico, pois muitas vezes deixamos de fazer as coisas no atacado e ficamos simplesmente administrando a nossa vida no varejo e acabamos ficando no imediatismo.
6) O passado não me pertence mais, o futuro ainda não chegou e, por isso mesmo, só tenho o presente para viver. Devo aprender a viver um dia de cada vez.
7) A vida se baseia no perfeito equilíbrio. Em algum momento permiti que esse equilíbrio se desfizesse. Agora tenho de buscár novamente, dentro de mim, o caminho de volta. Para tanto, devo revisar minhas atitudes, aperfeiçoar o meu auto-conhecimento e refazer o meu projeto de vida.
8) A físca quantica nos ensina: tudo está ligado a tudo. Por isso, para encontrar esse novo moento, tenho que trabalhar pela minha cura espiritual.  Os outros são espelhos de nós mesmos.
9) Não existem erros. Há apenas aprendizado. Se errei até agora, posso reformular tudo e começar tudo de novo.
10) Todas as respostas estão dentro de mim. Eu sou a porta para o Universo. As leis da renúncia ou reversibilidade começa onde se pronuncia este desafio, o começo trazido por minha diabetes. O que fizer a partir de agora fatalmente repercutirá na eternidade.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Diabetes

- "Você está diabético. E, uma vez diabético, sempre diabético"!

Essa foi a sentença médica, anunciada no mes de junho do corrente ano, pela endocrinologista que escolhi para cuidar do caso. Fácil de dizer, difícil de assimilar. Simples assim!

Ainda meio aturdido por essa nova situação, em minha vida, ouvi as pessoas mais próximas dizerem, para me consolarem: "Você tem uma inclinação para a tragédia. Encare a questão com otimismo. Ah...! Não é nada! Basta não comer açucar, tomar o remedinho e seguir vivendo. Às vezes você até pode sair da linha, comer uma coisinha aqui, abusar um pouco ali, mas o remédio segura e você pode levar sua vidinha normal. Ninguém morre de diabetes. O Fulano tem, o beltrano vive com isso há anos, o sicrano tira de letra. Não se preocupe, tudo vai acabar bem"!

E eu me pergunto: será tão simples assim? Será que tenho mesmo uma inclinação para a tragédia ou o Diabetes é uma doença que, mesmo sendo tratada sem a devida dramaticidade, requer seriedade e reverência por tudo o que está subjacente, quando ela entra em nossa vida?

De imediato fui buscar mais informações. E as conclusões, tiradas durante esse curto período, é de que, se não for levada a sério, a doença pode ocasionar sérios problemas. O mais grave do diabetes é que, por lesar os vasos, ele provoca sérias complicações. Tais como: doença cardiovascular, doença renal crônica (levando até à necessidade de diálise), lesões nos rins, lesões nos membros periféricos (como os pés, podendo chegar à amputação) e lesões nos olhos (provocando cegueira em alguns casos).

As bactérias encontram na boca a primeira disposição para se instalar, já que os tecidos da gengiva tornam-se flácidos e vulneráveis ao surgimento de doenças periodontais. Especialistas dizem que taxas elevadas de glicose no sangue causam, a cada ano, cerca de 3 milhões de mortes em todo o mundo, cifra que continuará a crescer. É vital, portanto, que o diabético não poupe esforços para integrar-se ao tratamento em todos os sentidos.

O número de diabéticos mais do que dobrou no mundo desde 1980. Há, hoje, no mundo, cerca de 347 milhões de pessoas com a doença, superando em muito as expectativas de uma projeção em torno de 285 milhões no contexto mundial. Do total de portadores do mal, 138 milhões vivem na China e Índia e outros 36 milhões nos Estados Unidos e Rússia.

No Brasil, de acordo com dados do Ministério da Saúde, existem hoje 5,5 milhões de diabéticos e o país caminha para se tornar o quarto colocado no ranking de casos de diabetes no mundo. A previsão de crescimento desses índices acompanha os números da OMS: em 2025 chegaremos a 11 milhões de portadores da enfermidade.

Estudos realizados no Brasil mostram que boa parte dos pacientes diabéticos desconhece a enfermidade, pois o diabetes é uma doença silenciosa e, por não fazerem exames regulares, não tomam os devidos cuidados. E, entre os que recebem esse diagnóstico, menos da metade segue o tratamento, conforme afirma o presidente da Sociedade Brasileira de Diabetes, o médico Marcos Tambascia.

Dado esse quadro, é recomendável que adultos maiores de 40 anos realizem o exame para diagnóstico e detecção precoce a cada três anos. Aqueles que apresentam qualquer fator de risco devem se submeter ao teste a cada três anos. Aqueles que apresentem fator de risco devem se submeter ao testo anualmente, mesmo que na ausência de sintomoas. Mulheres grávidas com mais de 25 anos, obesas ou com história familiar da doença também devem pesquisar a enfermidade.

Ao longo da vida, o que o diabético enfrenta depende diretamente do modo como ele lida com esse disturbio. Por isso ele deve seguir à risca o tratamento, que inclui a aplicação diária de insulina, para os casos do tipo 1, ou tomar os medicamentos diariamente, fazer dieta e, sobretudo, fazer uma mudança de hábitos, passando a exercitar-se frequentemente, para os casos do tipo 2. Ainda sim o diabético estará sujeito aos revezes.

Por isso é fundamental, para o diabético, contar com os serviços da rede de saúde, seus profissionais e o auxílio e a colaboração de seus familiares. A partir de uma rede de informações sobre a doença, deve procurar fazer exercícios mais frequentes, levar uma vida mais tranquila, seguir rigorosamente os horários de remédios e refeições, controlar a glicose no sangue, evitar sobrecarga de peso, além de outros cuidados, indicados por especialista. Além disso, é necessário valorizar a relação paciente-médico, cabendo a esse orientar as medidas de acordo com o tipo de diabetes e as características individuais do paciente.

Alguns profissionais têm aconselhado o diabético a estar ligado à uma equipe multidisciplinar, que inclui médico, enfermeira, nutricionista, podendo ainda ter um educador físico e uma assistente social. E às vezes é necessário um suporte psicológico ao paciente. Dificilmente poderá manter o controle de sua doença se não estiver bem informado e conscientizado, renovadamente estimulado e consciente sobre o que significa ser um paciente diabético.
Muitas vezes, pode ajudar o convívio com outros diabéticos, para a troca de experiências, visando tornar o dia-a-dia mais fácil, seja através de associações, grupos montados por profissionais de saúde ou quais outros meios de aproximação, sempre com o auxílio de especialista para orientar e superficionar os trabalhos.

Geralmente passamos pelos bancos escolares uma vez na vida. Mas o aprendizado nunca acaba. Mesmo na velhice tenho que deletar tudo que sei, em relação a meus conceitos de saúde, e aprender tudo de novo. Não basta compreender, não basta assimilar, tenho, agora, que criar consciência sobre o que significa "ser uma pessoa diabética".

Quanto a você, que me lê, agora, se estivar sentindo um desses sintomas: cansaço frequente, urinar a todo momento, ter fome a toda hora, sentir muita sede, perder peso sem razão, verificar a existência de feridas que não cicatrizam, ter problemas sexuais ou visão turva, o melhor é procurar o seu médico de confiança.

Vamos evitar que as estatísticas apresentem números superiores às projeções. Para tanto, é preciso ampliar a consciência sobre o próprio corpo, aumentar a qualidade de vida e, sobretudo, dispensar maus hábitos que acelerem o equilíbrio metabólico, provocados pelo sedentarismo, a ingestão de alimentos inadequados e o stress, tão comum nos dias de hoje.



domingo, 22 de abril de 2012

A beleza, a fama e a felicidade!






Assistia ontem um clip do sempre lembrado Elvis Presley, em sua inesquecível interpretação "Bridge Over Troubled Water" música que eleva e enaltece o verdadeiro espírito humano. E, enquanto isso, pensava: ele foi bonito, famoso, rico, carismático. Foi imitado, invejado, respeitado, mas nem por isso deixou de ter as suas crises existenciais. Chegou a um status invejável e, no entanto, isso não o levou à sua maturidade, equilíbrio e sabedoria, capaz de lhe tornar uma pessoa completa.

Em vez disso, morreu, em 16 de agosto de 1977, como viveu: como uma pessoa complexa, de temperamento difícil, que, em alguns momentos, era alegre, simpática, falante e, em outros, carrancuda e infeliz. Era hipocondríaco, somatizando suas angústias através de problemas de cólon, o que lhe causava terríveis dores, além de problemas no fígado.

As sucessivas crises existenciais o levaram ao desgaste de seu organismo,chegando a contrair o mal cardíaco que lhe tirou a vida. Não foi constatada a existência de drogas em seu organismo, no momento em que antecedeu a sua morte. Embora tenha usado do artifício das drogas enquanto sua fama expandia-se pelo mundo. Assim como muitos de nós, nao soube procurar as verdadeiras causas, gravitando, reiteradas vezes, nas consequências.

Michael Jackson precisava de remédios à base de anestésicos para dormir e acabou morrendo por tal dependência. Em 1968, John Lennon e Yoko Ono foram presos em Londres (Inglaterra) por porte de drogas. Em 1982, a cantora Elis Regina foi encontrada morta em seu apartamento, depois de ter ingerido uma dose excessiva de álcool e cocaína. Ela tinha 36 anos.


Em 1998, Rafael Ilha, ex-integrante do grupo Polegar, foi preso depois de ter roubado um vale-transporte e 1 real de uma moça em São Paulo. O dinheiro seria utilizado para a compra de crack. Dois anos mais tarde, foi preso com dois papelotes de cocaína. Em setembro de 2007, foi detido mais uma vez, agora por perseguir um ex-interno de sua clínica de reabilitação para dependentes químicos. Rafael foi mais uma vez para a cadeia em 1º de julho de 2008, acusado de tentativa de sequestro.


Em 2006, o cantor George Michael foi encontrado deitado sobre o volante de seu carro no centro de Londres (Inglaterra). As autoridades o prenderam por suspeita de uso de drogas como maconha, tranquilizantes e analgésicos.


A cantora inglesa Amy Winehouse, encontrada morta em 23 de julho do ano passado, na Inglaterra, seguiu o mesmo roteiro trágico de outros ídolos mundiais da música pop, artistas que encerraram a carreira e a vida, a maioria por envolvimento com drogas, exatamente como Amy, antes de completarem 30 anos.


Morto em 1970, também em Londres e sob circunstâncias nebulosas, Hendrix conquistou fama na década de 1960 ao mostrar seu talento com a guitarra, sendo considerado por muitos como um dos maiores guitarristas da história.

Uma das grandes cantoras de rock da década de 1960, conhecida por sua voz rouca e singular, a cantora norte-americana Janis Joplin também faleceu antes de completar 30 anos. A artista, que passou pelo Brasil em 1970 com sua turnê, ano de sua morte, foi vítima de uma overdose de heroína.


Em 1969, o ex-Rolling Stones Brian Jones foi encontrado no fundo de sua piscina e declarado morto por afogamento. Ele tinha 27 anos. Dois anos depois, o compositor e cantor Jim Morrison, vocalista e líder da banda The Doors, também faleceu. Ele havia dado um tempo na banda para tentar se dedicar a outras atividades. Foi encontrado morto em um hotel de Paris, França.


Mais de duas décadas depois, também com 27 anos, Kurt Cobain, vocalista da banda de rock Nirvana, foi encontrado morto em sua casa, após dar um tiro de espingarda na cabeça. O cantor sofria de depressão e também fazia uso de drogas.


Essas e tantas outras histórias levam a crer que fama e felicidade nem sempre andam no mesmo compasso. Mesmo assim não falta quem procure a notoriedade na busca por superação de suas limitações humanas. Há quem acredite que, ao encotrar uma, também encontrará a outra. Acredite que, se outros o idolatrarem haverá compensação pelas frustrações e limitações de seu ego. Como, evidentemente, não há essa compensação, acabam por fazer um atalho pelo mundo das drogas, como os casos citados.


É claro que, em se tratando de fama e seus efeitos, não se pode generalizar. Recentemente, só para citar uma das muitas iniciativas de elevar a condição humana, surgiu uma campanha, promovida pelos responsáveis pelo Rock in Rio, denominada " Eu vou sem drogas ".

Entre músicos e artistas que particiam dessa campanha estão as presenças de Milton Nascimento, Sandra de Sá, Cláudia Leite, Rogério Faustino (Jota Quest), Toni Garrido (Cidade Negra), Rodrigo Santos (Barão Vermelho), Di Ferro (NX Zero) Herbert Viana (Paralamas do Sucesso) e atores como Marcos Frota, Paola Oliveira, Thiago Lacerda e Vanessa Lóes.

E quem ainda não chegou à fama? Aí dirigi o pensamento  aos "herois" do BBB e em tantos aventureiros que buscam, a qualquer preço, a fama e a notoriedade para aplacarem os seus egos. Fazem de tudo para conseguir a notoriedade, até mesmo esquecer o respeito a si, para chegar a uma condição onde gente como Elvis chegou de forma natural.E concluo que o problema não está fora do ser humano, mas em sua condição interior. Muitos querem a fama, poucos sabem o que fazer com ela.


O fato está ligado à formação dos indivíduos, pois, atualmente, os pais repassam às escolas a tarefa de educar e, essas, por sua vez, aplicam uma
grade curricular que inclui um amplo cardápio: português, matemática, fisica, quimica, história, etc. Mas não incluem, em seus currículos escolares, nada que esteja ligado ao auto-conhecimento.

Daí a existência de tantos indivíduos que se amam muito pouco. Não me refiro a um amor narcísico, mas uma autoestima capaz de levar indivíduos ao equilíbrio interior, maturidade e contentamento. São esses atributos capazes de estabelecer um equilíbrio no meio em que vivem, a começar pela relação a dois, onde muitos apoiam a sua existência: toda a relação bem sucedida depende do grau de maturidade. Ninguém dá o que não tem. Quando nos conhecemos melhor, adquirimos melhores condições de conhecer os outros.

Afinal, tudo começa em uma vida interior fecunda, que vai enchendo nossas vidas, vai derramando até espargir ao outro. Se não me sinto feliz, como posso fazer o outro feliz?

E aí me volto para o início de minhas digressões. Penso em Elvis Presley, que escolheu um lugar peculiar em sua casa para realizar suas reflexões: o banheiro, onde montou um aparato, uma verdadeira " sala de estar ", no local mais íntimo, onde anexou às primeiras necessidades mais uma: buscar, sem encontrar, a alegria de viver.

 Ao encerrar essas reflexões, quero lembrar de quem conheceu a notoriedade de perto e soube sublimar seus limites, John Lennon que disse:

..."um artista nunca pode ser absolutamente ele mesmo diante do público, por justamente estar em público. Pelo menos ele precisa sempre de ter alguma forma de defesa...não se drogue ( e eu acrescento, não se detenha em paliativos),  por não ser capaz de suportar a própria dor. Eu estive em todos os lugares e só me encontrei em mim mesmo". E finaliza: " quando eu tinha 5 anos, minha mãe sempre me disse que a felicidade era a chave para a vida. Quando eu fui para a escola, me perguntaram o que eu queria ser quando crescesse. Eu escrevi “feliz”. Eles me disseram que eu não entendi a pergunta, e eu lhes disse que eles não entendiam a vida". 



quinta-feira, 5 de abril de 2012

SEXTA-FEIRA DA PAIXÃO



Essa data lembra a via sacra de Cristo, que representa, para os Católicos, o sacrifício, tanto em relação aos caminhos por que passa um ser humano quanto por sua doação ao próximo.

Nas palavras de Jesus: “Aquele que oferece sacrifício de louvor me glorificará”.

Para marcar essa data santa, fiéis da paróquia mais próxima a minha casa saíram, ontem à noite, em procissão, repetindo, simbolicamente, os passos de Cristo.

Em pontos estratégicos, espalhados pelo bairro, moradores montaram pequenos altares, em frente às suas casas, recebendo os féis, enquanto o padre vigário retratava o simbolismo de cada passagem. Uma verdadeira multidão acompanhou a cerimônia.

Essa multidão também passou por minha residência e seguiu em frente, cantando seus louvores, orando, coletivamente, e também praticando o silêncio em sua em marcha, para simbolizar vida interior consagrada e fé na dimensão do amor crístico.  A tudo assisti do primeiro andar de minha casa.

E pensei comigo: quantos fiéis! Será que a fé está ressurgindo nos corações dos homens? Acho que não, pois ela sempre existiu, embora o mal sempre fosse mais ruidoso, principalmente pelos tempos difíceis, marcados pela violência e pela falta de respeito pelo que pertence ao alheio.

Nenhuma data consegue, ao longo do tempo, encontrar acolhida em tantas almas, se não for ela mesma reconhecida como algo presente na vida de qualquer ser humano.

O bombeiro que possuiu, em sua profissão, o inerente sacrifício, de enfrentar o fogo, as inundações, as tragédias para salvar vidas humanas.

O médico ou enfermeiro que sacrificam o seu horário de sono e até mesmo sua vida pessoal para cuidar dos enfermos.

O funcionário de zoológico que enfrenta o perigo das serpentes para tirar o soro que salvará vidas.

O nadador-salvador, também identificado pelo sugestivo nome de “salva-vidas”, que tem, em seu escopo, evitar o afogamento de pessoas e assim preservar a vida de quem se vê envolvido em uma situação crítica no mar, em rios ou piscinas.

O arbitro de futebol que entra em campo disposto a ouvir apupos para garantir um espetáculo esportivo.

O jornalista que muitas vezes trabalha quando os outros descansam contribuindo para a formação da opinião pública.

Enfim, em todas as profissões e em todas as formas de prestação de serviços há alguma forma de sacrifício. E em toda a forma de sacrifício há uma forma de amor.

Nascemos e nos criamos testemunhando o sacrifício de nossos pais para nos tornar adultos consequentes, responsáveis e íntegros.

Somente quem passou pelo sacrifício de doação pode entender o que isso representa. E somente aqueles que empreenderam essa forma de renuncia a si, até o máximo de suas forças, podem captar a grandiosidade da doação crística em favor da humanidade.

Esta é a grande dimensão do Amor, Oferenda e Sacrifício.

O que aconteceu há mais de dois milênios pode nos parecer longínquo e até mesmo etéreo para muitos. Pois, afinal, está ligado ao que retrata a Bíblia, cujas provas cabais são insuficientes, requerendo um ato de fé mais do que alinhamento dos fatos comprovados.

Mas o fato é que as palavras atribuídas a Paulo de Tarso são tão válidas para aquele tempo quanto para agora: “Combate e dor é a via do homem sobre a Terra”.

A dor e o sacrifício estão presentes na vida do homem, mesmo do homem contemporâneo, que já alcançou notável desenvolvimento tecnológico em relação aos tempos de Cristo. Não se pode fugir dessas duas condições inerentes à vida humana.

O que as religiões apregoam, de uma maneira geral, é que, para vencer a dor, seja ela compulsória ou em oferenda a outrem, devemos submergir nela. O que todo esse simbolismo, retratado na sexta-feira santa nos mostra é que só se pode vencer a dor através do conhecimento próprio.

Pelo sacrifício, a dor ou as mais cruéis privações, as enfermidades mais longas, as desorientações mais intensas e mais internas transformam-se em suave néctar, através de um processo depurativo.

 
Cada alma tem a sua hora de acordar. Enquanto ela não chega, seguimos descrentes, agarrados às nossas necessidades imediatas. Quando encontra o sofrimento, a alma se transforma. Esse é o símbolo da Ressurreição de Cristo, depois do padecimento na Cruz.

Não só na Igreja Católica mas nos ritos ou mantras adotados pelos diferentes caminhos religiosos, a oração vocal ou o silêncio exterior representam o estímulo para que o devoto tenha forças para suportar as dores da vida. O sacrifício possui diversas formas, está relacionado a diversas causas e está associado a diferentes momentos.

É por isso que se diz que o sacrifício pertence aos grandes mistérios da vida, porque suas raízes estão ligadas à eternidade. Conhecê-lo e entendê-lo significa alcançar a própria Eternidade.

domingo, 1 de abril de 2012

Regime de Exceção? Nunca mais!


Primeiro vieram os tanques. Muitos. As lagartas escorregavam no piso liso dos paralelepípedos, assobiando, gritando, enquanto os motores potentes gemiam para subir aquela ladeira íngreme. Um a um foram passando, enquanto os moradores se escondiam em suas casas, vendo, inesperadamente, quebradas as suas rotinas por aquela cena de guerra, que invadia a monotonia de suas vidas.


Depois vieram os soldados, marchando, com suas botas lustrosas, seguindo em passos largos pela ladeira acima. Em ritmo acelerado e fazendo a rua assumir tons de verde oliva, empunhavam fuzis com baionetas fincadas.  Seus superiores, acompanhando a marcha acelerada, ordenavam em voz alta aos moradores e transeuntes:


- Vão para suas casas. Ninguém sai. Recolham-se!


A ordem era dada com aquele tom militar de obediência a ser seguida, sem direito a muitas explicações. E, em poucos instantes, brotando, ninguém sabe de onde, os militares tinham ocupado a rua General João Telles, bairro Independência, em Porto Alegre.


Atônitos, custávamos acreditar no que nossos olhos evidenciavam: o exército estava nas ruas. Meu avô nem sequer tirara o seu pijama, pois preferira, antes, levantar, preparar um mate e, quando surpreendido, foi olhar pela fresta da janela para entender a razão daquele barulho ensurdecedor.


Tudo isso eu presenciava pouco antes de completar meus quinze anos. Ainda era imaturo para relacionar aquela invasão aos últimos acontecimentos, ligados à rádio Legalidade, arauto de um movimento de esquerda, que, nos últimos dias, anunciava a chegada de novos tempos ao povo brasileiro. Era revolução de cá e de lá.


Iniciava ali, diante de meus olhos, a Revolução de 1964.


Depois daquele desfile militar, nada festivo em minha rua, tudo voltou ao silêncio e ao que parecia normalidade. Por isso o povo foi, aos poucos, saindo de suas casas, já na manhã seguinte. Naquele tempo ainda não havia supermercados. Só vendinhas, onde nossa família mantinha cadernetas para registrar o fiado tomado, programado para ser saldado ao final do mês. Foi uma correria só. Nós e os vizinhos invadimos aqueles estabelecimentos para comprar e estocar gêneros, pois pensávamos  na iminência de ficarmos sitiados, por vários dias, correndo o risco de falta de alimentos, bebidas e outros artigos de primeira necessidade.


Cada um carregava o que podia em seus braços, enquanto as portas desses estabelecimentos permaneciam semicerradas à espera de uma ordem para fechar. Ao cair da noite, velas foram acesas, em casas e ruas, enquanto poucas pessoas passavam apressadamente pelas calçadas da rua onde morava. Havia um toque de recolher. De fato, durante dois ou três dias as vendinhas ficaram fechadas e depois reabertas normalmente. 


Procurávamos ignorar a presença militar em nossas vidas, fingindo retomar nossas rotinas. Mas os efeitos da revolução logo chegaram até nós. Lembro-me que, em uma manhã ensolarada, dirigia-me à escola Rui Barbosa, localizada ao longo da Avenida Oswaldo Aranha, em área limítrofe à cidade universitária da UFRGS - Universidade Federal do Rio Grande do Sul.  


Frequentava o curso científico, em instalações que hoje não existem mais, demolidas para dar lugar à construção de um viaduto para ligar aquele bairro ao Centro da Capital. Tudo isso ainda está presente em minha memória. Quando cheguei às cercanias daquela Escola, notei um grande número de estudantes universitários que se aglomeravam pelas áreas adjacentes à Escola de Arquitetura, esparramando-se pelas avenidas e parques fronteiriços ao complexo universitário.


Estavam agitados, gritando palavras de ordem, agitando bandeiras, bloqueando o fluxo de veículos, incitando os transeuntes a se unirem ao movimento. Um pelotão de soldados começou a marchar em sentido contrário, estacionando há poucos metros de distância do grupo que protestava. Vi aquela cena congelada por mais de hora. Os militares parados só observando. Os manifestantes ruidosamente desafiando seus opositores a voltarem para onde vieram, conclamando-os a os deixarem em paz.


Fui me aproximando, aos poucos, do portão principal, permanecendo fora dos muros escolares, para ver no que ia dar toda aquela agitação. O comandante do pelotão pegara o megafone e gritara:


- Voltem para suas casas, queremos ordem. Dispersem-se e acabem com este movimento. Mas os insurgidos ficaram determinados em seus postos.


Depois de algum tempo um batalhão da cavalaria e outro de choque chegaram ao local. Mas tudo permanecia na mesma. Então o comandante bradou: “Se em dez minutos, vocês não se dissolverem, vamos agir, prendendo os desordeiros, para restaurar a ordem.


Passados cinco minutos, voltou a fixar um prazo remanescente.  


Mas os estudantes não se intimidaram e continuaram a gritar palavras de ordem. Alguns se deitaram a frente dos cavalos, sabendo que os animais não pisoteiam seres humanos estendidos no chão. Resistiam bravamente à presença militar, unindo-se em prol de um objetivo comum, embora pudessem estar separados por ideologias e crenças de como poderiam enfrentar seus oponentes. Creio que, naquelas fileiras, muitos deles poderiam estar pensando em erguer bandeiras cujos efeitos também poderiam derivar-se em novas formas de regime de exceção. Mas, certamente, naquela hora, todos eles queriam os militares de volta aos quartéis. 


Esgotado o prazo, o comandante deu a ordem, enquanto os militares partiam para cima dos manifestantes.  Enquanto eu adentrava pelos muros de minha escola, para encontrar abrigo, fui acompanhado por inúmeros estudantes universitários que, em desabalada correria, conseguiram encontrar abrigo seguro. E, de lá, enxerguei muitos feridos, que sangravam e gemiam suplicando por socorro.  Muitos foram presos, deles não tendo mais notícias.


Daí para frente, toda e qualquer iniciativa, naquelas imediações, que assumia contornos do que acontecera aquele dia passou a ser reprimida com veemência . Não era necessária a aglutinação de grandes multidões. Bastava um pequeno grupo se reunir que o remédio era dado na mesma medida. Até que ninguém mais pode formar aglomeração de mais de três indivíduos, sob pena de serem detidos. 


E assim a Revolução seguiu o seu curso. Entre os desaparecidos estavam colegas de classe que nunca mais vi retornaram aos bancos escolares, ignorando o paradeiro que tomaram, após aqueles incidentes que sacudiram a vida nacional.


Hoje tudo isso permanece apenas na memória dos mais velhos, que deveriam ensinar aos mais novos o valor da liberdade, da responsabilidade e da paz, como verdadeiros alicerces para o desenvolvimento humano. Regime de exceção é regime de exceção, seja de que bandeira for.


Pode haver um traço de totalitarismo no interior de cada um de nós. Em todas as nossas instituições ainda há ranços de autocracia. Em nossas escolas, nos sindicatos, nas associações, e, principalmente, nas empresas, cujas estruturas rígidas e verticalizadas favorecem o poder cerceador e excludente, que tornam o exercício de democracia uma mera questão de retórica. Até mesmo nas estruturas familiares esse verticalismo ainda está presente. Nos dizemos sociedades modernas, avançadas, tecnificadas. Mas, sobre isso, temos muito a aprender com nossos irmãos índios que sabem preservar a sua individualidade porém, de livre e espontânea escolha subordinam-se à vontade coletiva paritária. 




Deixemos esse traço autocrático dormindo em nós. Muitas imputam às ideologias e à luta de classes como fatores da discórdia. Pessoalmente acredito que a disposição ao totalitarismo é inerente ao próprio homem e está inserido em sua condição humana. Está ligado à intransigência, o controle absoluto, a incapacidade de conviver com as diferenças, a busca por hegemonia, a regulação, a ausência de limites no uso da autoridade. Que a volta de regimes autoritários não passe deste primeiro de abril. E fiquem na memória de tantos que a viveram. 


A história humana permeia a intolerância, em relação aos adeptos do pacifismo e da democracia verdadeiramente participativa. Martin Luther King, Gandhi, John Lennon e tantos outros tiveram suas vozes caladas por sectários, por simplesmente preconizarem um mundo melhor, uma visão humanista e ambientalista capaz de levar a humanidade a transcender a um novo patamar.  Que as memórias vivencias permitam que passemos às novas gerações a esperança de um novo amanhã e a construção de seres mais preparados a viver a tolerância, a diversidade e a comunhão de homens dispostos a transformar utopias em verdadeiras condições de ser e de viver.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Críticas

Pelas pesquisas estou sabendo que o número de pessoas que visitam esta página é pequeno.


Ela não tem o dinamismo do twitter, que utiliza frases curtas, concisas, para expressar pensamentos e facilitar a disseminação de idéias. Muitos me criticam por escrever textos longos e, portanto, estar na contra-mão dessa tendência. Outros acabam por me confessar que sofrem de preguiça ou alegam tempo escasso para ler sobre minhas digressões.

Também estou longe de enquadrar-me no estilo oferecido pelo facebook, voltado à socialização e a interação social, a partir de conteúdos que dominam o imaginário popular. Mais uma vez sinto-me marginalizado dos paradigmas que pessoas próximas me sugestionam para "melhorar" a acessibilidade a este blog.

E, ainda, também estou fora do mundo dos blogueiros, já que a moda do blog está passando e desinsentivando autores a seguirem com suas propostas originais. Por isso me considero "totalmente fora dos padrões". À medida que cai a "audiência" aumentam as críticas a um autor que segue o seu "tranquito", sem se importar se a moda agora está ou não migrando para uma outra mídia ou se devo ou não mudar para "agradar" àquelas pessoas que a toda hora migram em busca de estarem sendo enquadradas como modernas ou "na crista da onda".

Meu objetivo não é me tornar popular e admirado pelas massas, contar o número de "amigos" conectados à minha rede ou dizer banalidades como "estar entediado, estar cansado por um dia cheio ou ter brigado com fulano ou beltrano. Deixo isso para os políticos, os que desejam a notoriedade ou a popularidade.

Meu objetivo é mais simples: conversar com pessoas consequentes, que buscam entender o comportamento humano e aprimorar suas vidas a partir de um melhor conhecimento de si mesmos, a partir da interatividade que um artigo como este enseja. Mesmo que isso signifique receber críticas a todo momento, por não ter agido assim ou assado.

O ser humano não construiu uma estrutura psicológica para receber críticas. Fugimos delas tanto quanto dos consultórios de dentistas, quando ouvimos aquele barulhinho característico de brocas mexendo em nossas bocas.

Ao contrário: gostamos de receber elogios, sermos considerados, admirados, enquadrados na condição de sábios, de modelos para que outros se inspirem. Adoramos ver o nosso ego envaidecer-se por saudáveis louvores a nosso nome.

Logo pulamos de raiva, indignação, frustração ou repulsa por uma crítica recebida. Nos esquecemos que somos seres imperfeitos, passíveis de erros e enganos, em busca de nosso aperfeiçoamento.

Foi o que aconteceu comigo durante um episódio, ocorrido esta semana de carnaval. Minha filha havia me pedido um favor e eu lhe disse que não poderia atender o seu pedido.

Eis aí uma outra limitação humana: não estamos acostumados a receber um não como resposta. Nosso ego não deixa. Sempre queremos o sim como resposta e, de preferência, acompanhado por um sorriso largo no rosto. Ou, então, ficamos com medo de dizer não para não ferir sentimentos e assim evitarmos de vermos nossas imagens arranhadas. E nos esquecemos que o sim, que dizemos, sem muita convicção, pode ser mais prejudicial àquela pessoa a quem nos dirigimos do que o impacto momentâneo que enseja a palavra nâo pronunciada de forma antipática.

Minha esposa saiu em defesa de minha filha. Ela, uma boa e autêntica aquariana, defensora dos oprimidos e injustiçados, bateu firme e forte contra minha opinião. Já ia revidar como sempre faço, espalhando farpas e distribuindo impropérios por ver minha honra arranhada, por ouvir críticas e censuras a meus posicionamentos. Mas minha intuição se abriu e, em vez de rugir, como leão, resolví pensar em tudo que a situação subjacente poderia revelar-me.

Sempre encarei as críticas como algo nefasto, chamando o lado negativo de minhas percepções.

Já deveria ter me acostumado a ver tais atitudes, críticas, azedas, proferidas por minha companheira, ao longo de quatro décadas de vida conjugal, pois elas se perdem na poeira de nossa história. Elas simplesmente se tornaram mais ácidas, mais sarcásticas, mais diretivas, à medida que o tempo avançou em nossa relação.

Então resolví traçar um paralelo entre o tempo em que eu era jovem e o momento atual, já desgastado pelo tempo, muito embora nem sempre em minha plena maturidade. Quando jovem, tentava utilizar a minha eloqüência, elaborando discursos cheio de palavras medidas, para "provar" que estava certo e, na mesma medida, "ela" errada. Acreditava que, pelo diálogo, poderia fazê-la mudar de posição e "trazê-la" para o meu lado. Ledo engano.

Uma infinidade de casamentos acabam, provocados por críticas ácidas, contundentes, sarcásticas, irônicas, confrontatórias. Acabei descobrindo que é pura balela procurar "fazer a cabeça do outro". Não se muda uma pessoa de fora para dentro. É ela mesmo quem muda, quando se achar amadurecida, dentro de si, para promover mudanças de atitudes às quais, costumeiramente, pratica.

Também descobri que o ato de calar, por si só, também não é remédio para a cura.

Sempre encarei a crítica como algo nefasto, que abala o próprio ego, deprecia, oprime, ainda que pronunciada com um sorriso no rosto.

Mas, há certa altura de minhas reflexões, dei uma parada e me perguntei: quem seria eu, ao longo desses anos, se não tivesse convivido sistematicamente com a crítica? Será que chegaria a ser o que hoje sou, embora imperfeito, mas com convicções formadas?

E, se minha companheira tivesse dito sim para tudo e se tornasse uma pessoa concordata, como poderia testar minhas convicções? Às vezes queremos que tudo nos aconteça de maneira fácil, sem atritos, sem obstáculos, simplesmente as coisas irem se plasmando à medida que idealizamos. Sempre esperei que o destino deveria espontaneamente abrir suas portas, facilitando as coisas para que nosso livre-arbítrio fosse se materializando naturalmente em tudo aquilo que fosse objeto de nosso desejo. Perguntei-me: não seria chato isso?

Então, em lugar de pensar que ela, com suas críticas, não estava acreditando em mim, não estava levando fé em mim, estaria me desautorizando, passei a ver o outro lado da moeda. Em lugar de ver nessa atitude uma coisa ruim, que estraga relacionamentos, passei a ver a coisa pelo lado positivo de observar como tenho agido, diante de obstáculos, confrontos e oposições. Estou sendo colocado à prova, assim como minhas crenças, para me tornar um ser mais forte, mais convicto, mais determinado. É do atrito que nascem as certezas, assim como árvores que, se quiserem se tornar altas e frondosas, chegarem a alcançar a luz do sol, em meio à copa de outras árvores, terão que rasgar a terra e, a cada dia, a aprenderem a sugar a seiva do solo em meio à luta pela sobrevivência.

Em lugar de olhar para ela, devo olhar para mim. Não julgar mais suas atitudes. Minha companheira que faça o seu trabalho como desejar, mude quando quiser e siga suas próprias inclinações. Seja o que ela quiser ser. Se quiser continuar me criticando, que o faça.

Devo olhar para meu interior e rever minhas metas. Fazer minhas próprias descobertas. Acredito que não sensibilizarei ninguém se, antes, não estiver devidamente sensibilizado pelo que acredito. Não posso culpá-la, nem reprová-la. A minha responsabilidade é com a minha vida.

Passarei, a partir de agora, a agradecer a Deus por ter colocado a meu lado alguém que me obrigue a me trabalhar, tirando-me da letargia, da procrastinação, para me levar pelos caminhos da autocrítica. Agradeço aos Mestres, em especial a meu Mestre Instrutor, por soprar no meu ouvido a hora de parar de me lamentar, de me achar vítima de alguém que, costumeiramente, me critica. E elevar minhas preces aos céus, por me dar a oportunidade de acordar e ver que a verdadeira felicidade depende do olhar como vejo o mundo. O mundo será aquilo que eu fizer dele. Nem mais, nem menos.

E, quando alguém criticar este blog, também devo me lembrar das sábias palavras de meu Mestre Instrutor: olhes para o teu coração e acharás o caminho a seguir, ainda que esses artigos não agradem àqueles acostumados aos twitters e facebooks da vida, onde frases bonitas não refletem vidas experimentadas e frases materializadas por experiências construídas em cima de atritos e obstáculos a serem contornados, tal qual um rio que, para seguir o seu curso, aprende a serpentear, até desaguar no mar onde todas as experiências se juntam e tudo se soma no plano da existência. As críticas não são boas nem ruins, elas ganham o seu tom segundo o nosso olhar e a nossa forma de responder ao que nos é interpelado.