terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Realidade ou ficção?

AMOR SEM ESCALAS é a denominação que recebeu, no Brasil, o filme “Up in the Air”, inspirado no livro de Walter Kirn, rodado no último ano, sob a direção de Jason Reitman, responsável pelos sucessos Obrigado por Fumar e Juno.

Recebeu seis indicações ao Oscar deste ano: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator (George Clooney), Melhor Atriz Codjuvante ( Anna Kendrick e Vera Farmiga), Melhor Roteiro Adaptado, sendo vencedor do Globo de Ouro 2010 de Melhor Roteiro para Jason Reitman e Sheldon Turner.

Traz no elenco Jason Bateman, George Clooney, Anna Kendrick, Vera Farmiga, Melanie Lynskey, Danny McBride, Chris Lowell, Tamala Jones.

Resolvi assisti-lo em pleno carnaval, por não me considerar um compromissado folião. Antes de sair de casa, dei uma olhada na sinopse: “Especialista em redução de pessoal vê seu emprego ameaçado justamente quando conhece a mulher de seus sonhos e está perto de atingir dez milhões de milhas”.

Aprendi há muito que não devemos escolher um filme pela sinopse, nem pelo nome que recebeu no País de exibição. De fato acredito que o título original faz jus à indicação, já que convida o espectador a fazer uma reflexão sobre temas atuais que pertencem às nossas vidas.

Dentro de uma óptica subjetiva, entendo que a proposta do filme tenha sido examinar a rotina das pessoas, suas decisões, que determinam seus rumos de vida, além de discutir atitudes e expectativas frente ao futuro que é reservado às pessoas.

A estória gira em torno de Ryan Bingham (George Clooney), um consultor que tem a tarefa de demitir funcionários para cortar os gastos das empresas.
Presumo que o ato de despedir um funcionário, que conta com longos anos de casa, constitui um gesto de tamanha envergadura, pelo impacto e efeitos, que as empresas americanas resolvem terceirizar essa tarefa, colocando nas mãos de um especialista a missão de verdadeiramente balançar a vida das pessoas.

Por isso, Ryan viaja o tempo todo, cerca de 11 meses e meio ao ano, sempre vestido de terno e carregando uma maleta, em seus constantes deslocamentos pelos diversos cantos do país. E, quando não está no trabalho, gosta de passar o tempo em quartos de hotéis pouco conhecidos e cabines de vôos, estando próximo de atingir a sua maior meta: conseguir dez milhões de milhas como passageiro.

O ato de demitir vira uma rotina, a ponto de torná-lo um profissional frio e distante de seus desafetos. Surpresas, chocadas, revoltadas, confusas elas reagem de formas distintas, mas todas elas tendo como elemento essencial o fato de ver sua estabilidade financeira desmoronar e passarem à contingência de não mais contarem com proventos fixos para honrarem compromissos assumidos face à segurança de um vínculo empregatício que julgavam imorredouro.

E agora, o que eu vou fazer de minha vida? Como vou sustentar meus filhos? Como vou honrar os compromissos assumidos? Dei o meu sangue por essa Empresa e agora ela me despede? Fiz muitas horas extras, nada recebi, e agora, como pagamento, eles me colocam no olho da rua!
Esses e outros comentários são reproduzidos exaustivamente durante o filme. A incredulidade e o estarrecimento estão presentes na expressão corporal de todos os entrevistados.

A maior ironia, no tocante à responsabilidade atribuída ao Especialista, é a de fazê-lo buscar, junto a seus desafetos, que se encontram num momento de sua maior fragilidade, estimular-lhes a ter confiança em si para buscar novas oportunidades, talvez mais afetas às suas reais aspirações e espertizes. É uma forma de fazer reduzir o impacto de uma dispensa que somente beneficia a parte contratante.

Seu trabalho consiste em anunciar a decisão, esperar pela reação e, depois, abrir-lhes os olhos para novas oportunidades de mercado, buscar a minimização de seus pontos fracos, que lhes conduziram à dispensa, e otimizar pontos fortes, levando-lhes a trocar a tristeza provocada pelo descarte por uma atitude construtiva de sair em busca da realização de sonhos alimentados e ainda não considerados ou de fazer do demitido tirar da gaveta planos profissionais nunca lançados em prática.

Isso ele consegue algumas vezes, ao analisar seus currículos, como é caso, ao descobrir que um deles adota o hobby culinário, nas horas vagas, incentivando-o a montar um restaurante, ou, então, sugerir a um funcionário da área administrativa que montasse seu próprio negócio, com a experiência acumulada.

Tudo ia bem, até que seu chefe contrata a arrogante Natalie Keener (Anna Kendrick), que desenvolveu um sistema de videoconferência onde as pessoas poderão ser demitidas sem que seja necessário deixar o escritório. Este sistema, caso seja implementado, põe em risco o emprego de Ryan. Ele passa então a tentar convencê-la do erro que é sua implementação, passando a viajar com Anna para mostrar-lhe a realidade de seu trabalho.
Com isso, o filme também discute a relação tecnologia x relações humanas, onde modelos de funcionalidade e sistemas digitais tendem a ocupar o lugar do velho e simples contato presencial, olho a olho.

É nesse momento que o sistema se mostra verdadeiramente draconiano. Em sua condição de aprendiz, a recém promovida especialista demite uma funcionária de uma empresa e essa lhe diz que iria se jogar de uma ponte, por não ver solução à situação criada, possibilidade relevada pelos especialistas. Mas tempos depois acabam sabendo que a funcionária demitida cumprira com o que havia anunciado, pondo fim à sua vida.
Esse fato provoca um verdadeiro abalo entre todos os envolvidos.

Constrangida e traumatizada, a nova especialista se demite. E com a ajuda de seu ex-colega consegue um novo emprego.

O filme também coloca em discussão a questão da felicidade e seus vínculos com a solidão, vivida por seu personagem central, que era destituído de vínculos emocionais, mantendo apenas o rumo conforme itinerários traçados por seus dirigentes.

É nesse momento que surge uma mulher em sua vida, vivida por Vera Farmiga (não muito conhecida do público brasileiro), mas que também conserva o estilo de viajar sempre.

Eles se encontram quando suas agendas de viagem batem. Oposto a eles está Natalie, uma recém formada cheia de vida que acha que pode conquistar o mundo. Quem nunca pensou assim?

Ryan descobre que sua amada Alex é casada, chegando a fazer a sua opção por viagens para quebrar a rotina de seu lar. Ela lhe imputa o papel de “endosso de cheque” quando deseja apimentar sua vida sexual. Ryan é o verdadeiro objeto de suas fantasias libertárias. Já Natalie, ao esconder suas incertezas e inseguranças atrás de uma capa de arrogância e petulância, recebe a dispensa do namorado através de uma lacônica mensagem em seu celular.

Nem drama, nem comédia (sua classificação oficial), o filme discute o papel da família e possibilidade de as pessoas viverem uma vida livre. Vale a pena constituir família, entregar-se à rotina e permitir que as intenções originais sejam solapadas, ao longo do tempo, pela mesmice? Será que a rotina e o imobilismo de uma relação vai desfigurar o encanto e o fetiche que chegou, algum dia, a unir pessoas enamoradas? O personagem observa que, por mais que sejam felizes em seus relacionamentos, as pessoas sempre acabam morrendo sozinhas. Sem atrativos para aceitar família e convívio familiar, Ryan opta por uma vida sem vínculos, preferindo a solidão e a estabilidade de viver uma condição sem altos e baixos, proporcionados por compromissos mais duradouros.

Ora, há uma tênue linha que separa ficção da realidade. Ambos os lados são concebidos por mentes que projetam ideações e visões subjetivas no contexto onde vivem. As pessoas compartimentam suas vidas para que elas se tornem mais fáceis: o seu trabalho, o seu lazer, a sua vida familiar, a sua vida social, etc. E se esquecem que são elas mesmas o tempo todo. São elas que estão vivendo suas experiências. Há uma aparente dicotomia em suas existências: estabelecem rotinas para se sentirem seguras, refutam todas as suas conseqüências, mas não estão devidamente preparadas para sair delas. Como se suas vidas fossem uma linha reta que segue rumo ao horizonte sempre imutável e sob controle para evitar desestabilizações.

Ao serem dispensadas de seus vínculos empregatícios, tanto na ficção quanto na realidade, todas são tomadas de surpresa, sentindo-se chocadas e estarrecidas. A possibilidade de uma demissão nunca passou de uma quimera em suas vidas.

Somente quem já passou por isso sabe o que significa verdadeiramente sentir o chão desabar. Eu já passei, recentemente, por tal experiência, verdadeiramente singular. Porque, quem é demitido, na atual sociedade, é considerado um verdadeiro perdedor, sendo estigmatizado como objeto do preconceito e da exclusão.

E assim como acontece em nossas vidas profissionais, também podemos ser demitidos por outras pessoas de nossa condição afetiva, que resolvem nos excluir de suas vidas.

A discussão levantada nos leva a um alerta de que a rotina e a estabilidade podem ser quebradas a qualquer momento. E quando uma nova realidade se instaura, ela quebra com todo o status quo existente anteriormente. Nossa vida nunca mais será a mesma. Posso arrumar um novo emprego, uma nova relação, uma nova pessoa para fazer parte da minha vida, mas seja como for a minha vida nunca mais será a mesma.

Muitas vezes não aceitamos isso, muito embora o ato de aceitar possa fazer parte da construção de novos paradigmas em nossa vida. Quando há uma ruptura, somente temos olhos para ver que somos seres infelizes, porque perdemos o que nos prendia a uma forma de vida, e passamos a ser carregados pelo peso de nossa autopiedade e de nossa “falta de sorte”.

A grande maioria das pessoas, que são demitidas de seus relacionamentos, não consegue se reinventar, não consegue, de imediato, construir novos valores para encarar a vida. E vivem o desconforto da solidão. O papel de um especialista é o de apontar novas oportunidades, mas estamos tão envolvidos com o pesar da exclusão que nos esquecemos de ver e apontar novas e oportunas possibilidades em nossa vida.

A vida nos convida, se não de forma espontânea, de forma compulsória, a reinventarmos a concepção que temos dela. Estamos aqui para aprender e a tirar lições de nossos erros. Pois sempre haverá um Ryan em nossas existências, viajando para cá e para lá, fixando metas, insensível às nossas emoções, proclamando mudanças, lembrando que a vida não é linear, nem estável, mas um eterno devenir. E esse personagem pode até esconder uma outra designação, ignorada por muitas, chamada destino, que engloba tudo, até mesmo a morte, sempre presente, mas nunca considerada em nossa incessante busca pela estabilidade.

E quando Ryan vier bater em nossa porta, não poderemos dizer mais: eu não estava prevenido, eu não sabia, o que vou agora fazer de minha vida? Porque ele atingiu a sua meta de acumular 10 milhões de milhas. Feitas através dos mais desavisados, que insistem em deixar de acreditar que a conquista da felicidade depende das cores que pintamos a nossa vida.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Economia Providencial

Nunca, na história da humanidade, o homem atingiu tamanha ousadia e superação de limites, em suas ações, como agora, até chegar a constituir uma sociedade do conhecimento. O ritmo de geração de novos conhecimentos e descobertas acontecem de forma exponencial, não sendo impossível até mesmo pensarmos em uma nova revolução industrial, como resultado da construção de nanomáquinas.

Mas, como nessa vida tudo tem o seu preço, há que se cuidar para que os efeitos nocivos desse processo, não venham levar a humanidade a comprometer, de forma irreversível, a sua trajetória.

É o que acontece em relação à combinação do binômio avanço tecnológico x consumo. Isso é: a todo o momento somos bombardeados por apelos, através de campanhas publicitárias, que estimulam o consumo como forma de mantermos o status quo no meio em que vivemos, sempre a partir da perspectiva de acompanhar e adquirir produtos que contenham inovações tecnológicas. Afinal, quem não gosta de novidades? E o resultado? Nos tornamos consumidores contumazes.

Até nos tornarmos, nós mesmos, verdadeiros objetos de consumo: queremos, sempre, andar de carro novo, usar aparelho celular de última geração, adquirirmos roupas criadas por estilistas famosos, freqüentar bons restaurantes, dispormos de computadores que incorporam tecnologias de ponta, termos, em nossas residências, os eletrodomésticos de última geração, para obtermos, em troca, o gosto de sermos reconhecidos por nosso próprio glamour. Até ouvirmos: “Ele(a) é o cara”!

Tudo gira em torno do dinheiro e sem ele somos peças marginalizadas.

Lembro-me o exemplo de uma pessoa próxima, que , num certo dia ensolarado de sábado, deu uma saída e retornou motorizado. “Olhem o carro que comprei” “Pela bagatela de R$19.000,00 por um bem conservado veículo ano 2002.

Vou pagar R$540,00 por mês. Coube direitinho em minha renda mensal.

Peguei a calculadora e, após alguns toques no teclado lhe perguntei: “Você sabia que comprou um carro que custará, ao final do financiamento, a bagatela de R$32.000,00, pagos por um veículo com 7 anos de uso? E que a taxa de juros está beirando os 2% ao mês? E que o preço final será muito superior ao preço de um carro zero”? É claro que nada disso foi considerado.

O brasileiro é assim: primeiro “sente” o impulso de ter algo valioso, na escala de consumo. Aí verifica se a prestação cabe em seu bolso. Em seguida, busca tê-lo em mãos, o mais breve possível. Sem pensar que seu afã lhe deixará, como neste exemplo, amarrado por 60 longos meses a uma financeira.

Não há planejamento, nem maturidade. Apenas impulsividade e consumo imediato. Se esquecem que as grandes lojas não vendem fogões, geladeiras, televisões, mas o seu negócio principal é emprestar capital a juros elevados. Os artigos são meros chamarizes para o acesso ao dinheiro caro.

O excesso de apelo faz com que não saibamos mais discernir entre necessidades essenciais e necessidades criadas por nosso modus consumista.
Afinal, consumir tem algo a ver com a satisfação da alto estima. Se estamos deprimidos, vamos ao shopping e compramos, compramos até restaurarmos a nossa alegria. Compensamos nossa baixa auto-estima pela possibilidade de voltarmos para casa cheio de sacolas com grifes da moda.

Se estamos alegres, consumimos para comemorarmos que estarmos de bem com a vida. “Afinal eu mereço”. A medicina arrumou um nome apropriado para isso: “síndrome do consumidor compulsivo”.


É preciso trabalhar essa questão dentro de si. É preciso praticar a economia providencial como forma de disciplinar nossas necessidades. Afinal, nossa verdadeira felicidade não depende de nossa capacidade de adquirir compulsivamente.

Não se trata de seguir à risca uma ascética religiosa a exemplo dos primeiros cristãos, guiados por Pedro, que faziam vida em comum, conforme se lê nos Atos dos Apóstolos: “e todos os que haviam abraçado a fé viviam unidos e tinham todas as coisas em comum”; e vendiam as posses e os bens comuns que eram repartidos entre todos, segundo as necessidades de cada um”.

Apenas alguns dos fervorosos cristãos conseguiram cumprir com o ideal de pobreza evangélica que Cristo desejava como fundamento da felicidade de todos. São Francisco de Assis é um dos exemplos mais dignos. O ideal de pobreza franciscana é admirável, gerando a atitude de prescindir do consumo e de despojar-se sistematicamente de todas as posses. A natureza humana se redime pelo sangue de Cristo e se diviniza pela imitação de seu desprendimento total.

Mas essa senda não é para todos. Porque poucos são os que podem realizar a Deus por meio da pobreza total. Até mesmo Francisco teve que reconhecer que seus irmãos frades precisavam de roupas para vestirem, casa para habitarem, livros para estudarem.

Talvez a dimensão budista de optar pelo caminho do meio seja a melhor forma de dosar a questão do consumo: corrigir tudo o que é excesso. Isso é: corrigir atitudes que levem ao afã possessivo e egoísta da humanidade.

A Economia Providencial caminha pela trilha de estabelecer uma harmonia entre as necessidades e os bens que se produz, aperfeiçoando o sentido de responsabilidade social. É o afã possessivo que torna o ser humano pobre e infeliz. O acúmulo excessivo e a especulação, que cerceia a possibilidade de os outros suprirem as suas necessidades, provoca um distanciamento entre o possuidor e a posse, tornando-os forças distintas, antagônicas, que colidem entre si e se desfazem mutuamente.

É lícito acreditar no consumo, como forma de satisfação das necessidades essenciais. Mas há que se criar o hábito de discernir o que se pode e o que não se pode consumir. E até mesmo criarmos o hábito de planejarmos nossas aquisições, além de separarmos, a cada mês, uma pequena quantia para a poupança. Evita-se, assim, ingressarmos, como “vitimas”, na ciranda especulativa que está subjacente ao crédito. E, também, sermos vítimas de nossa sanha consumista, que nos distancia da condição de vivermos de acordo com o que ganhamos.

Isso é o primeiro passo para aprendermos a estimular a nossa consciência social, passando a nos lembrarmos das necessidades alheias. Em outras palavras: “devemos ocupar apenas um lugar no mundo e não dois lugares”, quando seguimos impulsos e deixamos de dar medida a tudo aquilo que vai de encontro às necessidades coletivas.

domingo, 8 de novembro de 2009

Caminhos de Renúncia

Um cumprimento, entre membros que seguem caminhos espirituais inspirados na escola oriental, se baseia na inclinação da cabeça e de uma breve inflexão do corpo para frente, para simbolizar que a divindade que habita o corpo de um asceta saúda a divindade que habita o corpo de outro.

É um gesto que inspira respeito, consideração, reverência por outro ser humano. Mas, infelizmente, é uma prática utilizada por poucos, se compararmos à ascensão do individualismo na sociedade contemporânea. No Brasil, está ficando cada vez menos comum as pessoas dizerem: “com licença, por favor, obrigado”.

Inicialmente, ao prestar atenção no desaparecimento dessas simples práticas de relações interpessoais, cheguei a pensar tratar-se de uma “falta de educação”, mas, olhando a questão com maior atenção, passei a entender que o problema não está ligado à etiqueta social, mas a falta de consideração, de quem não adota essa conduta, por seus semelhantes. Estamos perdendo até mesmo o hábito de saudarmos as pessoas, com um simples “bom dia”ou “boa tarde”. Ou mesmo um “até logo”, como gesto de despedida.

O fenômeno das grandes cidades vêm produzindo relações cada vez mais impessoais e já é comum as pessoas residirem em prédios com muitos apartamentos, sem sequer conhecerem o seu vizinho de porta. Ao telefone vamos logo dispensando as formalidades para dizermos tão somente: Fulano, em lugar de dizermos: "Bom dia, por gentileza, poderia falar com o fulano? Ninguém tem a obrigação de chamar a quem desejamos falar. Seria um gesto de delicadeza agradecer a quem nos presta um favor.

Vivemos tempos atribulados onde cada vez mais colocamos cada vez menos o outro em nossas vidas. Em lugar disso, nossa baixa auto estima nos leva à necessidade de estarmos em evidência. Já temos pessoas demais, querendo ser mais. A humanidade precisa, com urgência, de pessoas que queiram ser menos. Sejam almas de renúncia.

Esta semana recebi um e-email contendo, anexado, uma mensagem cuja autoria é atribuída a Martha Medeiros, intitulada “Quindim na Porta”. O texto se referia ao livro de Paulo Hecker Filho, Fidelidades, em que o autor deixava bilhetes, livros e quindins na portaria do prédio onde morava o poeta Mario Quintana, acompanhados dos dizeres “Para estar ao lado sem pesar com a presença”.

A leitura dessa mensagem se fez ao tempo em que também vi inúmeros desabafos de pessoas de renome nacional, entre eles Paulo Coelho, a própria Martha Medeiros, Leonardo Boff e o mais recente deles, Arnaldo Jabour, reclamando de inúmeros textos publicados como sendo de sua autoria, porém escritos por pessoas não identificadas. Por isso não sei, ao certo, se a referida mensagem leva mesmo a assinatura de sua propalada autora, embora o seu teor tenha me levado a essa reflexão.

Quem não gosta de carinho? Dar atenção, num mundo onde é cada vez mais comum o individualismo e a solidão é um ato solidário. Mas é preciso, antes, haver a preocupação prévia de não importunar as pessoas, quando essas estejam indisponíveis para nós. Isso é procurar “estar ao lado sem pesar com a presença”. Certamente teríamos um mundo mais humano, mais solidário, sem adentrar na vida de outras pessoas sem sermos devidamente autorizados.

Em outras palavras, seria praticarmos pequenas renúncias que nos tornam seres um pouco mais completos e um pouco menos inconvenientes.

Isso implica em fazer compartilhar idéias e descobertas, compartilhar habilidades, alcançar o respeito mútuo, chegar a tomar decisões verdadeiramente de consenso. Praticar pequenos gestos pessoais de renúncia é apender a lidar com necessidades reais que possibilitem a superação de estados interiores.

Calar, quando se tem a inclinação de se falar, e prestar a atenção no outro, é reverter a tendência de as pessoas colocarem suas almas num altar e passarem a adorá-las, percorrendo um caminho interior de crescente complexidade. Calar-se, para compreender, é estabelecer uma nova identidade com sua alma, separando necessidades reais de necessidades superficiais, distinguindo-se meios e fins, separando tudo aquilo que retarda ou cria obstáculos ao desenvolvimento espiritual.

Atos de pequena renúncia levam, inicialmente, à reverência ao outro,mas, depois, nos levam a compreender que não se pode amar e reverenciar a Deus se desprezamos os homens, ainda que seja apenas um deles, pois calar e escutar é fazer com que a nossa divindade, que habita em nós, reverencie a divindade que está presente em outros seres humanos.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Amargo Pesadelo

Há filmes que marcam a nossa vida. Um dos que permanecem ainda vivos, em minha memória, é, sem dúvidas, o filme Amargo Pesadelo, que assisti aos 23 anos de idade (1972). Desde o primeiro momento estabeleci uma empatia instantânea com a fotografia, o enredo e o desempenho dos atores, mas, principalmente, com a proposta de roteiro, por representar a eloqüência do comportamento humano. Dentre o elenco, as impagáveis atuações de Burt Reinolds e John Voigth.

O filme conta a trajetória de quatro amigos que resolvem sair em férias, longe do ambiente urbano, para desfrutar um convívio com a natureza. Tudo segundo um planejamento prévio, onde a principal aventura seria seguir até as cabeceiras de um caudaloso rio e descer suas correntezas, até o remanso, quilômetros rio abaixo. Tudo isso montados apenas num barco inflável e contando com a coragem e o desafio de fazer a determinação vencer a força das águas.

Mas aquilo que parecia, de início, apenas uma forma de executar o que fora programado, veio a se tornar um enorme pesadelo, quando a canoagem virou a defesa da própria vida. No grupo havia um líder (Burt Reinolds), determinado e seguro frente ao que estabelecera como desafios programados.

Mas a sorte troca de lado quando os aventureiros encontram dois homens predadores, que caçavam animais em vias de extinção, para ganhar um bom dinheiro no mercado ilegal de peles. O confronto se estabelece e um dos nossos aventureiros é estrupado e humilhado. Em represália, o líder dos aventureiros (Burt Reinolds), acaba matando um dos caçadores, mas, antes, é ferido na perna.

Verifica-se assim que, diante do perigo, o líder perde a sua empáfia, enquanto o mais tímido (John Voight) é compelido a assumir a liderança e vai, aos poucos, ganhando auto-suficiência e desenvoltura, para a chegar a assumir as características de um verdadeiro líder, mais afeito ao imprevisto e dentro de um clima de hostilidade cujo perigo de vida era iminente.

Também devo fazer uma especial menção à cena de um “duelo”, que acontece entre um garoto autista e seu banjo e um dos personagens aventureiros e seu violão. Esta semana recebi um e-mail, enviado por uma diletíssima amiga, contendo o segmento do filme em que ambos tocam os seus instrumentos. Segundo esse mesmo texto, a cena surgiu de um imprevisto, onde a equipe parou num posto de gasolina e encontrou o menino. O Diretor Boorman acabou por inserir tal “duelo”no roteiro, mas os expectadores é que foram realmente contemplados com uma das mais inesquecíveis realizações humanas, onde um dos protagonistas, considerado “normal”, consegue se relacionar com um menino autista através da música.

Agradeço à minha amiga Ana por este envio, assim como a Deus por poder relembrar deste filme que marcou o final do último século. Inspirado na vida real, a arte é capaz de mostrar que as lideranças são relativas, dependem das circunstâncias e muitas vezes escondem os verdadeiros heróis, fazendo uma verdadeira apologia à tendência humana de construir seus mitos.

Quantas vezes, na vida nacional, a realidade copia a ficção? Os líderes autênticos só surgem na adversidade. Quem sabe se, sob determinadas condições hostis, muitos dos atuais governantes, que tecem a sua imagem pública, com o intuito de se tornarem mitos, possam derrubar suas máscaras e evidenciar os verdadeiros heróis anônimos, aqueles que possuem uma alma altruísta e estão despidos de quaisquer relações de poder, mas que trabalham pelo bem-comum e carregam consigo a verdadeira condição de liderança. São, esses últimos, capazes de nos tirar do perigo que viceja o cenário nacional, tanto pela insegurança das ruas quanto pelos efeitos danosos das especulações e das negociatas que estão encobertas pela visão mítica, mas que não resistem sequer à primeira adversidade e onde as coisas começam a sair de controle. Daí para frente os atores mudam e só os verdadeiros líderes são capazes de levar ao remanso e à calmaria o bote das circunstâncias que assolam a vida nacional. Quanto ao final do filme? Bem eu acho que ainda existem, nas locadoras, cópias suficientes para você rever Amargo Pesadelo, e descobrir por si mesmo o final desta película, inspirada pela música e pela interpretação de um altista que se universaliza através da sua música e nos deixa a certeza que há, entre os céus e a terra, mais mistérios do que nossa vã filosofia consegue explicar.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

IMAGEM

Todos nós temos uma imagem a preservar.

Não basta abrir os olhos para a vida, olhar sujeitos ou objetos, através de nosso olhar peculiar, aprender a enxergar o que está subjacente ao que nossa retina consegue captar, identificar o que é essencial para a existência, expandir a consciência para levá-la a compreender as grandes verdades universais.

É preciso alimentar a voraz fome de construção de nossa imagem pessoal, para que os outros nos vejam através dela, como filtros que recomponham a luz e permitam uma imagem instantânea adequada, captadas por lentes de uma máquina fotográfica.

Esse aparente desprezo pelo simples, pelo tangível, não nos serve, pois nossa visão imediatista acredita que a melhor forma de alcançarmos a eternidade seja através de uma imagem construída, um rótulo que retire nossas imperfeições e enalteça nossas virtudes, a serem mantidas como ícones de verdadeiros super-homens que passam à eternidade como verdadeiros mitos.

Somos ególatras que não encaram o próprio ego como uma ferramenta, mas como um fim em si mesmo, verdadeiros buracos negros que vão, aos poucos, sorvendo pedaços de humanidade que habitam em nós.

Esse ego que criamos para nossa libertação, mas que, aos poucos, se converte em verdadeira figura opressora que nos escraviza:

“O que os outros vão pensar”? “Falem bem ou mal, mas falem de mim”!”Eles me adoram!” Eles não podem viver sem “mim”. “Sou mais eu”!

Necessidade imanente, busca constante, alcance efêmero, vamos utilizando-a como escudo e também como trampolim para reafirmar a nossa presença neste Planeta.

Seguir nossas próprias pegadas, superar limites, enfrentar desafios, sem deixar que nossa imagem sirva de referência. E, quando ela é posta em cheque, pelas adversidades, nos dispomos a reconstruí-la, tal qual um barco que precisa de uma bússola para singrar os mares em busca de aventuras.

Nosso ego trabalha a imagem como condição essencial para vivermos emoções e deixar nossas pegadas por onde passamos, até que os ventos do destino às apaguem, e até que uma nova cruzada seja empreendida, sempre pela teimosia de imprimir, de forma duradoura, as marcas por onde passamos.

O que nunca sabemos é se ela, a imagem, conseguirá construir vida própria, e sobreviver à nossa morte, para alcançar a eternidade, já que morrer faz parte da inexorabilidade da vida.

Difícil mesmo é renunciar. Senão de forma espontânea, de forma compulsória.


A renúncia caminha em sentido contrário à imagem e, por isso mesmo, é relegada como filha indesejável que nasce de um simples ato de prazer. Ao contrário, prevalece nossa eterna busca pela alquimia de fazer transformar imagem em mito.

“O Mito é o nada que é tudo”, como dizia o poeta Fernando Pessoa, Renunciar x Preservar a Imagem é o grande dilema deste século.

E assim seguimos pela vida, procurando a nossa identidade a partir dos ícones que herdamos de nossos antepassados, cujo nome é um selo de nossa individualidade.

Sobre isso escreveu o saudoso poeta Mario Quintana:

“Um ser humano só é ele mesmo enquanto os pais ainda estão discutindo um nome para batizar. Até então é anônimo, como um animalzinho sem dono, simples filho da Natureza e de mais ninguém. Sem laços de parentesco e outras contingências sociais. E, depois, estará correndo o riso de lhe darem um desses horrorosos nomes tradicionais de família”.

Lúdica paixão pela imagem, tão passageira, tão impessoal quanto o passar das horas.

Mas como escolher um outro caminho, sem imagem, porém com conteúdo? Basta encontrar o caminho do verbo e não do sujeito, cuja ação nos transporta pela estrada que nos dá a plenitude da criança, antes que o nome nos encontre, antes que a imagem seduza, como verdadeiro ópio que vai nos afastando do que é essencial para nossa eternidade.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

TÊMPERA

Lembro-me bem, apesar de passados quase trinta anos, quando visitei, pela primeira vez, o Município de Nova Friburgo, no Rio de Janeiro. Cidade acolhedora, natureza pujante, povo hospitaleiro, economia calcada no turismo. Pois foi lá que tive uma das mais expressivas experiências de vida.

Fui recepcionado por um dos meus melhores amigos, que já tive nesta vida, embora, depois disso, tenha desaparecido de minha vida sem sequer revelar o motivo. Não há mágoas nem ressentimentos, somente reverências e gratidão a
esse amigo, que já não sei mais por onde anda.

Acomodado em sua bela e muito confortável residência, fiquei hospedado num quarto de onde, pela janela, descortinava a vista de um belo e majestoso pico, mata verdejante e um pequeno lago.

O cenário era tão luxuriante que lhe convidei para fazermos um passeio pela região. Aceito o convite saímos caminhando em meio à mata e aos campos inclinados por uma topografia acidentada, onde a declividade, às vezes, nos obrigava a curvar os nossos corpos para mantermos o equilíbrio.

Subimos uma ribanceira para chegarmos a um patamar de onde se descortinava toda a região entorno e de onde podíamos avistar de perto o vôo das águias em busca de suas presas.

O preço pago por tal aventura foi a longa caminhada de volta, que passou por matas fechadas, nos tirando o senso de direção e a consciência do tempo a ser gasto até nosso lugar de origem.

Demoramos a aceitar o inexorável fato de estarmos perdidos, embora meu amigo fosse morador daquele local. Para isso ele sugeriu que subíssemos numa pequena plataforma que permitiria um vislumbre do sitio urbano e assim ele se localizar em relação ao rumo e o trajeto a ser seguido.

Ao subirmos por aquela pequena ladeira, descobrimos que sua casa estava localizada em linha reta, um pouco abaixo de onde estávamos. Era fácil: bastava seguirmos alguns marcos visuais, caminhando em linha reta, para simplesmente chegarmos ao nosso destino.

Mas o que parecia fácil e simples se revelou uma das mais difíceis experiências vivenciadas em toda a minha vida.

Entre o local onde estávamos e o nosso destino havia uma área extensa de capim gordura, que possuía dois metros de altura, aproximadamente, e, portanto, não permitindo visualizarmos nada senão aquela montanha de capim.

O sol já estava alto. Nós estávamos vestidos de bermuda e chinelo. Por isso o calor e a pouca roupa foram as primeiras adversidades, porque a cada passo que dávamos, o capim se enroscava em nossa pele suada e seus espinhos provocavam cortes que doíam como navalha. A vegetação espessa impedia o avanço rápido, obrigando-nos a dar passos lentos, vigorosos, para quebrar a barreira vegetal, assim como o advento de cada corte fazia doer não só a pele, mas a própria alma.

Atravessar aquela vegetação por quase duas horas de caminhada foi uma verdadeira tortura. À medida que avançávamos, em nossa caminhada, o cansaço aumentava, assim como a dor pelos cortes e pela coceira provocada pela mistura de suor e seiva.

Então comecei e não parei mais de me queixar ao meu companheiro de infortúnio, por cada uma das dores sofridas, bem como pelo sacrifício da jornada. Ele ouviu, por um longo tempo, as minhas lamúrias em silêncio, até que não agüentou minhas súplicas e me perguntou: o que eu posso fazer? O jeito é aprender a suportar a dor.

Pronto. Lá estava eu com um proveitoso material para análise e aprendizado. Depois de duas horas de verdadeiro inferno, saímos num campo roçado, localizado a poucos metros da residência de onde tínhamos partido. E não parei mais de pensar o quanto nos deixamos levar pelas fraquezas de nosso ego. Por tão pouco, deixamos a nossa auto-estima abalada e por isso mesmo, pela piedade a nós deixamos de seguir em frente.

A pena que sentimos em relação a nós é essencialmente maior do que a determinação e a têmpera para vencermos os obstáculos. Quantas vezes recuamos, desviamos e fugimos da luta por termos pena de nós mesmos? Quantas vezes deixamos de acreditar em nossa capacidade para enfrentarmos os obstáculos que se interpõem entre nós e o nosso destino final?

Quantas vezes nossa presunção nos leva a acreditarmos que, para chegarmos onde queremos, basta seguir em linha reta, através de uma caminhada visível aos olhos, porém ignorando os obstáculos por onde temos que passar?

Queremos, muitas vezes, atingir nossos objetivos sem caminharmos até lá. Ou não passarmos por obstáculos, que queimam a nossa carne e provocam dor em nossa própria alma, muitas vezes aumentada por nossa auto-piedade. Para tudo há um preço. E, quando a pela começa a doer e a coçar, é porque nossa tempera está começando a ser testada.

Nesse caso, o melhor a fazer é deixar de olhar o prazer que nos aguarda e voltar toda a nossa atenção a cada passo que damos, renovando forças e buscando coragem renovada para chegarmos, novamente, aos campos limpos e fáceis de caminhar. Senão, as contingências que a vida nos reserva fará a sua parte, criando situações onde somos compelidos a atravessarmos campos hostis, se quisermos chegar ao remanso e o conforto de olharmos a natureza pujante como lazer e prazer.

E mesmo não pensando nelas, as adversidades chegam, sem convite, para lembrar que ninguém vem a este mundo a passeio. A tempera só nasce onde haja, antes, a ousadia e determinação, mesmo que essas estejam acompanhadas por dor e sofrimento. Quando menos esperamos, encontramos a adversidade onde esperávamos encontrar uma estrada aberta e confortável, fruto mais de nossos devaneios do que a dura realidade que o destino nos coloca por onde devemos passar.

sábado, 26 de setembro de 2009

COERÊNCIA

Há uma passagem de Mahatma Gandhi, um dos seres mais perfeitos que esta Terra já conheceu, que se refere ao princípio da coerência humana.

Conta-se que uma mãe foi procurá-lo, lhe fazendo o seguinte pedido:

- Mestre! Eu gostaria que o Senhor ensinasse o meu filho a não comer açúcar.

O Mestre pensou um pouco e disse:

- Sim. Mas volte daqui há duas semanas e traga consigo o seu menino.

A mãe não soube bem entender o que o Mestre quis lhe dizer, mas acatou e esperou o intervalo que lhe fora solicitado.

Passadas as duas semanas a mãe retornou ao Mestre e lhe disse:

- Fiz conforme o Senhor me recomendara. Agora gostaria de lhe pedir para que ensine o meu filho a deixar de comer açúcar.

O Grande Mahatma olhou o menino, se aproximou dele e se colocou de cócoras, para que seu rosto fitasse o menino frente a frente. E carinhosamente balbuciou:

- Não coma açúcar!

Feito isso se levantou e já ia embora, quando a mãe do menino lhe interpelou:

- Mestre! Eu saí de casa de madrugada, andei quilômetros até chegar aqui. Enfrentei animais bravios, atravessei leito de rios com o menino no colo, carreguei-o após se cansar, para o Senhor fazer algo que eu mesma poderia ter feito, em casa, sem precisar passar por todo esse sacrifício. Por que o Senhor fez isso comigo!

- É porque antes eu comia açúcar, minha filha!

A coerência está entre as atitudes humanas mais difíceis de ser praticada.

Geralmente, procuramos mostrar às pessoas não a imagem de quem realmente somos, mas a imagem de quem gostaríamos de ser. Criamos uma imagem distorcida, capaz de esconder a nossa própria arrogância, a nossa soberba. Outras vezes criamos falsas imagens para sermos admirados, respeitados e até mesmo temidos por atitudes contundentes que escondem o medo, a insegurança e a nosso complexo de inferioridade.

Criamos um mundo à nossa própria imagem e semelhança. E queremos que tudo se encaixe dentro dele do jeito que nós projetamos por nossa concebida persona. Somos críticos ferozes dos outros, vorazes julgadores dos demais, para demonstrar a nossa sapiência e sabedoria de enxergar o mundo. Mas somos benevolentes e modestos em relação a nossos atos e atitudes. Tudo isso para evitarmos o confronto com nossos arquétipos, construídos para referendar a imagem de pessoas fortes, inteligentes, bem-sucedidas, que estão um degrau acima, em ascendência sobre os demais.

Quem ama a si mesmo sabe do amor a si mesmo e também a coerência entre os arquétipos que construímos e a realidade de quem somos. Quando temos auto-estima, sentimos respeito e confiança em relação a nós mesmos e em relação aos demais. Assumimos uma atitude positiva e aberta e sabemos que estamos de bem com o mundo.

Quando nossa auto-estima é baixa, relativizamos a confiança em nós e nos fechamos para o mundo. Deixamo-nos, simplesmente, levar pelos arquétipos construídos. Quando nos amamos, damos importância à integridade e à ética, avaliando corretamente as implicações de nossos atos na vida de outras pessoas. Quando nos amamos de verdade temos um propósito de vida e a condição de traçarmos o futuro desejado.

Gandhi sabia que a auto-estima é um fenômeno que tanto é causa como efeito. Foi sincero consigo, para encontrar a coerência, respeitou os sentimos alheios, sem deixar de reconhecer os seus próprios. Foi solidário com o outro, sem deixar de ser a si. Foi implacável consigo e amável com o outro. O resultado final demoveu frustrações e lhe possibilitou o equilibro em si.

Esse é um exemplo a ser seguido por todos aqueles que procuram levar uma vida coerente, conseqüente e feliz. Afinal, os arquétipos existem enquanto não descobrimos a nossa essência. Enquanto a imagem que vendemos aos demais ainda é fruto de um mundo criado à nossa própria imagem e semelhança, porém insuficiente para responder as três perguntas que nos movem por esta existência: quem sou eu, verdadeiramente, de onde vim e para onde vou.