terça-feira, 20 de abril de 2010

A SOLIDÃO E A INSPIRAÇÃO NO POETA

Quem nessa vida ainda não padeceu de solidão?

Para aqueles que disseram sim, é só lidar com ela, é só lidão.

Relendo o poeta Rainer Maria Rilke consigo extrair a essência desta verdadeira digressão:

“Solidão é entrar em si mesmo, não encontrar ninguém durante horas ... estar sozinho como se estava quando criança, enquanto os adultos iam e vinham, ligados a coisas que pareciam importantes e grandes, porque esses adultos tinham um ar tão ocupado e porque nada se entendia de suas ações... só depois de um dia a gente descobre que suas ocupações são mesquinhas e suas profissões petrificadas, sem ligação alguma com a vida. Por que não voltar a olhá-los outra vez como uma criança olha para uma coisa estranha, do âmago de seu próprio mundo, dos longes de sua própria solidão que é, por si só, trabalho, dignidade e profissão?”

Com efeito, como sugere o poeta, quando a solidão nos bate no peito, é preciso olhar para dentro de si e observar as coisas que nunca nos abandonam, como procurar ver a Deus que se encontra em toda a parte, inclusive em nós. Estás perdido de Deus? Bem, talvez nunca tenhas sido tomado por Ele, como pergunta o poeta: “que coisa então o autoriza a sentir falta de alguém que nunca foi e a procurá-lo como se estivesse perdido”? “Não vês como tudo o que acontece é sempre um começo”?

Sempre estamos acostumados a ver em Deus o inicio de algo, mas poucas vezes pensamos na possibilidade de vê-l0 como um fim, a encerrar tudo em si! E o poeta pergunta: “Que sentido teria a nossa vida se Aquele a que aspiramos já tivesse existido”?

Talvez, essa angústia que sentimos, pelos corredores de nós mesmos, seja o começo de uma nova realidade nascendo. Talvez seja Ele querendo gerar a consciência maior, dentro de nós, e, aí, como sugere o poeta, devemos “procurar dificultar tão pouco o seu nascimento, quanto a terra dificulta o advento da primavera, quando ela tem de vir”.

Sempre digo que há uma tênue porém substancial diferença entre estar só e se sentir só. Sentir-se só é percorrer os caminhos interiores, sem nada encontrar. Estar só é se deixar esvaziar, para que esse vazio se encha de uma coisa nova, que dá princípio e também fim a tudo o que em nós existe. E, quando esse algo chega, só a plenitude pode explicar a sua continuidade.

Ou, como diz o poeta: “ Que sentido teria, com efeito, a união com algo não esclarecido, inacabado, independente? Cada um se perde por causa do outro e perde ao outro e a muitos outros que ainda queriam vir. Perde os longes e as possibilidades, troca o aproximar-se e o fugir de coisas silenciosas e cheias de sugestões por uma estéril perplexidade de onde nada de bom pode vir, a não ser um pouco de enjôo, desilusão e empobrecimento.

“Depois esses procuram salvar-se, agarrando-se a uma das muitas convenções que se oferecessem como abrigos para todos nesse perigoso caminho. Nenhum terreno de experiência humana é tão “próprio de convenções como este.. Não podemos dizer quem veio, talvez nunca o venhamos a saber, mas muitos sinais fazem crer que é o futuro que entra em nós dessa maneira, para se transformar em nós mesmos muito antes de vir a acontecer. Por isso é tão importante estar só e atento quando se está triste. O momento, aparentemente anódino e imóvel, em que nosso futuro entra em nós, está muito mais próximo da vida do que aquele outro, sonoro e acidental, em que ele nos sobrevém como se chegasse de fora. Quanto mais estivermos silenciosos, pacientes e entregues à nossa mágoa, tanto mais profunda e imperturbável entra a novidade em nós, tanto melhor a conquistamos, tanto mais ela se tornará nosso destino e quando num dia ulterior, vier a 'acontecer' senti-la-emos familiar e próxima.... há que se reconhecer, aos poucos, que aquilo que chamamos destino sai de dentro dos homens em vez de entrar neles... O futuro está firme, nós é que nos movimentamos no espaço infinito”.

E, para aqueles, que não querem conviver com os corredores interiores vazios, antes de enche-los de vida, talvez o horror do devenir, seja, conforme o poeta, uma forma de desamparo que implora o nosso auxílio. Sair ao encontro do silêncio, perseverar nele e buscar transcendê-lo é, antes de tudo, unir passado, presente e futuro, simplesmente num ato de existir, onde a eternidade é quem marca toda a forma de transição, pois a solidão é a evidência maior do silêncio, que não é algo que se possa tomar ou deixar. Somos nós quem temos que admitir que somos sós, e, a partir daí, alterarmos todas as distâncias, todas as medidas, para aceitarmos a existência em toda a sua plenitude, incluindo o inaudito.

Ou, como diz o poeta: “Não é apenas a preguiça que faz as relações humanas se repetirem numa tão indizível monotonia em cada caso; é também o medo de algum acontecimento novo, incalculável, frente ao qual não nos sentimos bastante fortes. Somente quem está preparado para tudo, quem não exclui nada, nem mesmo o mais enigmático, poderá viver sua relação com outrem como algo de vivo e ir até o fundo de sua própria existência”.

E eu acrescento: a solidão, condição inerente ao ser humano, não é um fim em si, mas um sinal, uma revelação, sempre a indicar que mesmo diante de qualquer abismo há sempre uma outra margem, e, mesmo que fiquemos presos a uma de suas bordas, ele migrará para algo bem mais familiar, mais fiel e mais revelador, são circunstâncias de um momento, marcados por dor, inquietação ou melancolia que se transforma em amparo, mão estendida pela própria vida, o verdadeiro triunfo que marca a todos os momentos maiores de uma existência.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Chico Xavier

Fico-me perguntando, sem respostas conclusivas, se ainda há, no Brasil, alguém que nunca tenha ouvido falar em Chico Xavier. Mesmo sem muitas referências, creio que todos, sejam pobres, classe média ou mesmo ricos tenham pelo menos uma idéia de quem foi essa verdadeira alma de luz.

Se estivesse nesta forma de vida, Francisco Cândido Xavier estaria completando 100 anos de existência. Para homenageá-lo, os Correios reservaram para amanhá, 7 de março, no auditório da Sociedade Espírita Alan Kardec, localizado na Fernando Machado, 833, em Porto Alegre, o lançamento de um selo comemorativo.

Uma foto de Francisco Cândido Xavier, autografando um de seus livros, é o motivo, que traz, ainda, uma frase de sua autoria: “Ama Sempre. E quando estiveres a ponto de descrer do poder do amor, lembra-te do Cristo”. O Selo também traz, na impressão de fundo, uma carta psicografada por Chico.

Creio que, em todos os séculos, a humanidade tenha recebido seres de luz para inspirá-la em sua caminhada. Cada ser humano recebe, ao nascer, uma carga vital, que será utilizada segundo seu destino e seu livre-arbítrio. É raro um ser humano saber, ao nascer, qual a missão que o trouxe a esse mundo, pois a grande maioria deve descobri-la, ao longo de sua caminhada. Uma das mais elevadas é alcançar a iluminação, desvendando os verdadeiros mistérios que cercam nossa existência.

Certamente que a grande maioria não será consagrada, ao final, como santa ou iluminada. Perde-se pelo caminho, sucumbindo às suas limitações, prendendo-se a seus apegos materiais, atendo-se às leis da matéria e permanecendo circunscritos à estrutura de sua personalidade, como fruto do meio onde viveu.

Mas há seres como Jesus, Gandhi, São Francisco de Assis, Madre Tereza, São João da Cruz, Buda, Eckart, Krisha, Milarepa, Rumi, Vivekananda, Kout Hoomi, Serapis, Gurdieff e tantos outros, que conseguiram superar seus limites pessoais e se tornaram referências à trajetória de passagem humana por este plano de vida. Suas obras servem de inspiração para os que vêm depois.

O curioso é observar que, embora tenham vivido em séculos diferentes, em países diferentes e culturas também diferentes, todos eles perseguiram os mesmos postulados. No caso, Francisco Cândido Xavier não fugiu a essa regra.

Após participar por 20 anos de uma Ordem Esotérica, verifiquei que Chico Xavier perseguiu os mesmos postulados, não só encontrados neste caminho, como em muitas outras ordens esotéricas, fraternidades, grupos e escolas de caráter transcendente. E, o mais importante: se tornou ele mesmo exemplo vivo de coerência entre pensar e materializar tudo aquilo que acredita. Talvez seja esse o aspecto mais notável a ser destacado.

Sempre partindo de minhas limitações e defeitos, tantos que considero estar apenas no início da caminhada, procurei alinhar alguns dos preceitos, adotados por Chico Xavier, a partir da leitura do livro “As vidas de Chico Xavier”, de Marcel Souto Maior, Editora Planeta, lançado em 1994, em primeira edição, revisado e ampliado pelo autor em 2003.


Ao longo de sua trajetória, Chico Xavier teve inúmeras pessoas que lhe influenciaram o caminho: desde os seus primeiros passos, orientado por sua mãe, Maria João de Deus, que fora embora cedo demais, mas lhe guiava o caminho através de suas visões, desenvolvida desde os quatro anos de idade, até chegar em Emmanuel, seu orientador que o acompanhou por toda a sua vida.

Chico aprendeu que, para cumprir com o que lhe fora designado, deveria, dentre outros preceitos:

Vencer a preguiça
Abrir mão de si mesmo
Servir ao próximo
Aprender a calar-se
Praticar a obediência e a resignação
Assumir a fraternidade
Viver com amor
Compreender e tolerar o próximo
Ter sempre metas e disciplinar-se para alcançá-las
Ter prudência e respeito pelos outros
Não se deixar envolver pela vaidade e pela ambição
Ser humilde e desapegar-se do dinheiro
Trabalhar intensamente, pois o trabalho é o ouro da vida
Exercitar o riso em relação a si e aos problemas que cercavam
Suportar as suas cruzes com paciência e coragem
Compreender que a dor e a fé são os maiores tesouros terrenos

Francisco Cândido Xavier não teve uma vida fácil. Em nenhum momento de sua existência deixou de estar envolvido com alguma prova, a ser vencida. Tinha tudo para se tornar uma alma amarga. Desde a mais tenra idade levou muitas surras porque revelava suas visões. Acumulou inúmeros problemas de saúde, com os quais teve que conviver, não sendo nem mesmo ajudado por seus mentores espirituais, porque ele tinha que aprender, a partir da dor e do sofrimento.

Era considerado esquisito, feiticeiro, maluco (que não sabia separar sonho de realidade), ignorante (pois só estudou até o primário), impostor. Os jornalistas, a todo o momento, buscavam desacreditar-lhe, recebeu processos judiciais por plagio e falsidade ideológica, teve seu trabalho esmiuçado por cientistas, desconfiados da existência de fraudes, foi traído inúmeras vezes por pessoas que se diziam fiéis amigas e companheiras de jornada. Chico sempre se sentia vigiado, assediado por “ fantasmas” e por aqueles que queriam visitar o “ matuto de Pedro Leopoldo “ para que provasse, de forma cabal, a existência dos espíritos. Eram verdadeiros e sucessivos golpes contra sua auto estima.

Em resposta, Chico Xavier deixou a maior de suas obras: sua própria vida. Ele aprendeu a exercitar o humor e a humildade ao longo dos anos, a trabalhar de forma intensa em favor das coletividades invisíveis e pelo progresso humano, defendeu a mensagem dos espíritos como um consolo para os tristes e uma esperança aos desafortunados.

“ Os homens aprenderão à custa de suas dores, com todo o fardo de suas misérias e de suas fraquezas, e as palavras do infinito cairão sobre eles, como chuva de favores do alto” , dizia. (As vidas de Chico Xavier – Marcel Souto Maior – Editora Planeta).

Aprendeu a suportar as suas cruzes com paciência e coragem, acreditando que a dor e a fé são os maiores tesouros terenos e, também, a empreender uma campanha, sobre si mesmo, de anti-vaidade, como um servidor que está no mundo para aprender, a partir de suas experiencias e provas, inspirado no amor deixado por Jesus.

Conseguiu trabalhar por trabalhar, sem recompensas, deixando a cabeça vazia, forma de anestesiar a solidão, antídoto contra obsessores e até mesmo como meio de adiar a sua morte.

“Quem alivia é aliviado” dizia ele. Estudou muitos livros, mas também lavou privadas, varria o seu próprio quarto e limpava o seu banheiro, pois o amor deve ser operativo. Ajudou a quem teve fome, lavou feridas de irmãos, e atendia, em seu Centro Espirita Luiz Gonzaga, doentes, visitava-os em suas casas e dava assistência social aos menos favorecidos. Sempre ativo, acreditava em aproveitar o máximo o tempo que dispunha. Respondia a seus algozes de forma pacifista e postura ecumênica.

E, sobretudo, foi um defensor do direito de cada cidadão adorar a Deus a seu modo, segundo a sua fé e a sua crença. Por certo que Francisco Cândido Xavier adquiriu virtudes que pertencem à humanidade e são reivindicadas por cada um de nós, estão a nosso alcance a um esticar de braços e nos levam a um estado de plenitude de nos sentirmos almas completas e harmonicamente integradas às energias maiores da existência.

Mas para isso todos nós temos que aprender a ousar a ousar, adotar, para nossas vidas, uma ascética de renúncia e nos inspirarmos no amor, na fraternidade , na fé em propósitos transcendentes. Chico Xavier não passou muito tempo nos bancos escolares, mas sua sabedoria, acumulada ao longo de sua vida, é verdadeiramente inspiradora. Aprendeu a conjugar o verbo, a aceitar a vida como uma dádiva e a encontrar a sua verdadeira riqueza interior. Para os destituídos desse poder, sempre dizia: “ Ele era tão pobre, tão pobre que só tinha o dinheiro para se sustentar”.

terça-feira, 2 de março de 2010

O SIGNIFICADO DO JEJUM NA QUARESMA

Cada ser humano é inteiramente responsável por definir o rumo que dá à sua vida. Por isso, durante o período de Quaresma muitos vêem uma oportunidade de ir ao encontro de sua “salvação` praticando o jejum, seguindo, assim, a tradição cristã. Muitos não entendem o significado dessa simbologia e recorrem a um regime de supressão de carne vermelha, migrando para pratos regados por muito vinho, que acompanham abastadas moquecas ou bem preparadas ´bacalhoadas´, vindo a satisfazer mais a gula do que buscar dar um sentido crístico à sua vida.
Como felizmente tudo evolui, o significado dessa tradição também tem evoluído. Não é o ato de imolação que se busca, a de outros seres vivos, para garantir a sua própria salvação. Ao contrário. É o ato de ir ao encontro da dimensão holística da vida. Muitos esquecem que esse é o período em que a alma deixa de olhar para si e passar a olhar o outro como a si mesmo, assim como ensinou Jesus Cristo.
Sobre isso li na Internet um texto, cujo autor não se identifica, que resgata a forma correta de se viver o jejum da Quaresma. Diz o texto:
Você quer jejuar nesta Quaresma?
Jejue de julgar os outros e descubra o Jesus que vive neles!
Jejue de palavras que ferem e farte-se de frases que purificam...
Jejue de descontentamentos
E viva cheio de gratidão
Jejue de ofensas e injúrias
E farte-se de mansidão e paciência
Jejue de pessimismo
E encha-se de esperança e otimismo
Jejue de preocupações
E satisfaça-se de confiança em Deus
Jejue de lamúrias e queixas
E satisfaça-se com coisas simples da vida!
Jejue de pressões e farte-se de orações
Jejue de tristeza e amarguras
E encha seu coração de alegria
Jejue de egoísmos
E encha-se de compaixão pelos outros.
Jejue de rancores e encha-se de atitudes de reconciliação
Jejue de palavras e viva de silêncios para escutar os outros
Jejue de pensamentos de fraqueza
E encha-se de promessas que inspiram
Jejue de tudo o que lhe afaste de Jesus.
E procure tudo o que DELE se aproxime.
Se todos vivermos este jejum, nossos dias irão se inundando de paz,
amor, de confiança.
Que os corações se abram com o jejum na Quaresma para receber
a Jesus Ressuscitado!
E com muito amor...

Afinal, o significado da Quaresma não mora no estômago, mas no coração dos homens, que devem caminhar para o amor, a fraternidade, a paz, a concórdia, durante este período, antes que a Páscoa nos suscite novamente a gula por chocolates, deixando de lembrar que a trajetória de Cristo reside em outra esfera, tão longe e tão perto do ato de jejuar.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Realidade ou ficção?

AMOR SEM ESCALAS é a denominação que recebeu, no Brasil, o filme “Up in the Air”, inspirado no livro de Walter Kirn, rodado no último ano, sob a direção de Jason Reitman, responsável pelos sucessos Obrigado por Fumar e Juno.

Recebeu seis indicações ao Oscar deste ano: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator (George Clooney), Melhor Atriz Codjuvante ( Anna Kendrick e Vera Farmiga), Melhor Roteiro Adaptado, sendo vencedor do Globo de Ouro 2010 de Melhor Roteiro para Jason Reitman e Sheldon Turner.

Traz no elenco Jason Bateman, George Clooney, Anna Kendrick, Vera Farmiga, Melanie Lynskey, Danny McBride, Chris Lowell, Tamala Jones.

Resolvi assisti-lo em pleno carnaval, por não me considerar um compromissado folião. Antes de sair de casa, dei uma olhada na sinopse: “Especialista em redução de pessoal vê seu emprego ameaçado justamente quando conhece a mulher de seus sonhos e está perto de atingir dez milhões de milhas”.

Aprendi há muito que não devemos escolher um filme pela sinopse, nem pelo nome que recebeu no País de exibição. De fato acredito que o título original faz jus à indicação, já que convida o espectador a fazer uma reflexão sobre temas atuais que pertencem às nossas vidas.

Dentro de uma óptica subjetiva, entendo que a proposta do filme tenha sido examinar a rotina das pessoas, suas decisões, que determinam seus rumos de vida, além de discutir atitudes e expectativas frente ao futuro que é reservado às pessoas.

A estória gira em torno de Ryan Bingham (George Clooney), um consultor que tem a tarefa de demitir funcionários para cortar os gastos das empresas.
Presumo que o ato de despedir um funcionário, que conta com longos anos de casa, constitui um gesto de tamanha envergadura, pelo impacto e efeitos, que as empresas americanas resolvem terceirizar essa tarefa, colocando nas mãos de um especialista a missão de verdadeiramente balançar a vida das pessoas.

Por isso, Ryan viaja o tempo todo, cerca de 11 meses e meio ao ano, sempre vestido de terno e carregando uma maleta, em seus constantes deslocamentos pelos diversos cantos do país. E, quando não está no trabalho, gosta de passar o tempo em quartos de hotéis pouco conhecidos e cabines de vôos, estando próximo de atingir a sua maior meta: conseguir dez milhões de milhas como passageiro.

O ato de demitir vira uma rotina, a ponto de torná-lo um profissional frio e distante de seus desafetos. Surpresas, chocadas, revoltadas, confusas elas reagem de formas distintas, mas todas elas tendo como elemento essencial o fato de ver sua estabilidade financeira desmoronar e passarem à contingência de não mais contarem com proventos fixos para honrarem compromissos assumidos face à segurança de um vínculo empregatício que julgavam imorredouro.

E agora, o que eu vou fazer de minha vida? Como vou sustentar meus filhos? Como vou honrar os compromissos assumidos? Dei o meu sangue por essa Empresa e agora ela me despede? Fiz muitas horas extras, nada recebi, e agora, como pagamento, eles me colocam no olho da rua!
Esses e outros comentários são reproduzidos exaustivamente durante o filme. A incredulidade e o estarrecimento estão presentes na expressão corporal de todos os entrevistados.

A maior ironia, no tocante à responsabilidade atribuída ao Especialista, é a de fazê-lo buscar, junto a seus desafetos, que se encontram num momento de sua maior fragilidade, estimular-lhes a ter confiança em si para buscar novas oportunidades, talvez mais afetas às suas reais aspirações e espertizes. É uma forma de fazer reduzir o impacto de uma dispensa que somente beneficia a parte contratante.

Seu trabalho consiste em anunciar a decisão, esperar pela reação e, depois, abrir-lhes os olhos para novas oportunidades de mercado, buscar a minimização de seus pontos fracos, que lhes conduziram à dispensa, e otimizar pontos fortes, levando-lhes a trocar a tristeza provocada pelo descarte por uma atitude construtiva de sair em busca da realização de sonhos alimentados e ainda não considerados ou de fazer do demitido tirar da gaveta planos profissionais nunca lançados em prática.

Isso ele consegue algumas vezes, ao analisar seus currículos, como é caso, ao descobrir que um deles adota o hobby culinário, nas horas vagas, incentivando-o a montar um restaurante, ou, então, sugerir a um funcionário da área administrativa que montasse seu próprio negócio, com a experiência acumulada.

Tudo ia bem, até que seu chefe contrata a arrogante Natalie Keener (Anna Kendrick), que desenvolveu um sistema de videoconferência onde as pessoas poderão ser demitidas sem que seja necessário deixar o escritório. Este sistema, caso seja implementado, põe em risco o emprego de Ryan. Ele passa então a tentar convencê-la do erro que é sua implementação, passando a viajar com Anna para mostrar-lhe a realidade de seu trabalho.
Com isso, o filme também discute a relação tecnologia x relações humanas, onde modelos de funcionalidade e sistemas digitais tendem a ocupar o lugar do velho e simples contato presencial, olho a olho.

É nesse momento que o sistema se mostra verdadeiramente draconiano. Em sua condição de aprendiz, a recém promovida especialista demite uma funcionária de uma empresa e essa lhe diz que iria se jogar de uma ponte, por não ver solução à situação criada, possibilidade relevada pelos especialistas. Mas tempos depois acabam sabendo que a funcionária demitida cumprira com o que havia anunciado, pondo fim à sua vida.
Esse fato provoca um verdadeiro abalo entre todos os envolvidos.

Constrangida e traumatizada, a nova especialista se demite. E com a ajuda de seu ex-colega consegue um novo emprego.

O filme também coloca em discussão a questão da felicidade e seus vínculos com a solidão, vivida por seu personagem central, que era destituído de vínculos emocionais, mantendo apenas o rumo conforme itinerários traçados por seus dirigentes.

É nesse momento que surge uma mulher em sua vida, vivida por Vera Farmiga (não muito conhecida do público brasileiro), mas que também conserva o estilo de viajar sempre.

Eles se encontram quando suas agendas de viagem batem. Oposto a eles está Natalie, uma recém formada cheia de vida que acha que pode conquistar o mundo. Quem nunca pensou assim?

Ryan descobre que sua amada Alex é casada, chegando a fazer a sua opção por viagens para quebrar a rotina de seu lar. Ela lhe imputa o papel de “endosso de cheque” quando deseja apimentar sua vida sexual. Ryan é o verdadeiro objeto de suas fantasias libertárias. Já Natalie, ao esconder suas incertezas e inseguranças atrás de uma capa de arrogância e petulância, recebe a dispensa do namorado através de uma lacônica mensagem em seu celular.

Nem drama, nem comédia (sua classificação oficial), o filme discute o papel da família e possibilidade de as pessoas viverem uma vida livre. Vale a pena constituir família, entregar-se à rotina e permitir que as intenções originais sejam solapadas, ao longo do tempo, pela mesmice? Será que a rotina e o imobilismo de uma relação vai desfigurar o encanto e o fetiche que chegou, algum dia, a unir pessoas enamoradas? O personagem observa que, por mais que sejam felizes em seus relacionamentos, as pessoas sempre acabam morrendo sozinhas. Sem atrativos para aceitar família e convívio familiar, Ryan opta por uma vida sem vínculos, preferindo a solidão e a estabilidade de viver uma condição sem altos e baixos, proporcionados por compromissos mais duradouros.

Ora, há uma tênue linha que separa ficção da realidade. Ambos os lados são concebidos por mentes que projetam ideações e visões subjetivas no contexto onde vivem. As pessoas compartimentam suas vidas para que elas se tornem mais fáceis: o seu trabalho, o seu lazer, a sua vida familiar, a sua vida social, etc. E se esquecem que são elas mesmas o tempo todo. São elas que estão vivendo suas experiências. Há uma aparente dicotomia em suas existências: estabelecem rotinas para se sentirem seguras, refutam todas as suas conseqüências, mas não estão devidamente preparadas para sair delas. Como se suas vidas fossem uma linha reta que segue rumo ao horizonte sempre imutável e sob controle para evitar desestabilizações.

Ao serem dispensadas de seus vínculos empregatícios, tanto na ficção quanto na realidade, todas são tomadas de surpresa, sentindo-se chocadas e estarrecidas. A possibilidade de uma demissão nunca passou de uma quimera em suas vidas.

Somente quem já passou por isso sabe o que significa verdadeiramente sentir o chão desabar. Eu já passei, recentemente, por tal experiência, verdadeiramente singular. Porque, quem é demitido, na atual sociedade, é considerado um verdadeiro perdedor, sendo estigmatizado como objeto do preconceito e da exclusão.

E assim como acontece em nossas vidas profissionais, também podemos ser demitidos por outras pessoas de nossa condição afetiva, que resolvem nos excluir de suas vidas.

A discussão levantada nos leva a um alerta de que a rotina e a estabilidade podem ser quebradas a qualquer momento. E quando uma nova realidade se instaura, ela quebra com todo o status quo existente anteriormente. Nossa vida nunca mais será a mesma. Posso arrumar um novo emprego, uma nova relação, uma nova pessoa para fazer parte da minha vida, mas seja como for a minha vida nunca mais será a mesma.

Muitas vezes não aceitamos isso, muito embora o ato de aceitar possa fazer parte da construção de novos paradigmas em nossa vida. Quando há uma ruptura, somente temos olhos para ver que somos seres infelizes, porque perdemos o que nos prendia a uma forma de vida, e passamos a ser carregados pelo peso de nossa autopiedade e de nossa “falta de sorte”.

A grande maioria das pessoas, que são demitidas de seus relacionamentos, não consegue se reinventar, não consegue, de imediato, construir novos valores para encarar a vida. E vivem o desconforto da solidão. O papel de um especialista é o de apontar novas oportunidades, mas estamos tão envolvidos com o pesar da exclusão que nos esquecemos de ver e apontar novas e oportunas possibilidades em nossa vida.

A vida nos convida, se não de forma espontânea, de forma compulsória, a reinventarmos a concepção que temos dela. Estamos aqui para aprender e a tirar lições de nossos erros. Pois sempre haverá um Ryan em nossas existências, viajando para cá e para lá, fixando metas, insensível às nossas emoções, proclamando mudanças, lembrando que a vida não é linear, nem estável, mas um eterno devenir. E esse personagem pode até esconder uma outra designação, ignorada por muitas, chamada destino, que engloba tudo, até mesmo a morte, sempre presente, mas nunca considerada em nossa incessante busca pela estabilidade.

E quando Ryan vier bater em nossa porta, não poderemos dizer mais: eu não estava prevenido, eu não sabia, o que vou agora fazer de minha vida? Porque ele atingiu a sua meta de acumular 10 milhões de milhas. Feitas através dos mais desavisados, que insistem em deixar de acreditar que a conquista da felicidade depende das cores que pintamos a nossa vida.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Economia Providencial

Nunca, na história da humanidade, o homem atingiu tamanha ousadia e superação de limites, em suas ações, como agora, até chegar a constituir uma sociedade do conhecimento. O ritmo de geração de novos conhecimentos e descobertas acontecem de forma exponencial, não sendo impossível até mesmo pensarmos em uma nova revolução industrial, como resultado da construção de nanomáquinas.

Mas, como nessa vida tudo tem o seu preço, há que se cuidar para que os efeitos nocivos desse processo, não venham levar a humanidade a comprometer, de forma irreversível, a sua trajetória.

É o que acontece em relação à combinação do binômio avanço tecnológico x consumo. Isso é: a todo o momento somos bombardeados por apelos, através de campanhas publicitárias, que estimulam o consumo como forma de mantermos o status quo no meio em que vivemos, sempre a partir da perspectiva de acompanhar e adquirir produtos que contenham inovações tecnológicas. Afinal, quem não gosta de novidades? E o resultado? Nos tornamos consumidores contumazes.

Até nos tornarmos, nós mesmos, verdadeiros objetos de consumo: queremos, sempre, andar de carro novo, usar aparelho celular de última geração, adquirirmos roupas criadas por estilistas famosos, freqüentar bons restaurantes, dispormos de computadores que incorporam tecnologias de ponta, termos, em nossas residências, os eletrodomésticos de última geração, para obtermos, em troca, o gosto de sermos reconhecidos por nosso próprio glamour. Até ouvirmos: “Ele(a) é o cara”!

Tudo gira em torno do dinheiro e sem ele somos peças marginalizadas.

Lembro-me o exemplo de uma pessoa próxima, que , num certo dia ensolarado de sábado, deu uma saída e retornou motorizado. “Olhem o carro que comprei” “Pela bagatela de R$19.000,00 por um bem conservado veículo ano 2002.

Vou pagar R$540,00 por mês. Coube direitinho em minha renda mensal.

Peguei a calculadora e, após alguns toques no teclado lhe perguntei: “Você sabia que comprou um carro que custará, ao final do financiamento, a bagatela de R$32.000,00, pagos por um veículo com 7 anos de uso? E que a taxa de juros está beirando os 2% ao mês? E que o preço final será muito superior ao preço de um carro zero”? É claro que nada disso foi considerado.

O brasileiro é assim: primeiro “sente” o impulso de ter algo valioso, na escala de consumo. Aí verifica se a prestação cabe em seu bolso. Em seguida, busca tê-lo em mãos, o mais breve possível. Sem pensar que seu afã lhe deixará, como neste exemplo, amarrado por 60 longos meses a uma financeira.

Não há planejamento, nem maturidade. Apenas impulsividade e consumo imediato. Se esquecem que as grandes lojas não vendem fogões, geladeiras, televisões, mas o seu negócio principal é emprestar capital a juros elevados. Os artigos são meros chamarizes para o acesso ao dinheiro caro.

O excesso de apelo faz com que não saibamos mais discernir entre necessidades essenciais e necessidades criadas por nosso modus consumista.
Afinal, consumir tem algo a ver com a satisfação da alto estima. Se estamos deprimidos, vamos ao shopping e compramos, compramos até restaurarmos a nossa alegria. Compensamos nossa baixa auto-estima pela possibilidade de voltarmos para casa cheio de sacolas com grifes da moda.

Se estamos alegres, consumimos para comemorarmos que estarmos de bem com a vida. “Afinal eu mereço”. A medicina arrumou um nome apropriado para isso: “síndrome do consumidor compulsivo”.


É preciso trabalhar essa questão dentro de si. É preciso praticar a economia providencial como forma de disciplinar nossas necessidades. Afinal, nossa verdadeira felicidade não depende de nossa capacidade de adquirir compulsivamente.

Não se trata de seguir à risca uma ascética religiosa a exemplo dos primeiros cristãos, guiados por Pedro, que faziam vida em comum, conforme se lê nos Atos dos Apóstolos: “e todos os que haviam abraçado a fé viviam unidos e tinham todas as coisas em comum”; e vendiam as posses e os bens comuns que eram repartidos entre todos, segundo as necessidades de cada um”.

Apenas alguns dos fervorosos cristãos conseguiram cumprir com o ideal de pobreza evangélica que Cristo desejava como fundamento da felicidade de todos. São Francisco de Assis é um dos exemplos mais dignos. O ideal de pobreza franciscana é admirável, gerando a atitude de prescindir do consumo e de despojar-se sistematicamente de todas as posses. A natureza humana se redime pelo sangue de Cristo e se diviniza pela imitação de seu desprendimento total.

Mas essa senda não é para todos. Porque poucos são os que podem realizar a Deus por meio da pobreza total. Até mesmo Francisco teve que reconhecer que seus irmãos frades precisavam de roupas para vestirem, casa para habitarem, livros para estudarem.

Talvez a dimensão budista de optar pelo caminho do meio seja a melhor forma de dosar a questão do consumo: corrigir tudo o que é excesso. Isso é: corrigir atitudes que levem ao afã possessivo e egoísta da humanidade.

A Economia Providencial caminha pela trilha de estabelecer uma harmonia entre as necessidades e os bens que se produz, aperfeiçoando o sentido de responsabilidade social. É o afã possessivo que torna o ser humano pobre e infeliz. O acúmulo excessivo e a especulação, que cerceia a possibilidade de os outros suprirem as suas necessidades, provoca um distanciamento entre o possuidor e a posse, tornando-os forças distintas, antagônicas, que colidem entre si e se desfazem mutuamente.

É lícito acreditar no consumo, como forma de satisfação das necessidades essenciais. Mas há que se criar o hábito de discernir o que se pode e o que não se pode consumir. E até mesmo criarmos o hábito de planejarmos nossas aquisições, além de separarmos, a cada mês, uma pequena quantia para a poupança. Evita-se, assim, ingressarmos, como “vitimas”, na ciranda especulativa que está subjacente ao crédito. E, também, sermos vítimas de nossa sanha consumista, que nos distancia da condição de vivermos de acordo com o que ganhamos.

Isso é o primeiro passo para aprendermos a estimular a nossa consciência social, passando a nos lembrarmos das necessidades alheias. Em outras palavras: “devemos ocupar apenas um lugar no mundo e não dois lugares”, quando seguimos impulsos e deixamos de dar medida a tudo aquilo que vai de encontro às necessidades coletivas.

domingo, 8 de novembro de 2009

Caminhos de Renúncia

Um cumprimento, entre membros que seguem caminhos espirituais inspirados na escola oriental, se baseia na inclinação da cabeça e de uma breve inflexão do corpo para frente, para simbolizar que a divindade que habita o corpo de um asceta saúda a divindade que habita o corpo de outro.

É um gesto que inspira respeito, consideração, reverência por outro ser humano. Mas, infelizmente, é uma prática utilizada por poucos, se compararmos à ascensão do individualismo na sociedade contemporânea. No Brasil, está ficando cada vez menos comum as pessoas dizerem: “com licença, por favor, obrigado”.

Inicialmente, ao prestar atenção no desaparecimento dessas simples práticas de relações interpessoais, cheguei a pensar tratar-se de uma “falta de educação”, mas, olhando a questão com maior atenção, passei a entender que o problema não está ligado à etiqueta social, mas a falta de consideração, de quem não adota essa conduta, por seus semelhantes. Estamos perdendo até mesmo o hábito de saudarmos as pessoas, com um simples “bom dia”ou “boa tarde”. Ou mesmo um “até logo”, como gesto de despedida.

O fenômeno das grandes cidades vêm produzindo relações cada vez mais impessoais e já é comum as pessoas residirem em prédios com muitos apartamentos, sem sequer conhecerem o seu vizinho de porta. Ao telefone vamos logo dispensando as formalidades para dizermos tão somente: Fulano, em lugar de dizermos: "Bom dia, por gentileza, poderia falar com o fulano? Ninguém tem a obrigação de chamar a quem desejamos falar. Seria um gesto de delicadeza agradecer a quem nos presta um favor.

Vivemos tempos atribulados onde cada vez mais colocamos cada vez menos o outro em nossas vidas. Em lugar disso, nossa baixa auto estima nos leva à necessidade de estarmos em evidência. Já temos pessoas demais, querendo ser mais. A humanidade precisa, com urgência, de pessoas que queiram ser menos. Sejam almas de renúncia.

Esta semana recebi um e-email contendo, anexado, uma mensagem cuja autoria é atribuída a Martha Medeiros, intitulada “Quindim na Porta”. O texto se referia ao livro de Paulo Hecker Filho, Fidelidades, em que o autor deixava bilhetes, livros e quindins na portaria do prédio onde morava o poeta Mario Quintana, acompanhados dos dizeres “Para estar ao lado sem pesar com a presença”.

A leitura dessa mensagem se fez ao tempo em que também vi inúmeros desabafos de pessoas de renome nacional, entre eles Paulo Coelho, a própria Martha Medeiros, Leonardo Boff e o mais recente deles, Arnaldo Jabour, reclamando de inúmeros textos publicados como sendo de sua autoria, porém escritos por pessoas não identificadas. Por isso não sei, ao certo, se a referida mensagem leva mesmo a assinatura de sua propalada autora, embora o seu teor tenha me levado a essa reflexão.

Quem não gosta de carinho? Dar atenção, num mundo onde é cada vez mais comum o individualismo e a solidão é um ato solidário. Mas é preciso, antes, haver a preocupação prévia de não importunar as pessoas, quando essas estejam indisponíveis para nós. Isso é procurar “estar ao lado sem pesar com a presença”. Certamente teríamos um mundo mais humano, mais solidário, sem adentrar na vida de outras pessoas sem sermos devidamente autorizados.

Em outras palavras, seria praticarmos pequenas renúncias que nos tornam seres um pouco mais completos e um pouco menos inconvenientes.

Isso implica em fazer compartilhar idéias e descobertas, compartilhar habilidades, alcançar o respeito mútuo, chegar a tomar decisões verdadeiramente de consenso. Praticar pequenos gestos pessoais de renúncia é apender a lidar com necessidades reais que possibilitem a superação de estados interiores.

Calar, quando se tem a inclinação de se falar, e prestar a atenção no outro, é reverter a tendência de as pessoas colocarem suas almas num altar e passarem a adorá-las, percorrendo um caminho interior de crescente complexidade. Calar-se, para compreender, é estabelecer uma nova identidade com sua alma, separando necessidades reais de necessidades superficiais, distinguindo-se meios e fins, separando tudo aquilo que retarda ou cria obstáculos ao desenvolvimento espiritual.

Atos de pequena renúncia levam, inicialmente, à reverência ao outro,mas, depois, nos levam a compreender que não se pode amar e reverenciar a Deus se desprezamos os homens, ainda que seja apenas um deles, pois calar e escutar é fazer com que a nossa divindade, que habita em nós, reverencie a divindade que está presente em outros seres humanos.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Amargo Pesadelo

Há filmes que marcam a nossa vida. Um dos que permanecem ainda vivos, em minha memória, é, sem dúvidas, o filme Amargo Pesadelo, que assisti aos 23 anos de idade (1972). Desde o primeiro momento estabeleci uma empatia instantânea com a fotografia, o enredo e o desempenho dos atores, mas, principalmente, com a proposta de roteiro, por representar a eloqüência do comportamento humano. Dentre o elenco, as impagáveis atuações de Burt Reinolds e John Voigth.

O filme conta a trajetória de quatro amigos que resolvem sair em férias, longe do ambiente urbano, para desfrutar um convívio com a natureza. Tudo segundo um planejamento prévio, onde a principal aventura seria seguir até as cabeceiras de um caudaloso rio e descer suas correntezas, até o remanso, quilômetros rio abaixo. Tudo isso montados apenas num barco inflável e contando com a coragem e o desafio de fazer a determinação vencer a força das águas.

Mas aquilo que parecia, de início, apenas uma forma de executar o que fora programado, veio a se tornar um enorme pesadelo, quando a canoagem virou a defesa da própria vida. No grupo havia um líder (Burt Reinolds), determinado e seguro frente ao que estabelecera como desafios programados.

Mas a sorte troca de lado quando os aventureiros encontram dois homens predadores, que caçavam animais em vias de extinção, para ganhar um bom dinheiro no mercado ilegal de peles. O confronto se estabelece e um dos nossos aventureiros é estrupado e humilhado. Em represália, o líder dos aventureiros (Burt Reinolds), acaba matando um dos caçadores, mas, antes, é ferido na perna.

Verifica-se assim que, diante do perigo, o líder perde a sua empáfia, enquanto o mais tímido (John Voight) é compelido a assumir a liderança e vai, aos poucos, ganhando auto-suficiência e desenvoltura, para a chegar a assumir as características de um verdadeiro líder, mais afeito ao imprevisto e dentro de um clima de hostilidade cujo perigo de vida era iminente.

Também devo fazer uma especial menção à cena de um “duelo”, que acontece entre um garoto autista e seu banjo e um dos personagens aventureiros e seu violão. Esta semana recebi um e-mail, enviado por uma diletíssima amiga, contendo o segmento do filme em que ambos tocam os seus instrumentos. Segundo esse mesmo texto, a cena surgiu de um imprevisto, onde a equipe parou num posto de gasolina e encontrou o menino. O Diretor Boorman acabou por inserir tal “duelo”no roteiro, mas os expectadores é que foram realmente contemplados com uma das mais inesquecíveis realizações humanas, onde um dos protagonistas, considerado “normal”, consegue se relacionar com um menino autista através da música.

Agradeço à minha amiga Ana por este envio, assim como a Deus por poder relembrar deste filme que marcou o final do último século. Inspirado na vida real, a arte é capaz de mostrar que as lideranças são relativas, dependem das circunstâncias e muitas vezes escondem os verdadeiros heróis, fazendo uma verdadeira apologia à tendência humana de construir seus mitos.

Quantas vezes, na vida nacional, a realidade copia a ficção? Os líderes autênticos só surgem na adversidade. Quem sabe se, sob determinadas condições hostis, muitos dos atuais governantes, que tecem a sua imagem pública, com o intuito de se tornarem mitos, possam derrubar suas máscaras e evidenciar os verdadeiros heróis anônimos, aqueles que possuem uma alma altruísta e estão despidos de quaisquer relações de poder, mas que trabalham pelo bem-comum e carregam consigo a verdadeira condição de liderança. São, esses últimos, capazes de nos tirar do perigo que viceja o cenário nacional, tanto pela insegurança das ruas quanto pelos efeitos danosos das especulações e das negociatas que estão encobertas pela visão mítica, mas que não resistem sequer à primeira adversidade e onde as coisas começam a sair de controle. Daí para frente os atores mudam e só os verdadeiros líderes são capazes de levar ao remanso e à calmaria o bote das circunstâncias que assolam a vida nacional. Quanto ao final do filme? Bem eu acho que ainda existem, nas locadoras, cópias suficientes para você rever Amargo Pesadelo, e descobrir por si mesmo o final desta película, inspirada pela música e pela interpretação de um altista que se universaliza através da sua música e nos deixa a certeza que há, entre os céus e a terra, mais mistérios do que nossa vã filosofia consegue explicar.