sexta-feira, 11 de novembro de 2011

11/11/11

Será que o dia de hoje pode ser considerado uma data especial, capaz de trazer grandes transformações à vida das pessoas?


O número trás consigo o seu impacto: 11/11/11, abrindo nossa intuição para nos alinharmos diretamente às forças cósmicas ou telúricas, na esperança de que as energias que circulam tragam, por si só, mudanças significativas em nossa vida.


Queremos receber bons presságios, adquirirmos meios para fazermos algo novo, afastando a negatividade, para que possamos fazer as pazes com a sorte, ou, ainda, fazermos jus a uma condição de ficarmos imunes ao mau agouro. E não queremos que elas signifiquem maus presságios, a exemplo do que ocorreu no ataque às Torres Gêmeas ou no tsunami ocorrido no Japão, ou, ainda, o que ocorreu na região serrana do Rio durante este ano. Todos esses acontecimentos ocorram num dia onze.


Pensando nisso também me pergunto se esse não é o mesmo comportamento registrado a cada primeiro dia do ano? Para recebê-lo usamos roupas íntimas novas e segundo a cor do ano, pulamos num pé só ou em ondas, jogamos sal e tantas outras crendices e superstições que visam trazer a nós os bons fluidos e despertar novos potencias em nós, sem que façamos nada, senão esperarmos por um milagre, trazido por esses bons ventos. Ainda mais quando essas comemorações coincidem com uma sexta-feira, reforçando nossa imaginação.


Alguns acreditam que o número onze, repetido três vezes, sugira a abertura de um portal energético sobre a terra, trazendo renovação para a humanidade. Outros, nesta data, prenúncio de mau agouro. De fato, na numerologia, o número um está associado à criatividade e a confiança em si e, quando adverso, desperta o bloqueio, a frustração, o mal e está associado ao vício.


Mas, acima de tudo isso me pergunto se as influências externas são capazes, por si só, de provocar mudanças em nossas vidas? Não recebemos nada de graça. Acredito que só haja matéria porque essa é alimentada por energias mais sutis. E essas possam nos inspirar boas ou más influências. Porém somos dotados de livre-arbítrio para determinarmos o curso e a qualidade de nossas vidas. São nossas atitudes que determinam o nosso destino. São nossas atitudes que nos levam a vibrar nessa ou naquela energia.


Por mais favoráveis ou adversas que sejam essas forças, somos o fiel da balança. São nossas forças internas que se identificam ou não com as forças que vêm a nós. Somos nós que abrimos ou fechamos as portas. É do nosso esforço que dependem as mudanças, trabalhando regularmente essa transformação que almejamos, até chegarmos a transcender nossos obstáculos. É nosso fogo interior, a garra, a determinação e o enfrentamento de medos, angústias, inseguranças, aliada ao firmo propósito de levar nossa vida para onde desejamos.


Seria muito fácil, a cada início de ano, colocar uma peça íntima nova, na cor do ano e simplesmente esperar que as coisas aconteçam conforme o rumo desejado. Seria muito fácil acreditar que acendendo uma vela ou fazendo uma oração entrássemos em um novo portal e, por sermos bonzinhos e bem-intencionados, ganhássemos, por acréscimo, o reino dos céus. O que vale é nossa intenção e aquilo que, com esforço, fizermos para mudar nossas vidas. É preciso caminhar com nossos pés até chegarmos ao destino traçado. Antes ou depois de uma data cujos números se repitam, como é esse 11/11/11.


A você, que me lê uma boa caminhada. E que os portais se abram, não porque seja uma dádiva, mas porque queremos aprimorar nossa existência, ver um mundo mais justo, fraterno e amoroso. Para isso não precisamos de milagres e sim de verdadeira perseverança, aliada à pura retro-intenção e o desejo altruísta de somar, aliar e integrar. O resto, bem o resto se faz por acréscimo.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Mudanças


A partir desta semana este blog passa a circular contendo um novo visual. O motivo? O blogger está introduzindo inovações em seu sistema operacional que incluem novos formatos e novos modelos. Para explicar tais mudanças, um designer da Empresa gravou um vídeo, evidenciando as novidades introduzidas no sistema de funcionamento do provedor do blog.

Entre elas a modificação de botões, substituídos por outros, contendo ícones, o sistema de visualização da página, destinada ao gestor, permitindo novos atalhos e novos recursos. Um novo lay out, também destinado aos gestores do Blog, permite a livre escolha das disposições de artigos, gadges, assim como a posição de botões que mostram a listagem de seguidores, links para arquivos mais antigos e perfil do autor.

Naturalmente as antigas funcionalidades do sistema deverão ser desaquecidas, incluindo o design antigo. Daí a necessidade de mudanças no visual desta página digital.

Muitas vezes as mudanças trazem desconfortos, principalmente para aqueles mais conservadores, que odeiam sair do já estabelecido. Suas resistências não só abrangem modelos e formas, mas, principalmente, estruturas internas que conformam a sua personalidade. São levadas pelo medo de sucumbirem, em meio a uma incursão por caminhos desconhecidos.

Nem sempre é fácil permitir-se mudar e, de cara, rejeitam todo e qualquer desafio que implique em abrir suas defesas e se tornar vulnerável às mudanças que possam arranhar sua imagem frente a si e aos demais.

Abrir-se ao desconhecido é, antes de tudo, aceitar-se e alimentar amor por si mesmo, pois é no caminhar que descobrimos novas possibilidades e não ao findar de um percurso.

A grande maioria dos seres humanos utiliza cerca de 98% de sua capacidade mental, através do neo-cortex cerebral, isso é, através da razão, para dissecar o que vêem, sem se deixar levar pela intuição e por sua criatividade, que lhes permitem uma visão holística do que enfrentam em busca de novas descobertas.

Permitir-se lançar-se ao novo, assim como as mudanças no visual deste Blog, é buscar uma nova dimensão de vida. Gostar da novidade é o primeiro passo para uma transformação interior. Afinal, ao fazer algo manualmente, como apertar botões, também enseja fazer de si um ser novo, renovado a cada dia e a caminho de seu próprio desenvolvimento. 

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

INFORMAR OU PENSAR?

O termo “Sociedade da Informação”começou a ser empregado, em larga escala, a partir das últimas três décadas do século passado. Havia uma expectativa de se converter em importante ferramenta para o aperfeiçoamento de processos de comunicação e de evolução do conhecimento. Esse termo também passou a designar a Sociedade do Conhecimento, tendo em vista emergência de um novo termo: a globalizaçâo.

Questões semânticas à parte, pode-se dizer que a “Sociedade da Informação”, como o próprio nome sugere, passou a reservar à informação um papel fundamental na produção de riqueza, contribuindo, assim, para o bem-estar e a qualidade de vida dos cidadãos. A sua eficácia, no entanto, passou a depender da condição de os indivíduos envolvidos saberem ler e interpretar textos, efetuar cálculos matemáticos, ainda que simples, o que gerou a necessidade da formação de profissionais e sua qualificação, incluindo o aumento considerável de indivíduos nos ambientes acadêmicos.

Mal chegamos à primeira década deste século e já podemos notar o lado draconiano desse processo. Neal Gabler, da Universidade do Sul da Califórnia teve o resultado de seus estudos publicados na edição do dia 16 de outubro do corrente ano, no jornal New York Times, a partir do qual constata que ter informações tornou-se mais importante do que pensar, e, assim, estaríamos ingressando numa era pós-idéias.


Segundo ele, o grande volume de informaçôes, divulgadas através dos meios de comunicação, foi aliada à tendência de os usuários estarem perdendo a distinção entre ficção e realidade.

Thomaz Wood Jr., autor da postagem, descreve o relatório do autor: “Seu ponto de partida é uma constatação desconcertante: vivemos em uma sociedade vazia de grandes idéias, leiam-se, conceitos e teorias influentes, capazes de mudar nossa maneira de ver o mundo. De fato, é paradoxal verificar que nossa era, com seus gigantescos aparatos de pesquisa e desenvolvimento, o acesso facilitado às informações, os recursos maciços investidos em inovação e centenas de publicações científicas, não seja capaz de gerar idéias revolucionárias, como aquelas desenvolvidas em outros tempos por Einstein, Freud e Marx”.

Ao ler tal consideração, interpreto esse fato segundo o que diz a linguagem popular: que a vaca foi para o brejo. Há uma longa distância entre intenção e concretização do que fora estabelecido. Para o autor, a carência por boas idéias se deve ao fato de vivemos em um mundo no qual idéias que não podem ser rapidamente transformadas em negócios e lucros são relegadas às margens.

O autor reconhece o declínio de ideais iluministas, onde há a troca de modos avançados de pensamento por modos primitivos. Esse modelo afasta as universidades do mundo real, valoriza o trabalho hiper-especializado, em detrimento da ousadia. E, também, critica o culto da mídia por pseudo-especialistas, que defendem idéias pretensamente impactantes, porém inócuas.

Para Neal Gabler, da Universidade do Sul da Califórnia, o excesso de informações estaria debilitando nossas idéias, uma vez que elas, antes, eram coletadas para construir conhecimento, para compreendermos o mundo.

Graças à internet, o volume de informações disponibilizadas por qualquer fonte, em qualquer parte deste planeta, já não mais permite isso. Temos acesso a tantas informações que não temos tempo para processá-las.

Assim o seu uso se torna meramente instrumental: nós as usamos para nos manter à tona, para preencher nossas reuniões profissionais e nossas relações pessoais. Estamos substituindo as antigas conversas, com seu encadeamento de idéias e sua construção de sentidos, por simples trocas de informações. Saber, ou possuir informação, tornou-se mais importante do que conhecer; mais importante porque tem mais valor, porque nos mantêm à tona, conectados em nossas infinitas redes de pseudo-relações. As redes substituem raciocínios lógicos e argumentos por fragmentos de comunicação e opiniões descompromissadas.

O autor diz que o excesso de informações virtuais nivela comportamentos tanto do mundo virtual como do mundo real: colhe-se e distribui-se informações sem vontade ou tempo para analisá-las. Captam e reproduzem informações como máquinas, cheias de imagens e frases curtas, signos cheios de significado e vazios de sentido.

Para Gabler essa ausência de análise corrobora para a desvalorização das idéias, dos pensadores e da ciência, uma vez que tendemos a aumentar o volume de informações mas há o paralelo perigo de não haver mais ninguém para pensar a respeito delas.

E, sobre todo esse contexto analisado por Gabler, de suma importância para definir atuais e futuros comportamentos, também acrescento o fato de um grupo de formadores de opinião brasileiros lançarem as bases para eliminação, no processo de aprendizado escolar, da escrita a próprio punho, já que a digitação substitui, por sua rapidez, os apontamentos manuscritos. Sabemos o valor de um manuscrito para a formação e definição dos perfis psicológicos de educandos.

E, por último, duas tendências, observadas por mim, em relação aos textos que circulam pelas redes sociais: o poder de síntese, para desobrigar usuários a gastarem muito tempo em leitura de textos longos, aliados à redação de textos mediante abreviaturas, contendo erros de português e cheios de estrangerismos. Acrescento que tais vícios levam à preguiça mental e o esforço limitado para análises.


Tenho reparado que artigos mais extensos, de minha autoria, postados neste blog, geram pouco interesse ou nem sequer são lidos, a par do esforço de fazer pesquisas, buscar lançar idéias que propiciam a discussão, tornar esse espaço mais atrativo à visitação. Em conversa com alguns leitores, eles me sugerem: faça textos mais enxutos, mais fáceis de serem lidos, que não façam o leitor “perder tempo””. E eu tenho respondido: “para isso existe o twitter”.

Gabler tem razão ao afirmar que colocamos a informação acima do conhecimento, mas eu acrescento ainda: informação concisa, clara, que não dê muito trabalho para o leitor pensar e que o livre da obrigação de gerar conhecimento.

Pois, afinal, neste contexto, descrito por Gabler, vale mais gerar informação que mantenha o poder e ascendência do que propiciar a reflexão e o surgimento de novas idéias. Estamos substituindo as antigas conversas, com seu encadeamento de idéias e a sua construção de sentidos, por simples trocas de informações. Talvez seja por isso que o twitter tenha se convertido em redundante sucesso.

E se, por acaso, algum dia inventarmos uma engenhoca que leia pensamentos, para encurtar o trabalho de digitação, talvez não achemos o conteúdo gerador do grande volume de informações despejados na internet, simplesmente porque esquecemos de gerar idéias, conceitos e teorias influentes, capazes de mudar nossa maneira de ver o mundo. Aí então poderemos lembrar o maior comunicador que já passou por este País, ao dizer “quem não comunica se trumbica”.







terça-feira, 11 de outubro de 2011

O Homem que olhava para o Céu

Quando olho para trás, examinando o meu passado, identifico pessoas que de há muito me acompanham em minha jornada existencial. Dentre esses destaco um querido amigo que desde a minha juventude me acompanha neste caminhar. São quase cinqüenta anos de convívio.


Dele eu lembro uma frase célebre: “O autoconhecimento é o primeiro passo para a melhora”.  E elevo minhas preces aos céus para agradecer por tão longa amizade. E, enquanto faço isso, também me lembro de outra constante presença em minha vida, não física, porém presença sentida, de um grande Mestre Ascensionado, que ilumina meu caminho e me ensina muito sobre a arte do autoconhecimento e da transformação interior. Ambos ajudam-me a completar o sentimento que alimento em relação aos verdadeiros amigos.



O Mestre é autor dessa parábola que passo a retratar a seguir:

Shidoshi era um grande homem, que peregrinava pela terra, carregando consigo o seu saber e também a sua vontade de sentir a vida. Não tinha uma idéia exata de quem era, mas tinha a certeza de que, se continuasse a questionar e também buscar respostas, chegaria a ter uma certeza maior sobre sua pessoa.
 Certo dia, ao viver um momento de profunda tensão, Shidoshi parou para contemplar o céu, fitando as estrelas, que brilhavam naquela noite muito bela. Questionador aproveitou aquele momento para fazer uma constatação: “O fato é que eu as vejo, mas também é fato que elas não me enxergam”. E assim ele incluía mais um enigma em sua vida. Buscou a ajuda de um cientista renomado, mas se surpreendeu com a resposta às suas indagações: “como podes, pobre homem, questionar-me algo tão infame?” “Não vês que seu tamanho é deveras inferior ao das estrelas e, por isso, você as vê e também é por isso que elas não o enxergam?

Shidoshi não ficara satisfeito com aquela resposta e resolvera continuar a sua busca. Dessa vez deparou-se com um nobre guerreiro e lhe fizera o mesmo questionamento. Esse lhe respondera: porque, para as estrelas, o que vale é o coletivo de todos aqueles que hoje estão no Planeta Terra. “As estrelas não lhe vêem Shidoshi, como um único homem, porque elas entendem de grandes dunas, como se você fosse apenas um grão de areia”.

Ele começava a se conformar com aquela resposta, dizendo a si mesmo: “enxergo as estrelas, mesmo que numerosas, porque elas são maiores do que eu, e, eu, portanto, sou muito inferior a elas. Elas me vêem, na imensidão do universo, como um pequeno grão de areia, que habita a dimensão do planeta terra.

Mas ele se apercebera que acabara de validar as impressões oferecidas pelo cientista e pelo sábio homem, sem, contudo, procurar os seus verdadeiros sentimentos. Então, tornou a fitar o céu estrelado, até que chegou a tamanha familiaridade com elas, que as estrelas mais se pareciam irmãs ou primas do que propriamente estrelas distantes no firmamento. E, ao fitar os céus, também percebeu o movimento das estrelas cadentes.



E entendeu que aqueles movimentos simbolizavam uma resposta das estrelas às suas indagações. Percebeu que as estrelas brilham porque amam, brilham feito elas. Quanto mais amam, mais brilham. Quanto mais sabem que amam, mais são vistas e quanto mais vistas mais amigas e irmãs se tornam, e quanto mais amigas e irmãs possuem, mais belas tornam-se às dunas da evolução, e quanto mais belas, mais vistas, diante das verdades dos céus, mais belas se tornam às verdades da terra.

O Mestre conclui sua estória dizendo que aquele que quer enxerga as estrelas, assim como também crê que elas assim o enxergam. Esse é o poder da integração, que se expande e se estende para além de um único grão. Isso faz com que cada um compreenda a sua dimensão diante do universo. “Você é o que acredita ser, tens o tamanho do que sentes, pertences ao universo quando pensas grande, mas  és um grão de areia quando nada sentes. Da próxima vez que você ver estrelas cadentes no  céu, cumprimente-as pois são suas primas do céu dizendo: Eu vi você!”

Minhas digressões servem para exortar o valor das amizades em nossas vidas. Nada somos, sem elas. Rendo aqui minhas homenagens a todos os que convivem ou passaram por minha vida, como verdadeiros amigos, do qual torno Alfred uma das referências para os que vieram depois. Alguns já se foram, outros seguiram seus próprios destinos, outros ainda continuam a sua trajetória próximos a mim. Com meus amigos não me sinto um grão de areia. Sou um espelho que reflete a luz dos demais, estreitando os laços entre a grandeza do cosmos e a singeleza de um grande-pequeno grão de areia.

  












segunda-feira, 23 de maio de 2011

Doação


Ao examinarmos a vida dos grandes místicos, como João da Cruz, Eckhart, Agostinho, Milarepa, Patanjali, Rumi, Teilhard de Chardin, Simone Weil, Maomé, Krishna e tantos outros, temos a sensação de que estamos a anos luz de atingirmos seus estados de consciência elevados. Muito embora sejamos considerados um povo essencialmente místico.

Quando nos encontramos em situação de perigo, quando somos acometidos de alguma enfermidade, quando perdemos o controle de alguma situação, quando sentimos medo, quando queremos controlar a nossa ira, quando recebemos alguma coisa adversa, não esperada, lançamos mão de orações.

Brasileiro ora para seu time ganhar o campeonato, tirar boas notas nas avaliações escolares, passar em concursos, arranjar bons casamentos, livrar-se das dívidas, ganhar em jogos de azar, resguardar segredos, desvendar mistérios, achar objetos, manter o emprego, sair do desemprego, voltar a ter esperanças, transformar sonhos em realidade.  

São todas formas espontâneas de manifestar a fé em um poder superior, capaz de aplacar nossas angústias, dar coragem e satisfazer nossas mais estranhas aspirações, que estão à margem de dogmas e doutrinas disciplinadoras. Uma boa caminhada sempre depende do primeiro passo e sempre nos conduz a uma estrada que nos faz passar por lugares desconhecidos.

Grandes místicos ou simples transeuntes, nas estradas da vida, se lhes fossem perguntado se gostariam de passar pelo que têm que passar, certamente abdicariam de suas viagens, principalmente aquelas que incluem dor e sofrimento. Mas esse preço sempre nos leva a nos despojarmos de tudo aquilo que não é essencial ao cumprimento de nosso destino. “E é morrendo que se vive para vida eterna”, como diz o final da oração de São Francisco. Essa frase não se refere especificamente à morte física, mas a superação de estados de consciência rudimentares.

Tenho ouvido, seguidamente, amigos me dizerem que ainda se consideram muito longe de onde querem chegar, classificando a sua condição existencial como primitiva em relação aos seres considerados mais evoluídos. Sempre acreditei que o melhor não é o ser humano esquecer do estágio em que se encontra e levantar a cabeça para identificar o ponto de chegada. Ao contrário. Devemos sempre procurar conhecer os erros e nosso ego, nossas teimosias em nos fixarmos em não valores que nos impedem de servir de instrumentos para um Pai maior e para uma verdade também maior.

Um Mestre Ascencionado enfatiza, em a sua ensinança, que o que nos detém no caminho são nossos erros. Segundo Ele, Deus em sua infinita bondade, verdade e profundidade, poderia vir a terra e ensinar seus filhos a não cometerem erros. Mas estaria pecando em uma verdade original, pois o correto acerto vem da vontade de acertar.

Somos parte de um universo sagrado e, assim, devemos seguir caminhando, doando-nos verdadeiramente com aquilo que temos de melhor. Devemos caminhar não na direção do oculto, mas sim na direção do sagrado. Através desta caminhada, compreendemos que nosso desenvolvimento depende de nossas relações com os demais. Todos, segundo o Mestre, aprendemos com todos. Algum dia chegaremos a compreender que todos partimos do mesmo ponto e para este ponto retornaremos.

O Mestre lembra que, perante o Universo, somos pequenos, legítimos, necessários e sagrados grãos de areia, que fazem toda a diferença quando se comprometem uns com os outros. Para explicar melhor a sua exposição, ele conta uma parábola a qual chamou de “O gigantesco passo do pequeno”. Conta o Mestre:

Certa vez, um nobre peregrino desejava conhecer a sua história e o seu destino. Então chegara a seu pai, um nobre samurai e lhe dissera: “meu pai, sinto que chegou a hora de partir em busca de mim mesmo. Mas preciso de auxílio para isso". Seu bondoso e sábio pai lhe respondera: - filho, se sentes que essa é sua hora, então o faça. Auxiliarei em teus passos. Poderás retornar aqui sete vezes, quando necessitares esclarecer alguma  dúvida. 

O pequeno peregrino entendera o recado de seu pai. Fora ao seu quarto, pegara seus pertences e depositara tudo em um saco, colocando-o em suas costas. Escolhera um cajado e se preparava para partir em sua missão. Mas eis que surge a primeira dúvida: para onde seguir? Por onde começar?

Joshua, esse era o seu nome, chegara a seu pai e lhe fizera o seu primeiro questionamento: "Pai! Quero evoluir, descobrir-me, em meu sagrado universo, mas não sei por onde começar." Seu pai lhe respondeu:  - o primeiro passo é descobrir a vontade, para decidir onde vais. Joshua obedecera a seu pai, decidindo caminhar para o Norte.

Depois de iniciar a sua caminhada, surge uma segunda dúvida: não sabia, Joshua, apesar de sua vontade apontar-lhe a direção Norte, se sua decisão estaria correta. Mais uma vez decidira retornar ao Pai para lhe pedir uma orientação: "Pai! Segui minha vontade, mas preciso ter certeza se ela é certa". Em resposta, ouviu de seu pai:

-  Depois da vontade, o segundo passo é descobrir a verdade. A verdade, filho, é algo que se procura, deixando-se ser achado. Joshua escutou claramente as palavras de seu pai, seguindo de novo rumo ao Norte.

Mas ele começou a ouvir o seu coração e mais uma dúvida começou a incomodar-lhe. Apesar da longa distância já percorrida, Joshua retornara ao seu pai para a terceira visita:

 - Pai, escolhi o caminho pela vontade, permaneci nele pela verdade, mas agora necessito da ação. Como faço? Onde a encontro? O que fazer? Seu pai lhe respondeu: - Filho, dei-te a resposta quando te disse como encontrarias a verdade. Qual foi?  A verdade se procura deixando-se ser encontrado. Joshua escutara com atenção e seguira rumo a um novo passo. O que encontraria se permitisse ser achado? Encontraria algo denominado de “missão”.

Com isso o Mestre quis dizer que o ser humano não escolhe suas missões. Mas são escolhidos por ela.

Joshua agora partira para encontrar a sua missão. E, para tanto, teria de deixar-se ser achado por ela. E assim seguiu em sua caminhada até que ouvira um ancião, à beira do caminho, lhe chamar:

- Jovem! Podes ajudar-me? E Joshua, compreendendo que sua missão lhe chamaria de pronto, respondera que sim. O que posso fazer para ajudá-lo? E o velho lhe respondera: “cure a minha perna, pois, com o passar do tempo, ela me tirou as forças para andar”.

Mas Joshua começara a ter mais uma dúvida: teria capacidade para curar a enfermidade do ancião? Mesmo assim começara a tratar daquela perna, para saber se tinha ou não aquele dom.

Alguns dias se passaram. A perna daquele ancião não melhorava. Então, Joshua tivera a quarta dúvida: “como seguir no caminho que me procurara, se não conseguia dar a resposta certa a esse chamado. E, assim, retornara pela quarta vez a seu pai: 

- Pai! Disse-me que a minha missão bateria à minha porta e, de fato, aconteceu: um ancião pediu-me que curasse sua perna. Isso eu não soube fazer. O que está errado? O que deveria ter feito? O que preciso fazer para resolver esta situação? Seu pai lhe respondera com um novo questionamento:

- Filho! Tentaste cumprir com teu propósito ao ter a tua missão te encontrado, ou tentaste cumprir com o propósito do ancião?

Joshua, um pouco atordoado, respondera ao seu pai que tentara fazer a sua parte da melhor forma, mas que isso não resultara na cura da perna daquele ancião. Então, seu pai lhe dera a quarta resposta: "propósito! Busca um propósito!"

Então Joshua retornou ao ancião: "Senhor, o que queres mesmo que eu lhe faça? Qual é mesmo o seu propósito, estando sentado neste chão?" O ancião lhe respondera de pronto: "sair deste lugar, filho, sair deste lugar. Mas essa perna me impede."  Então Joshua decidiu ajudar o ancião a cumprir com o seu propósito.

Sabia que era forte, que era valente, que tinha preparo. O que faria então? Carregar o ancião, em seus braços. Levá-lo até um curandeiro, que logo adiante estaria à espera. Lá chegando, recebera um jarro d'água e um pedaço de pão. E, então, Joshua tivera seu quinto questionamento. Seria o jarro d’água e o pão uma resposta ou uma recompensa do universo para aquela sua boa ação?

Voltara rapidamente ao seu pai para fazer-lhe a quinta visita e a quinta pergunta: Pai! Carreguei o ancião em meus braços. Fiz a minha vontade e também uni a vontade de meu coração com o propósito daquele velho ancião. Não pude curar sua perna, mas encontrei alguém, no caminho, que me encontrou; alguém, pai, que poderia curar-lhe a perna. Ganhei um jarro d'água e um farto pedaço de pão. Essa é a recompensa?

E seu pai lhe perguntou: filho, essa é a recompensa do universo pelo seu feito, ou a forma de o universo lhe dizer que precisas te manter forte para continuares a carregar? Ao que Joshua, confuso, perguntou: como saberei isso? E assim surgiu sua quinta lição: doação.

Então, de posse de mais um ensinamento, voltara àquele lugar, agradecendo ao curandeiro e seguindo adiante. Um pouco mais à frente encontrara uma nobre dama, com dois filhos e um cesto repleto de sementes. Sem vacilar, dirigiu-se à tal dama e lhe perguntara se precisava de alguma ajuda. A dama prontamente dissera: - sim, cavalheiro, é claro que quero sua ajuda. Necessito carregar este cesto de sementes até o outro lado daquela montanha. Joshua, em silêncio, pegara as sementes, colocara-as em sua cabeça e seguira montanha acima, montanha abaixo, até o lugar apontado por aquela nobre dama.

Mas, ao deixar as sementes, Joshua sentira-se estranho. Um cansaço muito diferente abateu suas forças e o seu coração. Joshua não se sentia em paz. Mas também não tinha certeza se, de fato, gostaria de continuar sua viagem. Então, retornara ao caminho tenso e surpreso, sentindo uma má sensação corporal e emocional. Decidira retornar de imediato ao pai, usando de suas últimas forças para isso. Fizera a sua sexta visita ao seu pai.

Antes mesmo de fazer sua pergunta, o pai indagou: "andaste um bocado fora de teu caminho, não foi?"  E o filho, surpreso, perguntou: - pai, como sabes que andei montanha afora, longe de meu caminho? E o sábio pai lhe respondeu:

- Porque, filho, somente se cansa, na caminhada da evolução, aqueles que perdem seu rumo. Então me ouça com atenção. Essa nobre dama o impediu de carregar suas sementes? Não. Recusaste um propósito alheio? Não. Usaste de tua vontade própria? Sim. Então eis a tua sexta lição: o livre arbítrio. Procuraste ou foste procurado? Procuraste. Foste ou não desviado de seu caminho? Sim. Entendeste que poderias fazer uso de teu livre arbítrio? Sim, mas isso poderia te gerar muito cansaço, uma lei secundária a essa estagnação ou atraso, porque, no universo, tudo está alinhado de forma perfeita e, nesta vida, tudo está contado no sagrado relógio do tempo e do espaço. O uso do livre-arbítrio, assim como o conhecimento de nossos propósitos, pode, por vezes, ser sábio. Mas outras vezes pode significar esforços cansativos.  

E, então, munido de tal resposta, Joshua retornara ao seu caminho e o seguira com maior retidão. Sabia que poderia ajudar a muitos, carregar poucos, curar alguns, cantar, se divertir, casar, ter filhos, envelhecer. E eis que surge uma nova dúvida: antes de deixar esta vida, como ensinar aqueles por quem deveria passar a nobre forma de evoluir?

Então, retornara ao seu pai pela sétima vez: como passar adiante as sete leis ou missões, a forma certa de evoluir? Então o pai respondeu: - filho livra-te de tudo aquilo que diz respeito a um propósito cego. Procura te nutrir de tudo aquilo que diz respeito a uma missão, porque o propósito cego é aquele baseado em uma vontade sem conhecimento e sem experiência. Mas a vontade munida de verdade e de experiência pode contrariar o destino, posto que contraria a sagrada lei da doação.


Então respondera ao seu filho: despoja-te de tudo aquilo que diz respeito à vaidade e encontrarás a fórmula certa para seguir com tua missão de evoluir. E, então Joshua fechara os olhos e fizera a sua passagem sentindo-se certo, sereno e seguro de que havia aprendido finalmente a evoluir.

Com essa estória, o Mestre quis lembrar que o destino coloca sempre o ser humano no lugar certo, na hora certa, no tempo exato. Os propósitos, a vontade de alcançar conhecimento, missão ou doação são as verdades que podem levá-lo ao correto caminho, à correta caminhada ou ao correto passo. Nesse sentido, lembra que Deus foi perfeito na sua forma de trabalhar a evolução. Porque colocou que o propósito da missão não é feito por ciclos, mas, sim, pelo caminho.

Nesse sentido, indaga: se perguntassem a Jesus, antes de sua vida pública, se gostaria de ser filho do Grande Senhor e ter de servir de exemplo, acham que Ele diria sim? E a Chico Xavier se gostaria de movimentar, ajudar e curar massas, deixando de lado todos e quaisquer prazeres da vida terrena? Acham que ele diria que sim? Certamente não.

Mas eles foram exemplos de seres humildes, que enfrentaram um propósito, não para si mesmos  e, sim, para outros e fizeram o que lhes estavam sendo solicitados. A Espiritualidade acontece quando crescemos, evoluímos e nos desenvolvemos através de um princípio único chamado de doação.

O Mestre considera mágico um ser humano agir pela vontade de escolher um bom caminho, seguir alimentado por sua sede e, nessa caminhada, achar um rio que alimenta a muitos com seus peixes, com suas plantas, com suas verdades e com seus valores, tudo isso sem saber ao início, que poderia fazer isso. Achar-se um curador, caminhar como um carregador e terminar seus dias como um bom pai, um bom filho, um bom cônjuge, um bom amigo.

Ele lembra que somos um pouco como Joshua, que, por um instante, um momento, sente-se perdido, cansado ou em dúvidas. Não é errado não saber para onde ir, para onde seguir, o que fazer. Mas é sempre certo doar-se, dando o melhor de si mesmo.

O Mestre pergunta: “pensam que grandes físicos, químicos ou matemáticos já sabiam, desde o berço, que seriam aqueles que muito contribuiriam para a humanidade? Não”.

Não seria cada um de nós, seres humanos, verdadeiro grão de areia, vistos pelo Grande Arquiteto do Universo? Cada um de nós, carregando suas verdades, cumpre com seus propósitos. Mas, assim como Joshua, acaba encontrando pelo caminho o propósito de outro.

Nesse sentido, o Mestre compara a nossa missão com a de uma flor, que deseja sair e mostrar-se a uma bela jovem, mas não pode se locomover. Deus estaria sendo injusto com esta flor? Estaria lhe dando vontade própria e um propósito também próprio, de entregar-se a alguém,  não lhe dado condição para mover-se. Então Ele pergunta: o que ela faz? Ele responde: cumpre com seu propósito. E qual é esse propósito? Deixa-se ser achada. Por quem? Por quem estiver pelo caminho, que tanto pode ser um pássaro, uma abelha, um ser humano. E ela seguirá com seu propósito, quando tiver por propósito a doação, não é mesmo? Trabalhar por si mesmo não constitui um propósito, porque não envolve doação.

Ele explica que não há caminho se ficarmos sentados, de olhos fechados, dizendo: ”me achem, eu não farei nada, me achem”. Cumprir com um propósito necessariamente deve ser com doação. A doação deve partir de uma retidão. Como Joshua, que recebeu um jarro d'água e um pedaço de pão, como forma de o Universo contribuir com sua verdade. Isso não é doação.Significa que plantar não é obrigatório, mas a colheita sim.

Para iniciar a sua jornada, é só seguir rumo ao norte, rumo às sete verdades do caminho. Quais são elas? Vontade, verdade, deixar-se ser achado, missão, propósito, doação e retidão. 

quinta-feira, 14 de abril de 2011

O caminho certo

Nem sempre é fácil usarmos sabiamente o livre-arbítrio para alcançarmos uma dimensão mais ampliada de nós mesmos. Muitas vezes utilizamos falsas premissas para buscarmos o equilíbrio e a consciência que nos levem a uma relação mais harmônica com a natura, com as pessoas, com a possibilidade de transformar a nossa vida para podermos viver mais no amor, na paz e na harmonia.

Um querido Mestre Ascensionado conta a seguinte história, que reflete nossos enganos diante das escolhas que fazemos.

- Uma jovem era devota de São Francisco. Todo o dia, antes de iniciar suas tarefas, parava em frente ao seu altar, acendia sua vela e rezava fervorosamente ao seu protetor. Era tão devota que não começava nada, em seu dia, sem antes cumprir com seu ritual sagrado de orações. Certa vez, em um dia nublado e ventoso, seguia com seu ritual quando ventos fortes invadiram o recinto e apagaram a chama de sua vela. Tantas vezes ela acendera novamente a chama quanto os ventos apagavam o fogo que ardia.  Até que ela sentiu-se vencida pelo vento.

Pensando sobre as tentativas frustradas, concluiu que São Francisco poderia estar lhe dizendo que, naquela manhã, não desejava o seu rito de orações. Ela tratou de consolar-se, afirmando a si mesma ter feito a sua parte, mas fora impedida pelo que considerava um aviso para não seguir em frente.

Na verdade, o vento cumprira com o seu papel. Posto que não possui célebro, nem pensamento, fizera o que tinha que fazer: simplesmente soprar. Embora munida de três inteligências (espiritual, emocional e racional), teria que ter feito a leitura correta da situação. Teria de ter fechado as janelas ou simplesmente prosseguido com suas orações, em frente ao altar, sem a necessidade de usar a vela. Assim teria cumprido sua tarefa diária com devoção e desprendimento. A partir desse dia a devota passou a sentir a sua fé abalada, porque passou a achar que seria São Francisco quem deveria resolver aquela questão para ela. 

Quantas vezes, diante de uma dificuldade não examinamos adequadamente a situação e acabamos por tomar decisões precipitadas, afoitas, com base em falsos juízos ou com base no exame parcial da situação e, depois, buscamos justificativas para aplacar a nossa consciência, dizendo que a nossa parte havia sido cumprida. E, em ato contínuo, pedir a um ser de luz que resolva um problema que o seu fraco comprometimento e a sua visão distorcida lhes conduziram à inércia.

Quantas vezes nos dispomos a realizar um trabalho, impulsionados por nossas intenções, porém alicerçado em pouca perseverança e determinação, em pouca disposição para assumir responsabilidades e em pouca renuncia à nossa persona.

Muitas vezes, oramos erroneamente a Seres de Luz para agradá-los, quando o certo é seguir em direção à evolução a partir de nossas próprias escolhas. Trabalhar para a formação de uma consciência holística não implica somente em viver paixões e prazeres pessoais, mas assumir compromissos e comprometimentos. No caso da jovem, antes de pedir a São Francisco que corrija o seu erro, deveria trabalhar para alterar o seu estado de consciência.

Quantas vezes ficamos à espera de uma ajuda “superior”, à espera do milagre, para resolver nossos problemas, sem fazermos adequadamente a nossa parte. Quantas vezes pedimos aos seres de luz que nos atendam em nossas súplicas, sem atentar para o fato de que as escolhas são nossas.

Certamente nem São Francisco nem quaisquer outros seres de luz se negarão a fazer a sua parte. Mas não lhes cabe ficar julgando quem pode ter mais ou menos merecimento. Todos os seus fiéis seguidores formam uma grande irmandade voltada à realização da Obra Divina e todos se encontram em igualdade de condições, não por merecimento, mas segundo o seu grau de doação, partilha, entrega, comunhão.  

Em se tratando de São Francisco, todos os seus devotos devem procurar materializar o seu credo de fé: levar amor onde houver ódio, o perdão onde houver ofensa, a união, onde há discórdias, a fé onde há dúvidas, a verdade, onde houver erros, a esperança, onde há desespero, a alegria onde há tristeza, a luz, onde há trevas. Devem mais consolar do que serem consolados, compreender mais do que ser compreendido, amar que ser amado, doar, antes de receber, perdoar para ser perdoado, morrer para chegar à vida eterna.

Por isso, conforme lembra o Mestre, a verdade de um é a verdade de todos e a verdade de todos deve seguir a verdade de um. Se refletirmos, poderemos perceber que tudo está interligado e que, sozinhos ou isolados, não chegaremos a lugar algum. Todos nós fazemos parte de um contexto. Perda de um, perda de todos.

Assim como essa jovem, não devemos nos preocupar em realizar ações bonitas e importantes para mostrar ao Universo, para que sejamos, perante Ele, reconhecidos. Não devemos ficar a frente de uma vela, inertes, sem buscarmos nossas respostas certas, tentando, insistentemente acender a chama, para vermos um pouco mais, e, sem muito esforço, dizer que não conseguimos porque o vento a apagou. Isso implica em assumir atitudes que não nos levam a uma condição confortável, de ficar acomodado e fechado aos demais, circunscrito ao seu pequeno mundo, sem olhar para o que acontece à sua volta.

Se a busca é espiritual, orar é importante, cantar é importante, conhecer é importante, pedir é importante. Mas isso não é tudo. O mais importante é sentir-se unido aos demais, ser solidário, compassivo, como um verdadeiro guerreiro de luz. São essas atitudes os pilares de construção do Plano Divino, a que estão empenhados seres como São Francisco de Assis. Para os obreiros do Universo, o maior trabalho consiste em dar a assistência, a ajuda, como instrumentos de paz, de amor, de união.A oração de São Francisco reflete tal diretriz. 

Quem inicia uma caminhada espiritual sabe que não há volta. Não há como negar o que já se conhece de si, das próprias caminhadas e de outros, também. Para os homens adormecidos, uma vida comum, onde nascem, crescem, estudam, trabalham e têm filhos, mas não sabem o que fazem, somente respondem à estímulos. Sequer conhecem seus propósitos, seus inícios para justificarem seus fins.

Mas para aqueles que decidem acordar, dar auxilio, prestar ajuda, ser solidário representa a Páscoa, a partilha, o renascimento em tudo e em todos. É o alargamento de seus horizontes interiores. Somente chega ao final do caminho quem tiver paciência, inteligência e compaixão. Seres como Francisco trabalham pelos exércitos de luz e não para defesas de egos. Se sua vela da fé se apagar, simplesmente lembre-se de seguir em frente, sem deixar que o vento da dispersão justifique a falta de fidelidade aos compromissos firmados. 

quarta-feira, 2 de março de 2011

Alquimia

Senhor! Graças por me dar a força e a convicção para completar a tarefa que me foi incumbida.  Agradeço por me guiar através da retidão pelos inúmeros obstáculos no meu caminho. E por me manter firme, quando tudo parecia perdido. Pela proteção e pelos muitos sinais pelo caminho. Graças pelo bem que tenha feito e perdão por algum mal. Agradeço pela amiga que fiz. Olhe por ela como tens olhado por mim. Agradeço por permitir meu descanso, afinal. Estou muito cansado. Agora descanso em paz, sabendo que fiz o bem em meu tempo na terra. Eu combati o bom combate. Cheguei ao fim da corrida. Eu mantive a minha fé.
        Do filme: O Livro de Eli.

 

Essa oração foi proferida ao final de uma vida, cujo protagonista cumpriu com seus desígnios e, já moribundo, dirigiu-se a Deus para agradecer pelas graças recebidas, encontrando alivio depois de muitas lutas e descanso após enfrentar um caminho cheio de adversidades. É o ser humano artífice, que cria, recria e transforma a sua vida. Uma vida cheia de provas e também de aprendizados, capaz de alternar momentos de intensa fecundidade e prosperidade ao lado de outros marcados por adversidades e desafios. 


Nem sempre conseguimos ultrapassar com facilidade nossas adversidades. Não raro esbarramos em nossas limitações, principalmente quando nos vemos em pleno ciclo de prosperidade e a vida nos coloca, de forma compulsória, obstáculos que nos levam a perder, de forma inexorável, tudo aquilo que havíamos construído com esforço e determinação. E aí começa uma fase de provas e sacrifícios.


Quantas vezes nos sentimos completamente vencidos em nossas batalhas? Quantas vezes nos sentimos impotentes para fazermos frente aos obstáculos que surgem em nossos caminhos? Quantas vezes tentamos, incansavelmente, virar o jogo e em vão ficamos retornando à estaca zero? Quantas vezes sentimos perder o nosso livre-arbítrio, nos tornando cativos de um destino adverso que avança sugando nossas forças e roubando nosso entusiasmo?


Quantas vezes nos sentimos sem forças para levantarmos da lona e reiniciarmos nossa jornada de virada? Quantas vezes nos sentimos absolutamente impotentes e incapacitados de ingressarmos nas camadas mais sutis de nosso ser para lermos os sinais que a própria vida oferece? Quantas vezes deixamos a fé de lado, de acreditarmos em nós para virar o jogo de adversidades que assolam nossas vidas?


Nossas vidas obedecem a ciclos e muitas vezes estamos tão aferrados a uma etapa, apegados ao status quo vigente, que somos incapazes de reconhecer que chegamos ao final de uma estrada e é chegada a hora de nos lançarmos no futuro, desconhecido, de mãos vazias.


Essa é a hora de nos tornarmos artífices, deixando de olhar para fora e buscando um olhar interno capaz de produzir a verdadeira alquimia. Para uns, a Alquimia seria uma prática ligada à transmutação em ouro de meta-metais considerados inferiores. Para outros, seria a obtenção do Elixir da Longa Vida.


Outros, ainda, acreditam que alquimia seja uma fórmula de se obter a pedra filosofal, uma substância mística. Embora seja considerada ciência, por combinar elementos de Química, Antropologia, Astrologia, Metalurgia, Matemática também é vista como manifestação de Magia, Filosofia, Misticismo e Religião.


A Alquimia é considerada a precursora da ciência moderna, tendo sido disseminada na Mesopotâmia, no antigo Egito, no mundo islâmico, na América Pré Histórica, na China e na Europa. Para mim, é simplesmente uma representação simbólica associada às práticas de purificação espiritual.


Por mais diferenciadas que sejam as formas como vivemos, sempre estamos passando, a cada dia de nossas vidas, por transformações. Algumas sutis, que passam despercebidas de nossa consciência. Outras, pelo esforço e pelo sofrimento que envolve, deixam suas marcas indeléveis impressas em nossas almas para o resto da existência.


Deixarmos um ciclo e passarmos para outro implica em promovermos uma alquimia interior. Renovarmos a fé em nós mesmos, nos apoiarmos em nossas virtudes e utilizarmos nossos defeitos e limitações não para esquecê-los, mas para transmutá-los a fim de nos tornarmos pessoas mais completas. É a hora de passarmos pelo teste da persistência e da coragem de quem busca concretizar o seu destino existencial.


Somos verdadeiros guerreiros, empunhando suas espadas dotadas de duas lâminas. Uma serve para o bem e outra para o mal. Tudo depende de nossas escolhas. A espada simboliza nossa mente superior e está ligada às decisões que temos que tomar permanentemente em nossas vidas.


Quando tudo é adverso, é hora de buscarmos o poder interior para saber agir dentro dos princípios de ação e reação que regem essa lei cósmica imutável. Entrar em sintonia com o Universo e escolher, dentro todos os projetos existenciais, aqueles que mais se coadunam com o cumprimento de nosso destino. Pois, quando queremos algo acima das demais coisas, como se nossa própria vida dependesse de alcançá-lo, todo o Universo conspira a nosso favor. Para isso me lembro de uma frase, adotada por espíritas, que diz: “Deus dá assistência àqueles que agem e não àqueles que se limitam a pedir”.