segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Texto enxuto?

Há pouco tempo comentava com uma pessoa próxima que o assunto ao qual estávamos tratando deveria se converter em artigo, a ser publicado em meu Blog. Essa pessoa olhou-me atentamente nos olhos e me disse:

“Ah! Ótimo! Mas não escreva muito”... “Faças um texto bem curtinho”...

Nada lhe respondera naquele momento. A conversa encerra-se ali mesmo, após aquelas interjeições. Porém não consegui tirar aquelas reticências de minha mente: "escrevas curtinho"...

Eu, que estava acostumado a elaborar textos para revistas e jornais, sujeitando-os à constrição dos espaços, medidos em picas ( se lê “paicas”) ou cíceros, e achara que havia me libertado daquela “ditadura”,  agora me sintia solapado em minha criatividade.

“Escreva com conteúdo, faças as suas reflexões, mas sejas prático, sintético e objetivo”, era a mensagem subjacente que recebera.

Comecei a pensar na quantidade de leitores, que vi esparramados pelas livrarias, às quais costumo freqüentar, pegarem um livro e olharem-no de trás para diante, para ver quantas páginas deveriam “enfrentar” para digerirem o que o autor quis dizer.

- Eu vou ter que ler tudo isso? Onde vou arrumar tanto tempo? Peraí, eu vou trocar por um livro mais fininho, e, assim, não terei que gastar tanto tempo em cima deste.

Também pensei naqueles que costumam folhear um livro para ver se tem ilustrações, a fim de tornar a sua leitura mais espaçada e amena. Menos indigesta. 

Pensei naqueles procrastinadores (às vezes me torno um deles) que deixam uma pilha de livros em suas cabeceiras para, quando houver tempo, digeri-los em verdadeiros “atos de sacrifício”.

Pensei nos orkuts e facebooks cuja economia de letras tenta expressar melhor os conteúdos a que retratam, onde a concisão é tão mais apreciada do que a retórica da reflexão desmedida ao longo de páginas mais volumosas.

Será que é por isso que as pessoas não visitam o meu espaço digital?

O mundo tem pressa. Ninguém mais tem tempo para ler obras extensas. Mas será que a busca frenética pela síntese e pela concisão não nos está levando para a superficialidade e a objetividade sem conteúdo?

Lembro-me de uma frase, dita pelo notável poeta Frederico Barbosa, em suas reflexões sobre “O Guarani”, de José de Alencar: “O Brasil não é um país de leitores. Nunca o foi. Poucos foram os momentos em que a literatura conseguiu atingir, entre nós, um público mais amplo do que um pequeno grupo intelectualizado e fechado. Mesmo os nossos mais celebrados e consagrados escritores, como Gonçalves Dias, Machado de Assis ou Carlos Drummond de Andrade, foram e continuam sendo lidos apenas por uma pequena elite mais interessada e informada. A maior parte dos leitores dos clássicos da nossa literatura parece estar reduzida, hoje, a colegiais que apenas os lêem para cumprir uma enfadonha tarefa escolar. Lêem obrigados, pela nota, e não pelo prazer da leitura”. 

Textos como esse, de autoria de Frederico Barbosa, me levam a pensar que possa existir, entre os que me visitam, em meu Blog, aqueles que dizem: “Puxa, recomendaram-me visitar este Blog, mas o cara escreve muito extenso. Não tenho tempo para isso. Vou fechá-lo e, depois, quando houver tempo sobrando, eu volto para digerir esses “bifes”que ele escreve”.

E, sinceramente, me sinto pensativo, quando vejo Frederico Barbosa afirmar:    

“Grandes criadores de ficção, como Machado de Assis ou José de Alencar, transformam-se, assim, em verdadeiros monstros, ainda que sagrados. Viram sinônimo de tortura, de chatice, de leitura imposta e cobrada. Um monstro é sempre um monstro: assustador. Um ser sagrado não deve ser tocado, curtido, lido. Deve ser reverenciado a distância, no altar ou na estante - intocado e fechado.
         Perde-se de vista que um Machado ou um Alencar, que sempre procuraram deleitar e divertir os seus leitores, escreviam para serem consumidos, não para serem reverenciados. Para que o leitor se aproxime de um clássico, sem medo e sem reservas, é preciso que saiba que nem sempre foi um clássico. Muitas vezes foi um livro revolucionário e polêmico. Alguns foram até obras extremamente populares no seu tempo, como as peças de Shakespeare,  que chegou a ser acusado, por seus contemporâneos, de ser um escritor apelativo e popularesco.
        
          O Guarani é um clássico. Uma das obras mais importantes da literatura brasileira. Mas que isso não assuste nem afaste o leitor. O Guarani foi, antes de mais nada, um dos maiores sucessos de público da história da nossa literatura. A maior parte dos jovens, que hoje tremem ao saber que terão de ler O Guarani como dever escolar, talvez não se sentissem tão ameaçados  se soubessem que houve época em que milhares dos seus semelhantes se reuniam nas repúblicas estudantis, por todo o Brasil,  só para ouvir a leitura emocionada das aventuras narradas por Alencar.  Como hoje fazem fila para assistir aos filmes de Steven Spielberg ou aguardam ansiosamente o capítulo final de uma novela de televisão”. 

Sinceramente não me conforta saber que este Blog não se constitui uma honrosa exceção, mas, sim, que tal observação, feita por aquela pessoa, sirva de alerta para o que acontece hoje no Brasil, em relação à leitura e seus brasileiros. E me pergunto: “quem realmente teria que mudar: o escritor, para suprir a “falta de tempo” dos leitores ou os leitores, para despojarem-se de seu pragmatismo de encontrarem as coisas prontas, para seus pensamentos pouco elaborados e, enfim, passarem a mergulhar num mundo de palavras e reflexões?

Lembro-me que, recentemente, o jornal A Gazeta de Vitória teve que mudar o seu projeto gráfico, acabando com as chamadas matérias de página inteira, reduzindo-as para meia página, fruto de uma pesquisa, junto aos seus leitores, cuja maioria alegara “falta de tempo” para consumir textos preparados por profissionais que elegeram a investigação jornalística como meio de expressão comunicativa.

Fico a imaginar como seria se Erico Veríssimo tivesse que escrever a sua famosa obra “O tempo e o vento” para ser publicada no twitter, ou Monteiro Lobato para escrever as suas obras completas, publicadas em 1956, ou mesmo Gabriel Garcia Marques em seu “Cem anos de solidão”, ‘A história de minha vida”de Charles Chaplin ou mesmo, a obra recente de “O Senhor dos Anéis” de J.Tolkien”, livros que hoje não cabem nas econômicas estandes de uma  sala, quanto mais nos limitados 140 caracteres do Twitter.

O mundo mudou porque a praticidade de quem faz leitura mudou. Por isso, mesmo correndo o risco de pagar um preço alto, continuo a me libertar das picas e dos ciceros, como um  rebelde com causa. É nessas horas que busco parafrasear à imortal Clarice Lispector que disse: “Eu escrevo sem esperança de que o que eu escrevo altere qualquer coisa. Não altera em nada. Porque no fundo a gente não está querendo alterar as coisas. A gente está querendo desabrochar de um modo ou de outro”...

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

És Roberta, força telúrica em transmutação pelo ar




Nasceste fruto do amor compassivo.
Iniciaste a tua evolução como broto da esperança. 
Viveste a tua infância entre quereres e, de pouco a pouco, alcançaste a plenitude de todo o teu ser, alma completa, que agora viceja amor, compaixão e plenitude.


Levar-te à pia batismal foi um privilégio, de poder presenciar a chama crística iluminar a tua alma. Acompanhar o teu crescimento significou testemunhar a construção, pouco a pouco, pelos teus pais, de um manto de amor para cobrir os teus ombros e te dar coragem para empreenderes a tua caminhada. 


Assistir a tua formatura foi o verdadeiro epílogo para uma trajetória à vida adulta, que transborda, nesta guerreira, a maturidade de uma mulher das  letras. 

És, assim, letra e música. 

Em tuas letras, aprendeste a recitar a ode da transformação e a pedagogia da concretude humana. Em tua música a liberdade da expressão e a verdadeira dimensão de crer um mundo melhor. 

Em tua melodia és Roberta, que assim és, assim fostes e assim serás, aquela que vive a eterna formatura de estar sempre um passo a frente daqueles que um dia te pegaram pela mão, para chegares, hoje, à condição de mulher completa e fonte de inspiração para todos os que testemunharam colocares a toga, que te guiará pelos caminhos de tua existência.

Dindo

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Buracos nas Estradas ou Estradas nos buracos?



Os motoristas que circulam pelas rodovias BR-280, BR-153 e BR-476, na divisa entre os estados de Santa Catarina e Paraná, cansaram de esperar pelas ações do Poder Publico e adotaram uma forma inédita de lidar com os incontáveis buracos existentes na cobertura asfáltica dessas estradas.


Contando com a ajuda de algumas prefeituras passaram a pintar de branco os buracos existentes, como forma de torná-los visíveis à distância, principalmente durante a noite. Só assim conseguem andar de forma serpenteada e desfrutar do resto de cobertura asfáltica ainda existente naquelas paragens.


Durante esta semana estive circulando pela Rodovia BR 280, trecho entre os municípios de Porto União e Caçador, e registrei essa maneira inusitada de aplicar o famoso “jeitinho brasileiro” para tratar da omissão do Estado brasileiro (foto de minha autoria).

Segundo informações de moradores, alguns buracos, existentes na BR-153, estão lá desde 1983, sem que os sucessivos e principais gestores do Poder Público tenham equacionado o problema. Já aqueles motoristas que circulam pela rodovia BR-476, trecho entre São Mateus e Curitiba, trafegam por excelentes rodovias, em bom e durável asfalto, com acostamentos largos e sinalização adequada. Porém são obrigados a pagar pedágio, na altura de Palmeiras, cujos preços oscilam entre R$7,00 e R$8,00, para trafegarem por, aproximadamente, 60 quilômetros.

Remanescentes do período de governo de Jayme Lerner, esses trechos oferecem maior segurança aos transeuntes, porém oneram os bolsos daqueles que viajam periodicamente por trechos pagos. Trata-se de uma bi-taxação, já que contribuem, anualmente, com impostos para conservação de rodovias pavimentadas, através do Sistema Nacional de Trânsito.

O quadro observado somente referenda o que vem mostrando, anualmente, a Pesquisa Anual realizada pela Confederação Nacional do Transporte, desde 1995, que traz um diagnóstico completo de 100% da malha rodoviária federal pavimentada e os principais trechos sob gestão estadual e sob concessão.
No ano de 2009, o estudo apresentou uma conclusão perigosa: a maioria das estradas brasileiras está no limite. Cerca de 69% das rodovias estão enquadradas em situação regular, ruim e péssima. Apenas 31% das estradas apresentaram condições boas ou ótimas. 

Em relação às condições de pavimento, a Pesquisa assinalou que 54,2% das estradas estão em situação regular, ruim e péssima.  Novamente, três entre 10 estradas brasileiras apresentam condições boas ou ótimas. Em termos de sinalização, 63,9% das rodovias foram consideradas regulares, ruins e péssimas. As estradas em condições ótimas ou boas chegam a 36,1%. Na geometria analisada pela pesquisa, o número de estradas em condições péssimas, ruins ou regulares aumenta.  No Brasil, 79,8% das vias estão nestas condições. Apenas 21,1% estão em boas ou ótimas condições.

Em termos comparativos, em relação a anos anteriores, a Pesquisa revelou uma melhora no quadro geral, da ordem de 4,6% no que tange às estradas em situação ruim, péssima ou regular. E na sinalização, o estudo mostra que houve queda de 7,1% nas estradas com condições ruins, péssimas ou regulares.

Em relação à situação por região, o estudo mostra que, no sudeste, 45% de estradas foram consideradas boas ou ótimas. Na outra ponta, está a região norte, com 93,7% das rodovias em condições regulares, ruins ou péssimas.

Entre as rodovias sob gestão pública, 77,6% não apresentam boas condições para os motoristas e o restante (22,4%) tem boa trafegabilidade. No caso das rodovias privatizadas, a situação se inverte: 76,5% estão em boas condições e 23,5% apresentam problemas.

As informações, de caráter institucional, dão conta de que as piores estradas estão na região Norte. Mais de 90% das estradas apresentam más condições. A situação mais crítica é no Amazonas, que tem toda a malha rodoviária considerada como regular, péssima ou ruim. Em seguida, está o Acre, que tem 98,7% das estadas em condições precárias. Roraima foi o que teve a maior parte das estradas avaliadas como ruins (43,6%) - a BR-210 foi considerada a pior estrada no estado.

Segundo informações divulgadas através do site WWW.primeiramao.com.br o estudo da CNT contou com 16 equipes para avaliar 89.552 km de rodovias, sendo 60.784 km federais, 28.768 km estaduais e 14.215 km concedidas. O tempo de avaliação da pesquisa foi de 45 dias de trabalho.

Quem paga?

A par do aumento, durante os últimos anos, do volume de investimentos públicos em rodovias, eles são insuficientes para fazer frente às necessidades de adequação e ampliação da malha viária, isso sem contar com os constantes problemas de paralisação de obras.

Segundo as mesmas fontes, são necessários cerca de R$ 32 bilhões para manter, reconstruir e restaurar as rodovias, isso contando com a boa vontade política e a aplicação sistemática na reconstrução da malha rodoviária brasileira, dentro de um tempo não inferior a dez anos, segundo os cálculos da CNT.
Enquanto isso, à medida que as estradas apresentem maior depreciação, há, em contrapartida, um aumento da ordem de 28% no custo operacional de caminhões, elevação de até 5% no consumo de combustível, queda na velocidade operacional e maior emissão de poluentes, segundo dados da CNT.

Desde a década de 1980, a estrutura e os equipamentos de apoio ao desenvolvimento econômico carecem de uma resoluta ação governamental, visando acompanhar o crescimento industrial e a ampliação da circulação de mercadorias em território brasileiro. Nem mesmo o Governo de Luiz Inácio Lula da Silva, que concluiu seus oito anos de mandato como o chefe de Estado mais bem avaliado do mundo (87% entre os entrevistados - segundo levantamento feito também pela Confederação Nacional dos Transportes – CNT, em parceria com o Instituto Sensus) deixaram de ser tímidos em relação a investimentos neste setor.

Pelo andar da carruagem, pintar buracos de branco pode se constituir mais do que uma medida cautelar contra acidentes, para se converter em verdadeira ironia frente ao descaso, que se traduz na pergunta mais óbvia a ser feita: Buracos nas Estradas ou Estradas nos buracos?

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

San José

Desde o cair da tarde de ontem, terça-feira, 12 de outubro de 2010, os olhares do mundo se voltam para um ponto deste Planeta: a Mina de San José, no deserto de Atacama, no Chile, para assistir, via satélite e ao vivo, o resgate de 33 mineiros. Soterrados devido a deslizamentos na estrutura da mina, no dia cinco de agosto do corrente ano, esses mineiros conseguiram chegar a um abrigo, há cerca de 620 metros de profundidade, e a ser resgatados depois de 70 dias de confinamento, dentro de uma operação considerada exitosa, segundo as condições disponíveis desde o início do caso.
Assim como na política ou no futebol, o assunto é considerado polêmico e certamente contará com centenas de interpretações e juízos. A cada um que esteve à frente de um aparelho de televisão, para assistir a tal evento, é dada a condição de assumir suas próprias considerações, em face da eloqüência das imagens e áudios transmitidos. Por isso pretendo apenas dar o meu pitaco, sem a intenção de me inserir nas polêmicas que tais fatos ensejaram pelos quatro cantos do mundo.
Não foi a chegada de um homem a lua, nem o final de uma viagem interplanetária, nem mesmo o encerramento de um grande episódio universal, mas, sem dúvidas, foi um grande passo para a humanidade.  Primeiro, porque foi o primeiro resgate mundial nas condições em que ocorreram. Em segundo, porque esse fato é rico em conseqüências para a geração de conhecimentos multidisciplinares, nos campos da medicina, da arquitetura, da engenharia, do aporte tecnológico, da biotecnologia e tantos outros ramos da ciência, da tecnologia e da sociologia. E, sobretudo, para a própria espiritualidade do ser humano.
Foi a vitória do planejamento, da disciplina e da organização, envolvendo, desde o início, uma centena de homens, a ajuda de inúmeros países, entre eles o Peru, o Canadá, os Estados Unidos, através dos técnicos da NASA, para balizar a manutenção da vida nas entranhas da Mãe Terra.
Como se cada um dos mineiros tivesse retornado ao útero da Mãe Terra para fazer um novo nascimento, a partir da dor, do sofrimento, do medo do desconhecido, da possibilidade de guiar-se, na escuridão, tão somente pela fé e pela crença em si mesmo. Inicialmente ficaram presos na escuridão por 17 dias, até que equipes da superfície soubesse que estavam vivos.
Lembro-me que, ainda jovem, visitei uma Mina na cidade de São Jerônimo, no Rio Grande do Sul. Fui conduzido ao fundo, há cerca de 100 metros de profundidade, por um elevador e lá percorri inúmeras galerias, sempre guiado pelo farol do capacete que eu usava. A sensação que vivi, no fundo daquela mina, me dá uma idéia das circunstâncias vividas por esses 33 mineiros.
O ar é rarefeito e pesado, a vitalidade diminui, a umidade é muito elevada, o suor ficava contido na própria roupa, sem escoar. No ar ainda estão presentes a poeira de minerais pesados, bactérias e fungos e, no meu caso, um pó preto e fino, oriundo da extração de carvão naquelas profundidades.  
Para além das lâmpadas não há nada mais do que escuridão total, ainda que se ouçam vozes vindas das profundidades. Não há eco, não há a sensação de amplitude e nem outra sensação senão a de pleno confinamento, desconforto e limitação. Não sou claustrofóbico, por isso mantive sobre controle a sensação de estar privado dos raios do sol. O contingente humano que trabalha nas profundezas é sempre muito expressivo e muitos deles apresentam envelhecimento precoce, dada a insalubridade dos ambientes em que trabalham.
Por essa experiência, posso imaginar 33 homens, sobreviventes da do deslocamento e da reacomodação de rochas e terra, circunscritos a um ambiente da câmara onde ficaram, medindo cerca de dois quilômetros quadrados, quase sem ar, sem comida, água ou remédios, convivendo com altas temperaturas, acima dos 40 graus, muita umidade no ar, sem poder avisar aos colegas de superfície que estavam vivos, e, sobretudo, tendo que compartilhar entre si as adversidades, lidando com os mais enfermos e enfraquecidos, vivendo sem a perspectiva de resgate, de sobrevivência, tendo dentro de si o medo, a impotência e a depressão.
A única arma utilizada era a fé, a crença em algo maior, na vontade de superar os mistérios da vida. Tiveram que encontrar, naquelas circunstâncias, a condição de fazer surgir um líder e de gerar solidariedade entre si, as únicas formas de  enfrentarem aquelas adversidades.  E, depois de descobertos pelas equipes de superfície, ainda terem que receber a notícia de que seriam resgatados nos meses de novembro e dezembro deste ano, dentro de uma condição especial, dados os riscos de resgate. Uma corrente invisível de orações começou a se formar por aqueles que crêem, pertencentes a inúmeros caminhos, religiões e filosofias buscando a formação de um enorme vórtice de energia para ajudá-los em sua senda. O mundo espiritualizava-se em busca da solidariedade àqueles 33 homens em risco de vida.
Até que suas vidas passaram a ser organizadas, pelas equipes da superfície, de modo a absorver nutrientes que lhes garantissem a sobrevivência prolongada, naquelas condições, exercícios físicos e psíquicos, horários para dormir e períodos de instruções e de assistência psicológica para a sobrevivência em condições satisfatórias, enquanto as providências de resgate fossem acionadas. Uma divisão natural de tarefas e de responsabilidades foi feita, com a existência de uma coordenação, além de encarregados de enfermaria, direção espiritual e animação de grupo.
E, por último, além da disciplina ao programa traçado, tiveram que conviver com a busca permanente de fazer frear ansiedades e alcançar o domínio de si mesmo, até que lhe chegasse a vez de fazer o ultimo sacrifício, de entrar na cápsula, percorrer, por infindáveis quinze minutos, o trecho até serem içados até a superfície.
Foi à vitória da solidariedade, da esperança, da convergência de interesses, da submissão de suas vontades pessoais à vontade de outros seres humanos, além da haver uma ode à vida, à fé, a esperança, à bondade e o amor humano. Dessa experiência se retira a natural obediência do ser humano à ordem natural das coisas, à valorização da vida, à unicidade de propósitos materiais e transcendentes.
Cada mineiro resgatado ganhou o aplauso, o carinho dos familiares e de autoridades presentes, assim como revalidou uma revisão completa de seus propósitos de vida, a reverência e a fé em algo superior e a certeza de que na vida sempre há algo a ser desvendado, algo a ser ratificado, algo a ser transformado pelas mutações existenciais.
Há sempre um fio que nos une, em nossa condição humana, que, pelo menos neste episódio, uniu, pelo olhar, cada homem presente em San José à humanidade. Em tempos de paz, ainda nos resta uma esperança de superar diferenças, trabalharmos pelo bem comum e nos tratarmos como moradores desta verdadeira aldeia global.

Hoje esses 33 homens são considerados verdadeiros heróis. Amanhã, a memória humana poderá ficar enfraquecida pela poeira do tempo. A rotina poderá levar, novamente, esses heróis ao anonimato, e, talvez pelas circunstâncias da vida, pela falta de opção financeira voltem ao fundo de buracos como esse, de onde saíram para dar continuidade a suas vidas. Não receberão mais abraços de Presidentes e Ministros, mas apenas de seus familiares, que os receberão cada vez que subirem à superfície.
E, talvez, ainda, por contingências da vida, novos heróis venham a desfilar por nossos aparelhos de televisão, sob a chancela do Big Brother Brasil. Mas nós saberemos, pela fragrância das diferenças, identificar quem são os heróis verdadeiros.
Pois teremos a certeza de que, pelos verdadeiros heróis, não criados pela mídia, o mundo convergiu seus olhares, comemorou a paz, a fraternidade e união substancial em nome de uma humanidade que caminha a passos largos para um novo ciclo evolutivo, calcado no verbo, na fé e na esperança de validar a unidade nas diferentes formas de ser e de agir.







sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Cansaço

Neste domingo o Brasil vai às urnas. É a grande festa democrática, onde pobres e ricos, brancos e negros, homens e mulheres, em plena saúde ou em condições especiais, vão ter o mesmo direito pleno de escolher seus governantes. E, em conseqüência, a definição dos destinos deste País, durante os próximos mandatos.

Mas confesso que estou cansado para escolher meus candidatos. Estou cansado pela falta de verdadeiras ideologias, pela falta de fidelidade partidária, de compromissos político-partidários destituídos de Programas de Governo bem elaborados, consistentes e coerentes, de plataformas coerentes que dêem credibilidade aos compromissos assumidos.

Estou cansado de candidatos oportunistas, cansado de ouvir seus discursos vazios, de direita se alvorotando a fazer inflamados discursos de esquerda e de esquerda se alvorotando, com o peito cheio de soberba, a fazer discursos visionários, que nada tem a ver com a democracia, nem mesmo são compatíveis com a realidade onde se inserem.

Estou cansado de falsas promessas, pois Deputado não executa obras, não faz a gestão dos recursos do Executivo, não operacionaliza leis, não tem poder de polícia, não administra escolas, nem hospitais, nem comanda a construção de estradas ou pontes, terminais de transportes, nem metrô, nem quaisquer outros equipamentos urbanos.

Deputado não faz nada disso. Deputado elabora leis. Ponto. O resto é demagogia.

Estou cansado de ver desfilar, por meu aparelho de televisão, candidatos que ostentam apelidos picarescos, que denigrem a dignidade do momento solene pré-eleitoral. E o que mais me desanima é ver candidatos semi-analfabetos, liderarem pesquisas, ex-jogadores de futebol, sem quaisquer vivências com as letras, contarem apenas com sua popularidade, para atingir os eleitores mais incautos, líderes religiosos deixarem de tratar de sua religiosidade para buscarem o ingresso na grande arena política que marca o jogo de interesses.

E, ainda, de candidatos enxergarem uma boquinha para se escorar, num cargo político, que, além da compensação financeira, é acompanhada por vantagens adicionais raramente oferecidas pelo mercado formal de trabalho, tais como verbas de representação, recursos para formação de staff, subsídios ao exercício de suas funções, férias prolongadas, direitos trabalhistas estendidos, aposentadoria especial e tantos outros favorecimentos, isso sem falar do prestígio que seu nome passa a desfrutar como " legítimo representante do povo, sufragado pelo voto popular e a possibilidade de virar mito.

Estou cansado de candidatos à Presidência, com complexos de inferioridade, apontar os defeitos alheios para diminuí-los frente à opinião pública, para, assim, mostrarem-se mais capazes de gerir os destinos deste País. Estou cansado de ver candidatos que fizeram parte de governos condenarem a administração a qual participaram como integrantes. Estou cansado de velhos caudilhos abandonarem partidos políticos e se esquecerem da visão político-ideológica, que os alimentou durante o tempo em que estiveram em suas fileiras. Estou cansado de candidatos que precisam se escorar na popularidade alheia para legitimar o seu carisma, sem o qual, talvez, tal condição não seja reconhecida.

Estou cansado de assistir debates mornos para evitar-se o confronto e a mácula a suas bem traçadas diretrizes de marketing político. Como dizia meu avô: “Lobo não come lobo”.

Tudo fica na mesma panacéia. Por isso estou cansado. Estou cansado de ver candidatos ignorarem os feitos heróicos de nossos antepassados que lutaram pela independência e glória de nosso povo, derramando seus sangues para que nós um dia pudéssemos desfrutar o direito de exercer, pelo voto, a nossa cidadania e a nossa soberania.

Estou cansado de alianças de interesses, conchavos e acordos, onde os principais cargos já estão rateados, antes mesmo de a eleição ser realizada, visando garantir que ninguém perca a sua fatia de poder e ascensão ao comando do Estado brasileiro. Estou cansado de não ver a verdadeira democracia vigir neste País. De tributar-se a mesma relevância aos bastidores quanto nos palcos da democracia. Da inexistência de verdadeiros e autênticos líderes nacionais, verdadeiros estadistas, capazes de se esquecerem de seus interesses e renunciarem a suas ambições para simplesmente servirem à vontade de um povo a que representam e à qual prestam juramento, no momento em que são empossados.

E, na mesma linha, de mandatários dos Executivos e dos legislativos estaduais afinados com as causas do povo que representam. Que deixem de polir seus egos, deixem de buscar ascensão ao poder político e econômico, para simplesmente tornarem-se verdadeiros servidores públicos, como o próprio nome já sugere. Que deixem de legislar em causa própria, obter benesses pessoais, fazer concessões e ou cooptarem em nome de sua condição mandatária.

Tenho que vencer essa preguiça e fazer minhas escolhas. Mas também não quero optar por ser guiado pelas grandes correntes que apregoam o voto útil, para não me sentir marginalizado do meio em que vivo. Nem mesmo de, como eleitor, identificar as vantagens que terei ao eleger esse ou aquele candidato, segundo meus próprios interesses pessoais.

Quero votar no menos marqueteiro e no mais sério e compromissado com as mudanças deste País. Quero crer em candidatos que ainda não atingiram a popularidade nas urnas mas que sejam mais coerentes com suas plataformas políticas, destituídos da malícia e do jogo de cintura e mais afetos às ideologias que abraçaram.

Não me importa que me chamem de velho gagá, desfocado da realidade, ou mesmo de ser esquisito porque escolho o diferente, o novo, o ainda não corrompido pelos jogos de interesse. Pois creio que assim estarei defendendo verdadeiras mudanças para esse Brasil varonil que tanto precisamos. Quero dizer um basta a este status quo existente, que ainda não discutiu as reformas política, tributária e estrutural que tanto precisamos, por estar afeto aos interesses dos que desejam conservar o status quo vigente.

E depois de votar no menos aquinhoado pelas urnas, quero assistir ao filme “Invictus” para inspirar-me na interpretação impecável de Morgan Freeman na pele do lendário Nelson Mandela, que passou pelos calabouços, de governos segregacionistas, em seu processo de aprendizado de como ser um verdadeiro estadista, e mais tarde dirigiu a sua África do Sul, nos anos 1994 e subseqüentes, renunciando às aspirações pessoais e nutrindo o amor a seu povo, que o reconheceu e o amou, por se inspirar nos princípios da verdadeira democracia, aquela que acabou com a diferença entre brancos e negros, pobres e ricos, ensejada por mais de 40 anos, como uma verdadeira afronta aos direitos universais do homem.

Não podemos mais aplicar um modelo eleitoral, ratificado no século XX para vigorar em pleno século XXI. E, enquanto não acordarmos para essa realidade, estarei apenas vencendo o cansaço, vencendo a mesmice e sonhando com um novo amanhã, uma nova forma de elegermos nossos governantes, a ser concebida pelo povo e para o povo, sem máscaras, sem marketing, sem dominação das massas, mas respaldada por ações efetivas, diretamente compromissadas com as reformas sociais tão necessárias à sociedade brasileira. Aí sim deixarei, se ainda estiver nesta forma de existência, o tédio e o cansaço para ativamente abraçar o verdadeiro sentido para onde deve caminhar a verdadeira cidadania.

domingo, 12 de setembro de 2010

Nosso Lar

O que você achou do filme? Perguntaram-me, inúmeras vezes, parentes e amigos, quando souberam que eu fui ao cinema para ver “Nosso Lar”, estreado no dia 3 de setembro deste ano. Quatro dias depois lá estava eu, acompanhado por familiares, para assisti-lo “quentinho”, “saído do forno”.

Ao chegarmos à bilheteria surpreendi-me com o tamanho da fila, serpenteada e a perder de vista. Mas chegamos, felizmente, após andarmos e esperarmos muito, à sala de exibição. Fui logo rumando para o fundo, lugar mais alto e mais distante da tela, onde costumo freqüentar.

As pessoas foram, aos poucos, chegando e, antes mesmo de tomarem seus assentos, trataram de pegar seus “pacotinhos” de pipoca, cerca de 30 cm x 20 cm (imensos), coca ou guaraná de litro, bombons, balas e outras guloseimas. Pensei comigo como seria possível ingerir tamanha dose de guloseimas em um pouco menos de duas horas.

Vá lá, pois lembrei que o estômago recebe grande feixe terminais nervosos e nada melhor do que usar um verdadeiro festival de fast food para controlar a sua paciência de permanecerem sentados e quietos, durante o tempo em que a sala permanece escura.

Mesmo assim posso acrescentar, para esse episódio, que, ao sairmos, o carpete continha uma nova camada, formada por restos de pipocas, papéis de balas e bombons, tampas de garrafa e líquidos derramados. Fatalmente as faxineiras, depois de sairmos, iriam ter hora extra para devolver a sala a seu aspecto original. E, diga-se de passagem, após muito trabalho.

Um verdadeiro paradoxo para quem vai a uma sessão de cinema para travar contato com uma obra essencialmente focada na vida espiritual e, portanto, buscando o sentido mais elevado da dimensão humana.

O filme começa e me vem a primeira surpresa: o som é bom, puro, nada tem a ver com grande parte das películas rodadas no Brasil, pois contou com a participação do badalado norte-americano Phillip Glass, aliado ao trabalho de fotografia do suíço Ueli Steiger (o mesmo de 10.000 AC). Mas não me surpreendi com a qualidade dos efeitos visuais, supervisionados por Geoff D. E. Scott (o mesmo de Como Cães e Gatos 2: A Vingança de Kitty Galore, que também estreou concomitantemente), desenvolvidos no Canadá pela Intelligent Creatures (empresa que atou também em Babel e Watchmen – O Filme).

Li que mais de 350 imagens de Nosso Lar têm algum tipo de inserção gerada em computadores, quantidade nunca feita antes numa produção brasileira, mas entendi que, mais para servir de pano de fundo para ilustrar o eixo da obra, do que para fazer apologia à tecnologia e aos efeitos especiais hollywoodianos, tão comuns naquela academia.

A direção e o roteiro são de Wagner de Assis e, no elenco, inúmeros artistas globais, para alicerçar uma obra cinematográfica brasileira tratada como superprodução: Renato Prieto ( André Luiz), Othon Bastos, Ana Rosa, Paulo Goulart, Werner Schünemann, Fernando Alves Pinto, Rodrigo dos Santos, Inez Viana, Rosanne Mulholland, Clemente Viscaíno, Lu Grimaldi, Selma Egrei, Nicola Siri, Helena Varvaki, Cesar Cardadeiro, Lisa Fávero, Ana Beatriz Corrêa e Chica Xavier.

Todo esse cuidado é para fazer o espectador conseguir visualizar a narrativa do livro homônimo Nosso Lar, que está em sua 60° edição no Brasil, onde vendeu cerca de dois milhões de exemplares. Já foi traduzido para o inglês, alemão, francês, espanhol, esperanto, russo, japonês, tcheco, braile, grego e é um dos campeões de venda da literatura espírita. O filme utiliza uma linguagem simples e direta, buscando um conteúdo didático que, às vezes, assume um tom catequizador ou doutrinário. O Espiritismo tem servido de palco para a cinematografia mais recente, entre eles os filmes Bezerra de Menezes, Chico Xavier, assim como nas telenovelas, como acontece com a trama “Escrito nas Estrelas” da Rede Globo. Sempre atraindo um público expressivo, interessado nas temáticas que abordam.

Fico pensando no que estariam buscando essas pessoas, que ví passarem por mim, naquela sala de espetáculos, carregando em suas mãos um verdadeiro coquetel gastronômico. Certamente que não seria pura diversão. Em razão disso me arrisco a dizer que boa parte deles tenha ido assistir ao filme levada pela dúvida se há alguma forma de vida após a morte. E, se há, qual seria ela?

O ser humano ainda é ávido em querer obter provas cabais, de que a vida não termina após o último suspiro.

Pode parecer ironia, mas ninguém até hoje conseguiu retornar da morte para contar suas experiências, E, assim, cada ser humano tem que encontrar por si a sua verdade sobre o que nos acontece no pós-morte. A doutrina espírita busca dar ao leigo um sentido transcendente para a existência, de que não há morte, mas apenas a continuidade da vida para além do contexto biológico.

Nosso Lar vai ao encontro dessa busca. Escrita por André Luiz após a sua morte, a obra foi psicografada por Chico Xavier, contendo relatos e desenhos sobre uma cidade, descrita por ele, no ano de 1944, onde viveu após deixar a sua vida terrena. Pouco se sabe sobre André Luiz nesta vida. Apenas que foi médico sanitarista, no início do último século, tendo exercido sua profissão na cidade do Rio de Janeiro. E, provavelmente, esse também não era seu nome de batismo, mas um nome adotado por ele para buscar enviar notícias além-túmulo, por compreender as limitações humanas frente ao fenômeno da existência. Dos seus apontamentos sabe-se que era homem reconhecido em sua profissão, porém austero e distante de sua família.

Em seus relatos conta que, ao deixar este corpo, foi parar no que ele denomina de umbral, uma espécie de corredor que separa dois mundos, onde encontrou-se consigo, revivendo intensamente todas as suas limitações humanas, situação que lhes trouxe muita dor e, ao final, desespero, onde nada mais lhes restava, senão as súplicas para abandonar aquela experiência, revelada por sua consciência. Até que seres mais iluminados lhe retiraram daquela situação e o conduziram a uma enfermaria, onde passou a ser tratado para revigorar-se. Em seguida foi conduzido a conhecer a cidade, uma urbe à frente de seu tempo, onde a tecnologia, a arquitetura e o modus de vida estavam a um passo a frente da cidade onde morara nesta vida.

Depois de um tempo em convívio com sua nova cidade, recebe autorização para visitar os lugares onde viveu, encontrando seus filhos já adultos e sua esposa casada em segundo matrimônio. O marido, já doente, era tratado por ela em extrema consideração, atenção e amor. André Luiz se revolta por não ser lembrado, nem estar fazendo falta a seus queridos familiares, que deixara na terra, sendo novamente conduzido ao umbral para rever suas paixões, dentro de uma rápida passagem por aquela condição.

Assim consegue dar-se conta de seu egoísmo, e, na mesma condição, retorna ao convívio de sua antiga família, onde participa da cura daquele enfermo, dá a benção a eles e retorna novamente para a cidade onde vive. Enquanto lá esteve, foi somente reconhecido pela empregada e pelo cachorro da casa. Ele deixa sua antiga residência com a certeza de que o mundo em que vivera já não lhe pertencia mais. E que, durante o tempo em que estivera ali, praticara inúmeros deslizes, fruto de sua concepção egocêntrica e da busca de poder e ascendência sobre aqueles que estavam a sua volta.

É marcante o episódio que registra a sua chegada àquela cidade atemporal, onde lhe exortam a necessidade de realizar algum trabalho útil aos demais, para viver entre os habitantes daquela urbe. Ele escolhe o trabalho de assistência aos recém chegados. Colocado numa espécie de enfermaria, como aprendiz, vai logo dizendo: “não se preocupe, eu sou médico, e sei como tratar esses casos”.

Ele estava acostumado a adotar uma postura tecnocrática, onde seus conhecimentos médicos o destinge de seus pacientes e onde conserva uma visão estritamente orgânica da constituição humana. E logo se dá conta de que, tudo o que aprendera em sua estada na vida terrena nada lhe valia agora. Tudo era energia e, para atuar ali, dentro de sua nova função, teria que se fazer banhar pela luz do amor, a fim de transmitir a seus novos “pacientes” a ajuda necessária às suas adaptações aquela forma de vida.

O ingresso naquela cidade se fazia através de um enorme portal, por onde os recém chegados tinham de passar, simbolizando o despojamento das limitações mundanas inferiores, para ascender em espírito de solidariedade, fraternidade e universalidade da comunhão entre pessoas. Isso é, deixar os interesses pessoais para passar a viver da comunhão e do espírito fraterno entre seus semelhantes. Situação vetada aos mais egoístas que devem permanecer no umbral, revendo suas falhas, a sua falta de humanidade, até ampliarem a sua consciência e adquirirem a condição de elevarem-se até um plano evolutivo compatível com a sua situação, como era o caso de André Luiz.

Ele diz, em uma de suas obras psicografadas: "Quero trabalhar e conhecer a satisfação dos cooperadores anônimos da felicidade alheia. Procurarei a prodigiosa luz da fraternidade através do serviço às criaturas, olvidando o próprio nome que deixo para trás por amor a Deus e a elas. Revisto-me transitoriamente de outra personagem para melhor ensinar e amparar. Sou André”.

O que o aproxima de seu público leitor é o fato de ter sido, enquanto viveu nesta forma de vida, um homem comum, igual à maioria dos que lhe foi contemporânea, que soube encontrar paz, conforto e elevação em seu trajeto evolutivo. Segundo suas próprias palavras, habitara a terra, conseguira títulos universitários sem maior sacrifício, tivera os vícios recorrentes da juventude, conseguira casar e dar estabilidade à sua família, mas experimentara a noção do tempo perdido, gozando os bens, sem avaliar o legado de seus pais, amando sua esposa e seus filhos de forma egoísta, deliciando-se do jubilo familiar mas esquecendo-se da enorme família humana e alheio aos deveres de fraternidade.

Já em Nosso Lar, encontra sua mãe e comporta-se de forma infantil, olha com desdém a uma mulher, antiga paciente, por buscar fidelidade egocêntrica a sua antiga esposa, privando-se do convívio dos demais e isolando-se, para não perder as características de sua personalidade, mantendo apego à sua arrogância e orgulho. Com as sucessivas reflexões, consegue sair de sua concha, auxiliar a jovem Elisa, em sua infelicidade, ajudando, nas enfermarias, já não mais como profissional tecnocrático, mas como irmão fraterno e solidário. E, com isso, consegue se integrar ao ambiente harmonioso e elevado, que sua nova vida passou a lhe proporcionar.

Mais ainda: perfeitamente consciente das ilusões que ele mesmo criara, ao longo de sua trajetória, percebe que, na vida terrena, encontrara o tédio, dera curso a seu temperamento agitado, e, ao dar graças às novas experiências, aprende dar valor ao serviço dedicado aos semelhantes, surgindo, daí, André Luz, um ser humano inspirado no amor, no amparo, na elevação da vida.

Direcionada ao público espírita, Nosso Lar encontra no leigo a devida acolhida, por traduzir os anseios mais elevados do ser humano. Enquanto, nas plateias, saboreia guloseimas pode refletir sobre as perguntas existenciais que mais lhe preocupam. Isso me faz lembrar, certa vez, de uma passagem que tive junto a um asceta da renúncia, quando lhe perguntei: Senhor, como se morre? E ele respondeu, em sua santa simplicidade: “morre-se como se vive”. Por certo que a vida é curta, a curiosidade é enorme, em conhecer o que há do outro lado. O filme leva à reflexão e suscita a pergunta: “como eu estou vivendo? Sou feliz? Tenho em mim um sentido mais universal? Minha vida está valendo a pena?” Afinal, a vida é transformação e sempre é possível mudar de rumo. Como dizia Chico Xavier: 'Embora ninguém possa voltar atrás e fazer um novo começo... qualquer um pode recomeçar para fazer um novo fim...”

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Zezinho e a Santa

Sua estatura era baixa. Também era franzino, mesmo quando atingira a vida adulta, e de pouca fala. Mas era considerado um bom trabalhador. Quando pegava na enxada fazia a diferença, roçando o dia todo, até que surgissem os primeiros fios de ouro do luar do nordeste. Era um homem simples, saído do povo. Mas conhecia as primeiras letras, desenhava seu nome e, na maioria das vezes, pouco entendia dos textos apresentados por sua professora de primeiro grau.

Fervoroso cristão, aos domingos punha a sua melhor roupa e lá ia ele ajudar o Vigário da Cidade em seu ofício de sacristão. Nunca falhava, nunca se atrasava, atendendo prontamente as orientações do Padre e, por isso mesmo, era querido e apreciado pelos homens da Igreja. E pelo povo da cidade que comparecia aos cultos após os sinos dobrarem.

A Vila era pacata. Poucos veículos nas ruas, que, quando chovia, se tornavam um imenso lodaçal. Mas eram repletas de jegues e bicicletas que circulavam para lá e para cá. Principalmente junto à Praça Central, onde não poderia faltar estátua de político, geralmente de coronéis que dominavam a região, e muitas moças circulando à espera de um futuro garantido através de um bom partido. De preferência bem aquinhoado. Nos dois sentidos. Ah! Poderia ou deveria ser trabalhador, afável, gentil e não mulherengo.

Mas esse era o grande defeito de nosso homem, que, por seu porte esguio, mas só na aparência, recebera a alcunha de “Zezinho”. Nosso coroinha tinha sempre um destino incerto, itinerante, e seu lar era mesmo todo o nordeste. Porque sempre chegava à próxima cidade fugido e, sem dificuldades, ia logo se sentindo à vontade, conquistando, com seu carisma, a admiração das beatas, a confiança dos Padres e a complacência dos fiéis.

E, depois de se tornar conhecido e bem-quisto, deixava mostrar a sua maior fraqueza: servir de consolo para viúvas e mulheres de caixeiros viajantes. À noite costumava visitá-las, para dar-lhes o ombro amigo, preenchendo-lhes todos os espaços vazios. Todos. Aquecia suas camas, cobria-lhes de carícias e, pela manha, antes do sol nascer, tomava uma meia xícara de café preto e saia furtivamente, assim como entrara na condição de visita noturno.

Não demorava muito e era descoberto por alguém que padecia de insônia ou por algum entregador de leite ou de jornal. – “Olha lá o Zezinho saindo da casa de dona Zica. Aquele safado!” E logo-logo já não havia mais um denunciante, mas um grupo raivoso de homens que, indignados pelo consolo que dava, punha-o a correr da rua e também da cidade, com a promessa de que, se voltasse, poderia ficar sem o seu consolo para atender senhoras necessitadas.

Era assim que o tal Zezinho rodava por toda a região. Mudava-se quando a sua maior fraqueza era descoberta: as mulheres. E também foi assim que mal tinha chegado àquela cidade e já arrumava um jeito de fazer o seu carisma abrir caminho. Mas, desta vez, fora descoberto em sua primeira incursão. Tratou logo de correr e, embora tomado pela surpresa, constatara a pouca margem de distância em relação a seus desafetos.– La vai ele, pega ele, pega ele!, diziam os mais exaltados. Tarado. Tarado. Demônio. Pecador.

E, agora, para onde ir? Só havia um lugar para onde correr, esse já familiar e de seus antigos hábitos: a sacristia da Igreja. E foi para lá que correu. Correu tanto, que superou até mesmo o limite de sua constituição franzina, que Deus lhe dera.

Ufa! Entrara apressado no saguão santificado, mal dando tempo de encostar o dedo indicador na água benta da pia e, já cambaleando, fez a flexão de joelhos para demonstrar respeito ao Todo Poderoso, embora ele mesmo não tivesse a mesma reverência com seus semelhantes.

- “Onde ele está?, gritavam. Onde ele foi se esconder? Diziam vozes vindas do lado de fora do prédio.

Mais do que ligeiro, procurou um lugar para se esconder, caso alguma alma incauta resolvesse inspecionar aquele local sagrado. Não havia nada, senão enfiar-se sob o manto da imagem da Santa, de estatura próxima à sua, em tamanho “natural”. E alí ficou ofegante, encolhido. Assustado. Porque dessa vez ele exagerara na medida, pois o alvo era a mulher do Doutor Prefeito, que viajara em comício, em busca de sua reeleição.

Passados alguns instantes, tudo serenou e seu coração passou a bater com menor freqüência, enquanto ele dizia: “Puxa, foi por pouco. Muito Pouco”. Lá permaneceu até cambalear a cabeça e a ressonar, em conseqüência do cansaço que tomava conta de seu franzino corpo.

Mesmo assim, acostumado aos revezes, que suas traquinagens lhe traziam, resolveu olhar pela fresta do tecido e viu duas mulheres ajoelhadas, com terços na mão, fazendo suas novenas. Estava preso ali, porque se fizesse um só movimento, poderia ver a sua moral arrancada de seu corpo, após lhe dar toda aquela fama de galanteador e seu jeito de atender as súplicas de mulheres solitárias.

O jeito era controlar-se, para não deixar o seu corpo enrijecido pelo medo, enxugar o suor de sua testa e.... esperar.

Só não contava que o grupo caçador percorrera a Vila, nada encontrando, voltando para o átrio da Igreja. E todos, sem saber de seu paradeiro, entraram na Igreja para pedir ao Senhor que os auxiliassem em sua busca a encontrar aquele safado farçante.

A tudo, escondido junto à Santa, Zezinho assistia. E, agora? O que fazer? Enquanto as rezas seguiam, ele, novamente ficara fora de si, começando a falar alto e fino, enquanto o povo calava-se para ouvir aquela voz. Até que um fiel exclamou: “ Olha, a Santa fala!” Milagre. Milagre. E não demorou muito para que a Igreja lotasse. Todos queriam ouvir a Santa falar.

Zezinho gostou da experiência e, quanto mais se exaltava, mais soltava o verbo. Até que se surpreendeu dizendo frases inteiras que não eram de sua autoria. Como poderia isso estar acontecendo? Olhou para a imagem da Santa e ela permanecia ali, imóvel. Enquanto isso suas palavras fluíam através de sua boca, sem que ele quisesse ou pensasse naquilo que pronunciava.

Mais incrédulo do que os próprios fiéis, que ali estavam, compreendeu que o milagre estava acontecendo. Não era testemunha. O milagre estava dentro dele. Por ter vivido a experiência de Coroinha, entendeu que dentro de si morava o pecado e também a redenção. Mesmo sem rezar ou buscar elevar a sua fé, tudo fluía como uma luz que atravessava o seu corpo e se expandia ao tempo em que permanecia como o mais impuro dos fiéis, escondido por trás do manto que guardava a imagem de uma Santa.

Aos poucos, foram todos para suas casas. Os fiéis, contagiados por palavras que lhe falaram ao coração, lhes trouxeram a certeza de terem assistido algo maior do que eles mesmos, maior do que suas próprias vidas, ainda que sem saber que o fenômeno se processara através da impura alma de Zezinho. E, esse, por sua vez, ainda estupefato, aguardara um pouco mais para sair sorrateiramente de mais uma Igreja, de mais uma cidade.

Mas, dessa vez, tendo aumentado a sua experiência de vida, levando a certeza de que, com o Sagrado, não se brinca. E a dúvida de que talvez não fosse ele mesmo santo o suficiente para consolar jovens mulheres solitárias.

Foi quando lhe veio à cabeça o mesmo conselho, lhe repassado por vários padres por onde passava: "Meu filho, viva sob as leis de Deus. Obedeça os 10 mandamentos".

Apesar disso, ele sabia que era difícil ignorar os pecados da carne. Quem sabe mudar de vida, fazendo amizade somente com o cabo de sua enxada e passando a freqüentar mais vezes os salões e as sacristias de igrejas? Ou, como toda aquela experiência já ia se esvaecendo, para ficar tão somente em sua memória, quem sabe, talvez, pudesse ousar experimentar o vinho que o vigário guardava na sacristia, pois, afinal, neste mundo, ninguém é santo e ele, assim, poderia praticar um pecado menos alarmante, menos mortal, sem que viesse a bulir na moral e nos bons costumes das cidades por onde passava.

Dentro de si apenas a certeza de que, um dia, a Santa lhe falara, e que poderia unir, numa só coisa, destino e livre-arbítrio, embora, muitas vezes, as mudanças só ocorressem através de verdadeiros milagres, para lhe dar certeza dos caminhos a seguir. Apesar de nutrir uma paixão por viver perigosamente e transgredir limites, para dominar todas as situações de perigo que suas aventuras lhe proporcionavam. A adrenalina era necessária à sua vida.