sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Amargo Pesadelo

Há filmes que marcam a nossa vida. Um dos que permanecem ainda vivos, em minha memória, é, sem dúvidas, o filme Amargo Pesadelo, que assisti aos 23 anos de idade (1972). Desde o primeiro momento estabeleci uma empatia instantânea com a fotografia, o enredo e o desempenho dos atores, mas, principalmente, com a proposta de roteiro, por representar a eloqüência do comportamento humano. Dentre o elenco, as impagáveis atuações de Burt Reinolds e John Voigth.

O filme conta a trajetória de quatro amigos que resolvem sair em férias, longe do ambiente urbano, para desfrutar um convívio com a natureza. Tudo segundo um planejamento prévio, onde a principal aventura seria seguir até as cabeceiras de um caudaloso rio e descer suas correntezas, até o remanso, quilômetros rio abaixo. Tudo isso montados apenas num barco inflável e contando com a coragem e o desafio de fazer a determinação vencer a força das águas.

Mas aquilo que parecia, de início, apenas uma forma de executar o que fora programado, veio a se tornar um enorme pesadelo, quando a canoagem virou a defesa da própria vida. No grupo havia um líder (Burt Reinolds), determinado e seguro frente ao que estabelecera como desafios programados.

Mas a sorte troca de lado quando os aventureiros encontram dois homens predadores, que caçavam animais em vias de extinção, para ganhar um bom dinheiro no mercado ilegal de peles. O confronto se estabelece e um dos nossos aventureiros é estrupado e humilhado. Em represália, o líder dos aventureiros (Burt Reinolds), acaba matando um dos caçadores, mas, antes, é ferido na perna.

Verifica-se assim que, diante do perigo, o líder perde a sua empáfia, enquanto o mais tímido (John Voight) é compelido a assumir a liderança e vai, aos poucos, ganhando auto-suficiência e desenvoltura, para a chegar a assumir as características de um verdadeiro líder, mais afeito ao imprevisto e dentro de um clima de hostilidade cujo perigo de vida era iminente.

Também devo fazer uma especial menção à cena de um “duelo”, que acontece entre um garoto autista e seu banjo e um dos personagens aventureiros e seu violão. Esta semana recebi um e-mail, enviado por uma diletíssima amiga, contendo o segmento do filme em que ambos tocam os seus instrumentos. Segundo esse mesmo texto, a cena surgiu de um imprevisto, onde a equipe parou num posto de gasolina e encontrou o menino. O Diretor Boorman acabou por inserir tal “duelo”no roteiro, mas os expectadores é que foram realmente contemplados com uma das mais inesquecíveis realizações humanas, onde um dos protagonistas, considerado “normal”, consegue se relacionar com um menino autista através da música.

Agradeço à minha amiga Ana por este envio, assim como a Deus por poder relembrar deste filme que marcou o final do último século. Inspirado na vida real, a arte é capaz de mostrar que as lideranças são relativas, dependem das circunstâncias e muitas vezes escondem os verdadeiros heróis, fazendo uma verdadeira apologia à tendência humana de construir seus mitos.

Quantas vezes, na vida nacional, a realidade copia a ficção? Os líderes autênticos só surgem na adversidade. Quem sabe se, sob determinadas condições hostis, muitos dos atuais governantes, que tecem a sua imagem pública, com o intuito de se tornarem mitos, possam derrubar suas máscaras e evidenciar os verdadeiros heróis anônimos, aqueles que possuem uma alma altruísta e estão despidos de quaisquer relações de poder, mas que trabalham pelo bem-comum e carregam consigo a verdadeira condição de liderança. São, esses últimos, capazes de nos tirar do perigo que viceja o cenário nacional, tanto pela insegurança das ruas quanto pelos efeitos danosos das especulações e das negociatas que estão encobertas pela visão mítica, mas que não resistem sequer à primeira adversidade e onde as coisas começam a sair de controle. Daí para frente os atores mudam e só os verdadeiros líderes são capazes de levar ao remanso e à calmaria o bote das circunstâncias que assolam a vida nacional. Quanto ao final do filme? Bem eu acho que ainda existem, nas locadoras, cópias suficientes para você rever Amargo Pesadelo, e descobrir por si mesmo o final desta película, inspirada pela música e pela interpretação de um altista que se universaliza através da sua música e nos deixa a certeza que há, entre os céus e a terra, mais mistérios do que nossa vã filosofia consegue explicar.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

IMAGEM

Todos nós temos uma imagem a preservar.

Não basta abrir os olhos para a vida, olhar sujeitos ou objetos, através de nosso olhar peculiar, aprender a enxergar o que está subjacente ao que nossa retina consegue captar, identificar o que é essencial para a existência, expandir a consciência para levá-la a compreender as grandes verdades universais.

É preciso alimentar a voraz fome de construção de nossa imagem pessoal, para que os outros nos vejam através dela, como filtros que recomponham a luz e permitam uma imagem instantânea adequada, captadas por lentes de uma máquina fotográfica.

Esse aparente desprezo pelo simples, pelo tangível, não nos serve, pois nossa visão imediatista acredita que a melhor forma de alcançarmos a eternidade seja através de uma imagem construída, um rótulo que retire nossas imperfeições e enalteça nossas virtudes, a serem mantidas como ícones de verdadeiros super-homens que passam à eternidade como verdadeiros mitos.

Somos ególatras que não encaram o próprio ego como uma ferramenta, mas como um fim em si mesmo, verdadeiros buracos negros que vão, aos poucos, sorvendo pedaços de humanidade que habitam em nós.

Esse ego que criamos para nossa libertação, mas que, aos poucos, se converte em verdadeira figura opressora que nos escraviza:

“O que os outros vão pensar”? “Falem bem ou mal, mas falem de mim”!”Eles me adoram!” Eles não podem viver sem “mim”. “Sou mais eu”!

Necessidade imanente, busca constante, alcance efêmero, vamos utilizando-a como escudo e também como trampolim para reafirmar a nossa presença neste Planeta.

Seguir nossas próprias pegadas, superar limites, enfrentar desafios, sem deixar que nossa imagem sirva de referência. E, quando ela é posta em cheque, pelas adversidades, nos dispomos a reconstruí-la, tal qual um barco que precisa de uma bússola para singrar os mares em busca de aventuras.

Nosso ego trabalha a imagem como condição essencial para vivermos emoções e deixar nossas pegadas por onde passamos, até que os ventos do destino às apaguem, e até que uma nova cruzada seja empreendida, sempre pela teimosia de imprimir, de forma duradoura, as marcas por onde passamos.

O que nunca sabemos é se ela, a imagem, conseguirá construir vida própria, e sobreviver à nossa morte, para alcançar a eternidade, já que morrer faz parte da inexorabilidade da vida.

Difícil mesmo é renunciar. Senão de forma espontânea, de forma compulsória.


A renúncia caminha em sentido contrário à imagem e, por isso mesmo, é relegada como filha indesejável que nasce de um simples ato de prazer. Ao contrário, prevalece nossa eterna busca pela alquimia de fazer transformar imagem em mito.

“O Mito é o nada que é tudo”, como dizia o poeta Fernando Pessoa, Renunciar x Preservar a Imagem é o grande dilema deste século.

E assim seguimos pela vida, procurando a nossa identidade a partir dos ícones que herdamos de nossos antepassados, cujo nome é um selo de nossa individualidade.

Sobre isso escreveu o saudoso poeta Mario Quintana:

“Um ser humano só é ele mesmo enquanto os pais ainda estão discutindo um nome para batizar. Até então é anônimo, como um animalzinho sem dono, simples filho da Natureza e de mais ninguém. Sem laços de parentesco e outras contingências sociais. E, depois, estará correndo o riso de lhe darem um desses horrorosos nomes tradicionais de família”.

Lúdica paixão pela imagem, tão passageira, tão impessoal quanto o passar das horas.

Mas como escolher um outro caminho, sem imagem, porém com conteúdo? Basta encontrar o caminho do verbo e não do sujeito, cuja ação nos transporta pela estrada que nos dá a plenitude da criança, antes que o nome nos encontre, antes que a imagem seduza, como verdadeiro ópio que vai nos afastando do que é essencial para nossa eternidade.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

TÊMPERA

Lembro-me bem, apesar de passados quase trinta anos, quando visitei, pela primeira vez, o Município de Nova Friburgo, no Rio de Janeiro. Cidade acolhedora, natureza pujante, povo hospitaleiro, economia calcada no turismo. Pois foi lá que tive uma das mais expressivas experiências de vida.

Fui recepcionado por um dos meus melhores amigos, que já tive nesta vida, embora, depois disso, tenha desaparecido de minha vida sem sequer revelar o motivo. Não há mágoas nem ressentimentos, somente reverências e gratidão a
esse amigo, que já não sei mais por onde anda.

Acomodado em sua bela e muito confortável residência, fiquei hospedado num quarto de onde, pela janela, descortinava a vista de um belo e majestoso pico, mata verdejante e um pequeno lago.

O cenário era tão luxuriante que lhe convidei para fazermos um passeio pela região. Aceito o convite saímos caminhando em meio à mata e aos campos inclinados por uma topografia acidentada, onde a declividade, às vezes, nos obrigava a curvar os nossos corpos para mantermos o equilíbrio.

Subimos uma ribanceira para chegarmos a um patamar de onde se descortinava toda a região entorno e de onde podíamos avistar de perto o vôo das águias em busca de suas presas.

O preço pago por tal aventura foi a longa caminhada de volta, que passou por matas fechadas, nos tirando o senso de direção e a consciência do tempo a ser gasto até nosso lugar de origem.

Demoramos a aceitar o inexorável fato de estarmos perdidos, embora meu amigo fosse morador daquele local. Para isso ele sugeriu que subíssemos numa pequena plataforma que permitiria um vislumbre do sitio urbano e assim ele se localizar em relação ao rumo e o trajeto a ser seguido.

Ao subirmos por aquela pequena ladeira, descobrimos que sua casa estava localizada em linha reta, um pouco abaixo de onde estávamos. Era fácil: bastava seguirmos alguns marcos visuais, caminhando em linha reta, para simplesmente chegarmos ao nosso destino.

Mas o que parecia fácil e simples se revelou uma das mais difíceis experiências vivenciadas em toda a minha vida.

Entre o local onde estávamos e o nosso destino havia uma área extensa de capim gordura, que possuía dois metros de altura, aproximadamente, e, portanto, não permitindo visualizarmos nada senão aquela montanha de capim.

O sol já estava alto. Nós estávamos vestidos de bermuda e chinelo. Por isso o calor e a pouca roupa foram as primeiras adversidades, porque a cada passo que dávamos, o capim se enroscava em nossa pele suada e seus espinhos provocavam cortes que doíam como navalha. A vegetação espessa impedia o avanço rápido, obrigando-nos a dar passos lentos, vigorosos, para quebrar a barreira vegetal, assim como o advento de cada corte fazia doer não só a pele, mas a própria alma.

Atravessar aquela vegetação por quase duas horas de caminhada foi uma verdadeira tortura. À medida que avançávamos, em nossa caminhada, o cansaço aumentava, assim como a dor pelos cortes e pela coceira provocada pela mistura de suor e seiva.

Então comecei e não parei mais de me queixar ao meu companheiro de infortúnio, por cada uma das dores sofridas, bem como pelo sacrifício da jornada. Ele ouviu, por um longo tempo, as minhas lamúrias em silêncio, até que não agüentou minhas súplicas e me perguntou: o que eu posso fazer? O jeito é aprender a suportar a dor.

Pronto. Lá estava eu com um proveitoso material para análise e aprendizado. Depois de duas horas de verdadeiro inferno, saímos num campo roçado, localizado a poucos metros da residência de onde tínhamos partido. E não parei mais de pensar o quanto nos deixamos levar pelas fraquezas de nosso ego. Por tão pouco, deixamos a nossa auto-estima abalada e por isso mesmo, pela piedade a nós deixamos de seguir em frente.

A pena que sentimos em relação a nós é essencialmente maior do que a determinação e a têmpera para vencermos os obstáculos. Quantas vezes recuamos, desviamos e fugimos da luta por termos pena de nós mesmos? Quantas vezes deixamos de acreditar em nossa capacidade para enfrentarmos os obstáculos que se interpõem entre nós e o nosso destino final?

Quantas vezes nossa presunção nos leva a acreditarmos que, para chegarmos onde queremos, basta seguir em linha reta, através de uma caminhada visível aos olhos, porém ignorando os obstáculos por onde temos que passar?

Queremos, muitas vezes, atingir nossos objetivos sem caminharmos até lá. Ou não passarmos por obstáculos, que queimam a nossa carne e provocam dor em nossa própria alma, muitas vezes aumentada por nossa auto-piedade. Para tudo há um preço. E, quando a pela começa a doer e a coçar, é porque nossa tempera está começando a ser testada.

Nesse caso, o melhor a fazer é deixar de olhar o prazer que nos aguarda e voltar toda a nossa atenção a cada passo que damos, renovando forças e buscando coragem renovada para chegarmos, novamente, aos campos limpos e fáceis de caminhar. Senão, as contingências que a vida nos reserva fará a sua parte, criando situações onde somos compelidos a atravessarmos campos hostis, se quisermos chegar ao remanso e o conforto de olharmos a natureza pujante como lazer e prazer.

E mesmo não pensando nelas, as adversidades chegam, sem convite, para lembrar que ninguém vem a este mundo a passeio. A tempera só nasce onde haja, antes, a ousadia e determinação, mesmo que essas estejam acompanhadas por dor e sofrimento. Quando menos esperamos, encontramos a adversidade onde esperávamos encontrar uma estrada aberta e confortável, fruto mais de nossos devaneios do que a dura realidade que o destino nos coloca por onde devemos passar.

sábado, 26 de setembro de 2009

COERÊNCIA

Há uma passagem de Mahatma Gandhi, um dos seres mais perfeitos que esta Terra já conheceu, que se refere ao princípio da coerência humana.

Conta-se que uma mãe foi procurá-lo, lhe fazendo o seguinte pedido:

- Mestre! Eu gostaria que o Senhor ensinasse o meu filho a não comer açúcar.

O Mestre pensou um pouco e disse:

- Sim. Mas volte daqui há duas semanas e traga consigo o seu menino.

A mãe não soube bem entender o que o Mestre quis lhe dizer, mas acatou e esperou o intervalo que lhe fora solicitado.

Passadas as duas semanas a mãe retornou ao Mestre e lhe disse:

- Fiz conforme o Senhor me recomendara. Agora gostaria de lhe pedir para que ensine o meu filho a deixar de comer açúcar.

O Grande Mahatma olhou o menino, se aproximou dele e se colocou de cócoras, para que seu rosto fitasse o menino frente a frente. E carinhosamente balbuciou:

- Não coma açúcar!

Feito isso se levantou e já ia embora, quando a mãe do menino lhe interpelou:

- Mestre! Eu saí de casa de madrugada, andei quilômetros até chegar aqui. Enfrentei animais bravios, atravessei leito de rios com o menino no colo, carreguei-o após se cansar, para o Senhor fazer algo que eu mesma poderia ter feito, em casa, sem precisar passar por todo esse sacrifício. Por que o Senhor fez isso comigo!

- É porque antes eu comia açúcar, minha filha!

A coerência está entre as atitudes humanas mais difíceis de ser praticada.

Geralmente, procuramos mostrar às pessoas não a imagem de quem realmente somos, mas a imagem de quem gostaríamos de ser. Criamos uma imagem distorcida, capaz de esconder a nossa própria arrogância, a nossa soberba. Outras vezes criamos falsas imagens para sermos admirados, respeitados e até mesmo temidos por atitudes contundentes que escondem o medo, a insegurança e a nosso complexo de inferioridade.

Criamos um mundo à nossa própria imagem e semelhança. E queremos que tudo se encaixe dentro dele do jeito que nós projetamos por nossa concebida persona. Somos críticos ferozes dos outros, vorazes julgadores dos demais, para demonstrar a nossa sapiência e sabedoria de enxergar o mundo. Mas somos benevolentes e modestos em relação a nossos atos e atitudes. Tudo isso para evitarmos o confronto com nossos arquétipos, construídos para referendar a imagem de pessoas fortes, inteligentes, bem-sucedidas, que estão um degrau acima, em ascendência sobre os demais.

Quem ama a si mesmo sabe do amor a si mesmo e também a coerência entre os arquétipos que construímos e a realidade de quem somos. Quando temos auto-estima, sentimos respeito e confiança em relação a nós mesmos e em relação aos demais. Assumimos uma atitude positiva e aberta e sabemos que estamos de bem com o mundo.

Quando nossa auto-estima é baixa, relativizamos a confiança em nós e nos fechamos para o mundo. Deixamo-nos, simplesmente, levar pelos arquétipos construídos. Quando nos amamos, damos importância à integridade e à ética, avaliando corretamente as implicações de nossos atos na vida de outras pessoas. Quando nos amamos de verdade temos um propósito de vida e a condição de traçarmos o futuro desejado.

Gandhi sabia que a auto-estima é um fenômeno que tanto é causa como efeito. Foi sincero consigo, para encontrar a coerência, respeitou os sentimos alheios, sem deixar de reconhecer os seus próprios. Foi solidário com o outro, sem deixar de ser a si. Foi implacável consigo e amável com o outro. O resultado final demoveu frustrações e lhe possibilitou o equilibro em si.

Esse é um exemplo a ser seguido por todos aqueles que procuram levar uma vida coerente, conseqüente e feliz. Afinal, os arquétipos existem enquanto não descobrimos a nossa essência. Enquanto a imagem que vendemos aos demais ainda é fruto de um mundo criado à nossa própria imagem e semelhança, porém insuficiente para responder as três perguntas que nos movem por esta existência: quem sou eu, verdadeiramente, de onde vim e para onde vou.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

REFLEXÕES SOBRE A VIDA

Um discípulo procurou o seu Mestre e lhe perguntou:

- Mestre, o que é a vida?

O Mestre ficou em silêncio. Mas o discípulo não se contentou e novamente lhe perguntou:

- Mestre, o que é a vida?

E novamente o Mestre permaneceu em silêncio.

Inconformado, o discípulo insistiu uma vez mais:

- Mestre, o que é a vida?

E novamente o Mestre nada lhe disse. Em razão disso, o discípulo, mesmo inconformado, permaneceu calado, enquanto realizavam trabalhos manuais.

Mais tarde, o Mestre rompeu o silêncio e disse ao inconformado discípulo.

- Vamos, agora, parar de trabalhar e vamos ao cinema.

O discípulo perguntou uma vez mais:

Ao cinema, Mestre?

Ao que o Mestre pegou as suas coisas foi saindo de casa. O discípulo o seguiu.

Compraram bilhetes, pegaram pipocas e entraram na sala de projeção para assistir ao filme.

Quando já haviam assistido dois terços do filme, o Mestre se levantou e disse:

- Vamos embora.

O discípulo, também inconformado, levantou-se contrariado e o seguiu. Já na rua o discípulo disse:

Mestre! Eu nem esperava vir ao cinema. O Senhor me trouxe. Já que eu fui compulsoriamente levado a assistir a este filme, passei a me interessar pelo enredo e, quando eu já estava gostando de assisti-lo, o Senhor se levantou e viemos embora. Por que o Senhor fez isso comigo?

O Mestre lhe respondeu:

- Ué! Você não queria saber o que é a vida? A vida é isso. Quando começamos a gostar das coisas, elas mudam. Os ciclos acabam. As coisas se transformam. Então, meu filho, a vida é mudança. Quando achamos que estamos satisfeitos com alguma coisa, a vida nos coloca à prova e nos tira o que nos causa estabilidade e prazer. A vida é um eterno devenir.

Com efeito. Somos surfistas, com a missão de permanecermos fixos à nossa prancha, enquanto o mar revolto nos carrega para cá e prá lá! Só temos que aprender a escolher, diante de nossas provas: lamentarmos o que nos acontece ou simplesmente buscarmos nos liberar de nossas culpas e mantermos a serenidade enquanto caminhamos através de nossas experiências. Muitas vezes, estamos tão preocupados em querermos saber o que é a vida que acabamos por nos esquecermos de vivê-la, e encontrarmos nossa felicidade, apesar de todas as armadilhas que a própria vida nos surpreende. Muitas vezes renunciar às contingências que ela nos coloca no caminho constitui o primeiro ato para vivermos as mudanças compulsórias. Tal qual surfista, nos deixamos levar pelas ondas, mas nossa preocupação maior deve ser manter o controle, apesar de seguirmos correntes que mudam e mudam de direção. Quando começamos a gostar do filme, a vida nos chama para levantar e sair para uma nova jornada, onde a única constância é saber que nada é verdadeiramente constante.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Paz interior

Chega um momento, na vida de um ser humano, que ele deixa de buscar fora de si e passa a se interessar em fazer uma verdadeira viagem a seu interior, no sentido de encontrar respostas às suas indagações existenciais. O seu lado transcendente lhe chama. Não segue mais pela estrada da ambição, pois ela leva a caminhos voláteis. Nem o da ira, pois essa somente destrói. Nem o do medo, pois esse estanca a sua caminhada. Nem o do prazer, pois esse é efêmero.

Nem mesmo o do apego, pois esse não lhe leva à grandeza de sua alma. O poder lhe subtrai a solidariedade e a participação. A luxúria leva à sensação momentânea. A gula à insaciedade. A vaidade conduz ao egocentrismo.

Nossas limitações indicam a desarmonia interior. Somos seres imperfeitos, em busca da tão almejada perfeição. Nascemos assim, imperfeitos, como única forma de aprendermos com nossos erros, para sabermos separar conquistas transitórias de conquistas permanentes.

Há seres que conseguiram superar todas essas limitações e hoje estão livres de quaisquer vaidades, apegos ou situações criadas pelo ego. Dedicam-se a ajudar àqueles que precisam e estão envoltos em visões nebulosas dos caminhos a seguir. São os Mestres Ascencionados.

Por seu estado evolutivo, os Mestres não gostam de notoriedade e, por isso mesmo, preferem permanecer no anonimato. Nesse sentido, há um amado e consagrado Mestre que vive lembrando: “Se encontrares a paz, no que sentes, estarás eternamente grato ao seu coração”. Ele lembra que estar em paz é estar com sua consciência em paz, sem culpas, sem conflitos, sem julgamentos, mas em perfeita harmonia em relação atodo o seu ser.

A melhor forma de sabermos se estamos seguindo o rumo certo é sabermos se o que estamos fazendo nos deixa em paz e em perfeita harmonia e sintonia com aqueles que interagem conosco em nosso quotidiano. Com a paz compreendemos nossas limitações e também vislumbramos os caminhos a seguir. Ouvimos a voz de nosso coração e nos alinhamos ao verdadeiro eu que quase sempre permanece calado, enquanto nos ocupamos em alimentar um ego ávido de paixões e prazeres caracterizadamente voláteis.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

O Espelho

Diz a lenda que um jovem rei formulou o propósito de conquistar todas as terras à sua volta e tornar o seu reinado único, senhor de todas as plagas, de todas as águas, de todo o ar que sopra prá lá e prá cá. Sonhou em ser um soberano entre todos os homens. E assim se dispôs a fazer, guerreando, conquistando, impondo-se, afastando tudo aquilo que lhe cruzava o caminho.

Anos depois, o Rei conseguiu realizar o seu intento. Não havia mais nada a ser conquistado. E, assim, finalmente se dispôs a desfrutar de suas conquistas. Mas o tempo foi passando ele acabou por entediar-se com a rotina e a sucessão de dias que se repetiam mais e mais. Já não sabia mais como lidar com aquela realidade, que lhe devorava o entusiasmo e a alegria de viver, embora fosse um soberano respeitado, admirado e cortejado.

Então resolveu instituir três prêmios para aquele pintor que conseguisse pintar o quadro mais bonito e significativo. O primeiro deles, é claro, seria a mão de sua filha, a princesa mais linda e mais cobiçada do Reino. O segundo era uma fortuna em jóias que trouxera de suas conquistas. E o terceiro era a doação de parte de suas terras àquele que viesse a lhe mostrar como devolver à sua alma a alegria de viver e a felicidade.

Vieram pintores dos mais variados lugares de seu extenso reino. E o Rei foi selecionando as obras e candidatos, até que sobraram apenas dois pintores, um representando o lado ocidental e o outro o lado oriental de seu reinado.

Para tanto, recomendou que cada um pintasse uma nova tela, da qual ele, pessoalmente, deveria acompanhar passo a passo a sua materialização. Colocou-os em um grande salão, mas cuidou de separar cada pintor, sua tela e suas tintas, em um recinto, dividindo o grande salão ao meio por uma cortina. Ambos não poderiam enxergar o que estava sendo produzido pelo seu concorrente. Mas o Rei e seus súdidos poderiam observá-los a trabalhar através de uma visão frontal.

O pintor que representava o lado ocidental de seu reino começou a trabalhar, colocando na tela inúmeras cores, iniciando um desenho a partir de uma apurada técnica. Enquanto isso, o artista, que representava a banda oriental de seu Reino, levara apenas um enorme espelho, acomodado entre cavaletes. O Rei não entendeu nada, mas deixou os pintores continuarem o seu trabalho. A noite já ia avançando e o pintor ocidental delineava um quadro muito lindo, com cores quentes que encantavam à medida que produzia cada pincelada.

Enquanto isso, o pintor oriental apenas pegara uma flanela e se colocara a polir o espelho. O Rei continuou a não entender nada, deu uma risadinha e determinou que os pintores fizessem seus trabalhos até o amanhecer do dia, quando seria escolhido o vencedor. E assim eles obedeceram e assim eles continuaram o seu trabalho. Enquanto o pintor ocidental projetava na tela a sua obra, o artista oriental apenas polia.

O Rei pensou consigo de como seria idiota e incompetente o pintor oriental, que, talvez, tivesse medo de pintar e de ser julgado por sua obra, assim como de quão inspirado estava o pintor ocidental.

A noite avançou e, já de madrugada, o Rei pediu aos candidatos que culminassem os últimos detalhes de suas “obras”, pois o amanhecer já se avizinhava. Um pouco antes do amanhecer, o Rei determinou que os artistas parassem seus trabalhos, pois o tempo já havia se esgotado. O pintor ocidental havia produzido um belo quadro. O pintor oriental se limitara a polir o espelho.

O Rei, em sua soberba, já se preparava para indicar o pintor ocidental como vencedor. Levantou-se e, para proclamar a sua escolha, deu uma última olhada no espelho e em tom de ironia determinou que os panos, que separavam os ambientes, fossem removidos e o salão fosse restaurado em toda a sua dimensão.

Diante dos primeiros raios de luz, o Rei começou o seu discurso. Mas nem bem havia iniciado o seu pronunciamento, verificou que um raio de luz penetrara naquele recinto, pela janela, e se projetara diretamente em cima do espelho, que, por sua vez, refletiu a luz da alvorada por sobre o quadro, iluminando-o e tornando suas cores esplendorosas, seus traços luminescentes e sua obra a verdadeira expressão daquele amanhecer.

E o Rei compreendeu que, na vida, conquistas externas só levam ao tédio. Mas conquistar a si mesmo, para impregnar-se de amor, paz e bem-aventurança lhe dá o sentido maior de sua existência. E que sua felicidade não vinha de o fato de ser cortejado, admirado e reverenciado, mas, sim, de fazer a sua alma brilhar como reflexo de toda a criação, bebendo, assim, direto da fonte que lhe dá a vida.

Compreendeu que, em lugar de ter olhado para fora, para buscar novos domínios e para subjugação das pessoas, deveria ter polido sua alma, para que seus súditos fossem inspirar-se à construção de uma sociedade humana mais justa, mais fraterna e absolutamente mais solidária.

O pintor oriental ganhou o prêmio, não por ter esfregado, à noite inteira, um pedaço de vidro, mas por ter conseguido, por seu exemplo, inspirar o mais temido e o mais bravo dos guerreiros, porém não imune a esconder a sua condição humana que luta, sofre, entendia-se, mas nem por isso mesmo deixa de estar subordinado à maior de todas as leis: para se chegar a transcender o nosso estado de consciência mundano temos que colocar a luz em nosso interior, iluminando as trevas e seguindo rumo à plenitude de nossa condição cósmica e universal. Chamem-nas de paraíso, nirvana ou quais outras designações que só a vida interior é capaz de identificar ou reconhecer, destituída de adjetivos, mas repleta de significados de um verbo muitas vezes esquecido, enquanto nos dispomos a conquistar o que não é verdadeiramente duradouro*.


* Texto produzido com base em contos que são disseminados de forma oral, pela tradição, cujo autor permanece desconhecido, até o momento de sua redação.